A polêmica envolvendo o conceito da nova camisa da Seleção Brasileira, apresentada pela Nike através da campanha ‘Vai, Brasa’, passou longe de dividir opiniões. Nas redes sociais, a repercussão mostrou um sentimento de reprovação em 75% das menções ao tema, entre os dias 21 e 25 de março, em plataformas como Instagram, Facebook e X. É o que mostra um levantamento feito pela doutora em Marketing e professora da FGV, Lilian Carvalho, em parceria com a Polis Consulting, que analisou 180 mil posts relacionados à nova camisa desde o seu lançamento. Dentro desse recorte, a pesquisadora destaca que 40% dos usuários demonstraram ‘raiva’ e 32% ‘nojo’, especialmente em relação ao termo “Brasa”, uma abreviação informal para “Brasil”.
“Quem se posicionou contra o uso do “Brasa” argumenta que isso descaracteriza a tradição da Seleção e que “Brasil”, entoado nas arquibancadas, tem um peso emocional insubstituível. Já os comentários a favor apontam para uma atualização natural da linguagem digital e para o alinhamento com públicos jovens e conectados”, afirma Carvalho, que estuda tendências de consumo e o comportamento social nas plataformas digitais.
De acordo com o levantamento, apenas 3% dos posts fizeram menção positiva ao tema, com sentimento de “alegria”, e os demais 22% foram classificados como neutros.
A avaliação da especialista é de que o “erro” da campanha não foi o design da camisa em si, mas sim a tentativa de atualização, sem a real identificação popular, de um dos símbolos máximos do futebol em todo o mundo. “É justamente por mexer como uma tradição que o “Brasa” soa deslocado. Não se trata apenas de uma discussão estética ou geracional, mas de entender que certos símbolos e palavras carregam uma memória coletiva que não se atualiza por decreto de branding. “Brasa” pode funcionar como gíria de rede social, hashtag ou apelido carinhoso entre torcedores, mas, estampado como marca oficial no uniforme da Seleção, entra em choque com a própria força da palavra “Brasil””, explica.
Lilian Carvalho acredita que entre os 75% das pessoas rejeitam essa mudança, o problema não é a resistência ao novo em si, e sim a percepção de que se está mexendo num dos poucos consensos emocionais do país. “A Nike parece ter entendido isso quando recuou do uniforme vermelho. Se insistir no “Brasa”, corre o risco de transformar um símbolo de unidade em mais um motivo de ruído, o que, para uma camisa que sempre falou por si, talvez se torne em um grande fiasco”, avalia.
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