"Cada obra pertence ao seu tempo"

Empresa Cidadã / 13:22 - 27 de mar de 2001

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(Machado de Assis, 1839-1908, em Helena) Poucas instituições resistiram à recente passagem do século sem questionamentos quanto à sua eficiência. As empresas administradas conseguiram este feito e, no início do século XXI, apresentam-se como capazes de transformar a sociedade. Há cem anos atrás, creditava-se esta capacidade às grandes ideologias e religiões. Como será no limiar do próximo século? A empresa administrada aparece hoje como uma das instituições sociais de sucesso. Ela transforma recursos em bens, acumula capital, com destaque para o capital intelectual, e satisfaz os desejos da sociedade na forma de bens. E é principalmente na forma de bens que a sociedade atual satisfaz os seus desejos. Neste cenário, a empresa-cidadã representa o papel de sucessora de outras instituições na busca do bem comum. Trata-se de uma atribuição de significado contraditório. Por um lado, a empresa-cidadã dispõe de um domínio tecnológico, em especial no âmbito da gestão, que supera o de outras entidades. Até há pouco tempo atrás, ninguém veria fora das atribuições dos governos a responsabilidade pelas políticas públicas com os propósitos de promover a qualidade ambiental ou a redução das desigualdades. Outros ficariam satisfeitos com a prática simples da filantropia, pedágio para ingresso em um mundo futuro e melhor. Quanto aos governos, no entanto, a capacidade de gestão e financiamento deles passa por um processo severo de questionamento. Já as religiões, parece que mais se expandiram aquelas que oferecem o paraíso já. Por este motivo, a empresa-cidadã chega a ser apontada por muitos como a instituição que restou para assumir o exercício antes creditado às políticas públicas. Não existe, contudo esta regra três institucional. A empresa-cidadã ainda atua pontualmente, segmentando os seus atendimentos, o que não permite caracterizar sua ação como sendo pública, isto é, indivisível. Ademais, se comparado o seu atendimento com o dos governos, a escala em que operam é muito menor, sendo válido questionar se o domínio das tecnologias de gestão seria o mesmo numa escala maior. Acrescente-se que o controle social sobre as iniciativas de empresas é diferente do controle social exercido sobre os governos. Observadas sob a ótica dos projetos que executam, as empresas-cidadãs oferecem um elenco admirável de iniciativas. Seja no que se refere aos benefícios proporcionados aos seus colaboradores, aos recolhimentos compulsórios de tributos e contribuições, aos investimentos sociais, às iniciativas ambientais ou ainda à transferência de tecnologia de gestão para iniciativas comunitárias, as empresas-cidadãs têm disponibilizado otimismo quanto a caminhos possíveis no sentido de uma sociedade mais justa. As iniciativas, que podem ser admiradas tanto quanto quantificadas, trazem uma reflexão crítica. Como será a capacidade de financiamento desses empreedimentos sociais após o estágio em que nos encontramos, no qual muitos projetos são realizados na gordura das estruturas empresariais, aproveitando capacidades instaladas disponíveis? Ou valendo-se de criatividade e originalidade, inerentes ao início de um processo, que nem sempre se sustenta com a escala? A ação da empresa-cidadã ainda é percebida pela perspectiva de realização do dispêndio que ela faz em projetos ou pela transferência de recursos disponíveis para eles. Assim é entendida a responsabilidade ambiental, por exemplo. Mas quantas das empresas que se consideram responsáveis socialmente racionalizam, reciclam ou reduzem o uso de papel, energia, água e outros recursos? Outras formas de medição estão sendo elaboradas para aferir também este lado da cidadania empresarial. Para continuar contemporânea com o seu tempo, a empresa-cidadã que é conseqüência de uma reflexão crítica sobre o papel da empresa administrada na sociedade, precisa movimentar-se cada vez mais na formação de parcerias que envolvem universidades, ONGs e outras lideranças preocupadas com as condições presentes e futuras de convivência social. QUALIDADE DE EMPRESA-CIDADÃ "Missão criança" é o nome sugestivo do projeto empreendido pela Tele Amazônia Celular Participações, cujo objetivo é retirar crianças dos lixões de Manaus e Macapá e proporcionar o ingresso delas na escola. Incluído na visão estratégica da empresa, o projeto ofereceu bolsas de estudo para crianças de 111 famílias de baixa renda, que viviam na dependência desta instituição nefasta do ponto de vista social e ambiental, disseminadas pelo país inteiro, que são os lixões.

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