Bulgária revela bons frutos da semente dionisíaca

Após reestruturação, a indústria vitivinícola investe em qualidade e experimenta um período de expansão.

Seguindo com os vinhos da Europa Oriental, embora sem o prestígio da Hungria, advindo do seu nobre Tokaj, alguns países apresentam antiga vinicultura, mesmo que interrompidas em alguns momentos de seus tumultuados históricos políticos.

Bulgária é um desses, que conta inclusive com alguns rótulos disponíveis no mercado brasileiro. Os territórios onde se encontram hoje Bulgária, Romênia, Moldávia, Grécia, Turquia, Macedônia e Sérvia foram habitados pelos antigos trácios, um grupo cultural étnico de tribos indo-europeias, muito ligado às origens culturais do vinho, tanto que se acreditava que o Deus Dionísio era de origem trácia. Parte da cultura trácia persiste nos rituais folclóricos e lendas búlgaras, e a produção de vinhos sobreviveu ali ininterruptamente.

No período medieval, a conexão entre o cristianismo e o vinho deu grande impulso à vitivinicultura europeia durante séculos. E na Bulgária não foi diferente – há registros de que os monges do Monastério de Bachkovo bebiam em média 4 taças de vinhos por dia e, em algumas celebrações, essa quantidade dobrava. Se a orientação religiosa foi fundamental para a prosperidade do vinho em dado momento, posteriormente o desfavoreceu.

Em 1396, a Bulgária foi integrada ao império Otomano, cujas regras foram desastrosas para o vinho, já que o islamismo não encorajava sua produção e consumo, que foram reduzidos por alguns séculos. Só no século 19 é que houve um renascimento da atividade, e o vinho emergiu como um dos elementos importantes para afirmar a identidade búlgara, enfraquecida pelo domínio otomano. O país buscou se inspirar em modelos enológicos mais modernos da Alemanha e da França para desenvolver a sua produção de vinhos, que aumentou de forma significativa, mesmo com os entraves da praga da Filoxera na virada do século. Em 1944, a superfície de vinhedos chegava a 143.103ha.

O período de integração ao Bloco Soviético, entre 1946 e 1990, foi marcado por grande investimento no setor, uma vez que o vinho búlgaro teve papel econômico importante para esses países. Já em 1956, a Rússia importava 56 milhões de litros de vinhos búlgaros, gerando muita receita para produtores e exportadores. Um programa de modernização foi implementado, com estímulo à plantação de cepas internacionais, uso intenso de mecanização e ampliação dos vinhedos. Mas o foco na produção em escala do período comunista comprometeu o aspecto qualitativo, e isso impactou o período posterior, seguinte ao fim do bloco comunista.

A partir de 1991, a Bulgária começou a trilhar o caminho difícil de recuperação da dependência do mercado russo e de enquadramento aos padrões qualitativos da vitivinicultura da Europa Ocidental. Foram quase três décadas de reestruturação e, nos últimos anos, a indústria experimenta um período de expansão e certo reconhecimento internacional da qualidade dos seus vinhos.

Há uma concentração na produção: 10 grandes produtores respondem por 55% do mercado, e mais de 250 vinícolas disputam com dificuldade uma pequena fatia d bolo. Há uma tendência à criação de produtos premium, embalados em garrafas grossas que impressionam, num estilo semelhante ao perfil dos vinhos do Novo Mundo, quando emergentes – vinhos tintos concentrados, com muita madeira nova e uso das principais cepas francesas (Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Pinot Noir).

No entanto, há uma vertente do público enófilo internacional que se interessa por cepas nativas e métodos menos intervencionistas, junto do qual as castas próprias desses lugares de viticultura antiga fazem sucesso. Mavrud tem sido a principal bandeira búlgara: cepa tinta autóctone de qualidade mais plantada no país, cujos vinhos são concentrados em cor, álcool, taninos, acidez e aromas. Produção de orgânicos e vinhos laranja também fazem parte das inovações.

 

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Míriam Aguiar
Jornalista, educadora e especialista em vinhos

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