BRB (BSLI3): desempenho, governança e perspectivas

Segundo Michel Bezerra, é preciso ficar atento ao processo de expansão do BRB e como será sua governança depois do episódio do Banco Master.

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Michel de Paula Bezerra, analista de research do Trix
Michel Bezerra (foto divulgação Trix)

Conversamos sobre o BRB, Banco de Brasília, com Michel Bezerra, analista de research do Trix.

Qual a sua avaliação sobre o desempenho do BRB?

Vale recapitularmos um pouco a trajetória do BRB para que possamos contar o seu filme, e não a sua foto. Ao longo dos últimos anos, principalmente depois de 2019, o BRB vem em um processo de transformação. O BRB era um banco majoritariamente local focado no desenvolvimento do Distrito Federal, mas com todo o movimento de entrada dos bancos digitais durante a pandemia, ele viu uma oportunidade de expandir o seu portfólio e a sua operação de forma geográfica, o que lhe permitiu ter um crescimento bastante expressivo.

Para que tenhamos uma ideia, no começo de 2019 a sua carteira de crédito somava cerca de R$ 7 bilhões, sendo que no final do primeiro semestre de 2025 (1S25) ela estava em R$ 59 bilhões. O BRB também fechou o 1S25 com R$ 67 bilhões em depósitos e 9,6 milhões em clientes localizados em 19 estados e no Distrito Federal. Esses números mostram um pouco da transformação pela qual o BRB passou nos últimos anos.

Em um primeiro momento, esse forte crescimento pressionou um pouco os spreads e a sua rentabilidade, quando o banco teve uma proposta de precificação de produtos mais agressiva. Em termos de margem financeira, principalmente quando falamos de NIM (Net Interest Margin/Margem de Juros Líquida), depois que o banco veio em uma decrescente, principalmente em 2021, 2022 e 2023, ele acertou melhor a mão em 2025, pois reviu parte das suas precificações.

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Com isso, além do banco ter tido um aumento de volume gerado pelo crescimento da sua carteira de crédito, ele também teve um crescimento dos seus spreads, que, consequentemente, bateu na sua lucratividade e na sua rentabilidade. Por exemplo, se em 2024 o BRB rodou com um ROAE (Return on Average Equity) de 6,2%, no 1S25 ele rodou com 26,6%. Contudo, essa melhora do ROAE precisa ser acompanhada ao longo dos próximos trimestres para que se possa ver se esse patamar vai ser mantido.

Como o BRB se posiciona no mercado bancário brasileiro?

Como o BRB passou a ter uma atuação nacional, principalmente através do seu canal digital, a sua carteira passou a ser focada em dois produtos: consignado, que conversa muito com o fato do banco ser estatal e de boa parte dos salários do funcionalismo do Distrito Federal passar por ele, e crédito imobiliário. No sistema financeiro, esses dois produtos são bem menos arriscados por serem colateralizados.

Qual a sua avaliação sobre o payout e o dividend yield do BRB?

Aqui, vale lembrar um pouco sobre como funciona a lógica de um banco. Para que ele possa crescer, ele diminui a distribuição de resultados, já que existe a questão do capital mínimo dos bancos, como o Índice de Capital Principal e o Índice de Basiléia. Dessa forma, considerando a proposta de crescimento do BRB, ele acaba pagando menos dividendos. Por exemplo, o BRB não tem um payout muito elevado, e o seu dividend yield ficou entre 4% e 5% nos últimos anos. É por isso que ele não chama tanto a atenção como outros nomes do setor.

Qual a sua avaliação sobre o desempenho das ações do BRB?

O desempenho não é positivo. Cabe ressaltar que esse desempenho conversa com a rentabilidade do banco, que cresceu abrindo mão do ROAE. Além disso, como o BRB é um banco estatal, ele tem um prêmio de risco embutido, sem contar que o papel tem baixa liquidez, o que também tem um peso.

Diferente de outros papéis, o BRB não tem uma performance positiva, seja para a janela mais positiva de 2025, seja para uma janela mais extensa de 3, 5 anos.

A ação do BRB é para que perfil de investidor?

Nos últimos três meses, o BRB teve uma liquidez diária de cerca de R$ 35 mil. Como não se vê investidores relevantes investindo em papéis com esse tipo de liquidez, o BRB acaba não sendo coberto pela maioria das casas, pelo sell side. Ele também não é coberto pelo buy side, já que o ticket para entrar e sair é muito pequeno. Com isso, o BRB fica reduzido ao investidor pessoa física que vai atrás de uma small cap que não é muito olhada, na esperança de que o mercado dê mais atenção lá na frente. Esse é um investidor mais avançado, que vai montar todo o trabalho de análise de balanço e de valuation para saber se vale a pena entrar ou não.

Qual a sua avaliação sobre o valor da ação do BRB?

O valor da ação do BRB conversa com todos os fatores que comentei. O valor diz jus ao fato do banco ser estatal, a sua baixa liquidez e aos riscos inerentes, como nos acontecimentos relacionados à tentativa de aquisição do Banco Master.

O BRB insistiu porque insistiu na compra de parte do Banco Master, que não foi efetivada porque não foi autorizada pelo Banco Central. Que mensagem essa insistência do Banco de Brasília manda para os seus acionistas minoritários?

Essa insistência mandou uma mensagem bastante negativa, principalmente pelo risco de governança devido ao fato do banco ser estatal. Vale comentar que quando a aquisição foi anunciada, o mercado já tinha conhecimento de todos os problemas do Banco Master.

Fazendo uma recapitulação para quem ainda não entendeu qual era o problema do Banco Master, de forma bem resumida, ele tinha um descasamento entre captações e aplicações de recursos. Como o Banco Master distribuía, através de diversas corretoras, CDBs com remunerações bastante altas, de até 150% do CDI, ele tinha que fazer aplicações que condissessem com a nível de rentabilidade das captações, sendo que essas aplicações, basicamente, eram precatórios, que são caracterizados pelos altos retornos, mas também pela alta incerteza de recebimento. Como esse descasamento levou o Banco Central a liquidar o Banco Master, o fato do BRB ter sinalizado ao mercado que queria comprar o Banco Master foi bastante negativo.

Cabe destacar que o BRB tentou emplacar essa aquisição dizendo que não ia adquirir os ativos mais estressados do Banco Master, mas pode-se dizer que essa tentativa de aquisição, no mínimo, foi apressada, até pela negativa do próprio Banco Central. Diga-se de passagem, uma das alegações do Banco Central para negar a compra foi a falta de documentos que comprovassem a viabilidade econômica- financeira da operação. Além disso, como se viu no noticiário, havia interesses de cunho político para que a negociação saísse, o que mostrou algum tipo de ingerência política.

Um minoritário, que tem participação em uma estatal, espera uma análise técnica e diversos checks and balances na governança para que esse tipo de evento seja evitado.

Como você está vendo as perspectivas do BRB?

Nós temos que entender o que vai acontecer daqui para a frente, pois o Ministério Público e a Polícia Federal estão investigando todo o envolvimento entre o BRB e o Banco Master. Por exemplo, segundo o noticiário, entre 2024 e 2025, principalmente no período em que se estava para saber se o BRB ia comprar ou não o Banco Master, o BRB comprou ativos sem lastro em uma tentativa de dar uma sobrevida ao Banco Master até que saísse a aquisição. Dessa forma, é preciso esperar que tudo seja averiguado para se saber o que aconteceu, até para que se possa saber se o BRB vai sofrer algum tipo de sanção, que tipo de sanção, e como isso vai ter impacto no seu capital. 

Isso porque, como o BRB está em processo de crescimento, ele precisa ter o seu índice de capital mais reforçado. Caso ele sofra o impacto de multas, será preciso entender os seus patamares e como isso vai ter impacto no seu capital, justamente para que se possa avaliar se será preciso fazer um aumento de capital ou algo do tipo. É importante lembrar que o BRB já fez um aumento de capital no início de 2025 para reforçar o seu balanço e seguir com o seu movimento de expansão.

Considerando a nossa conversa, você gostaria de acrescentar algum ponto à sua entrevista?

É preciso separar o BRB dentro das quatro linhas para entender se ele vai seguir com o processo de expansão, entregando uma boa rentabilidade, e o que o banco vai fazer com a sua governança para que o episódio do Banco Master não se repita mais no futuro.

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