O avanço das chamadas canetas emagrecedoras, usadas no tratamento da obesidade e do diabetes, começa a produzir efeitos que vão além da saúde e já movimenta bilhões na economia. O aumento da demanda impulsiona o faturamento de farmacêuticas e redes de farmácia, pressiona as importações e estimula uma corrida global por novos medicamentos. Ao mesmo tempo, especialistas apontam possíveis impactos em setores como alimentação e esportes, indicando mudanças no padrão de consumo e no mercado nas próximas décadas.
De fato, o varejo alimentar no Brasil passa por uma transformação relevante nos hábitos de consumo, impulsionada por novos comportamentos de saúde e bem-estar. Entre os fatores com maior potencial disruptivo estão os medicamentos análogos ao GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, como Ozempic e Mounjaro.
De acordo com o Relatório Global sobre Saúde Corporativa 2026 da Howden, corretora global especializada em seguros de alta complexidade, dois terços dos empregadores (65%) já listam a tendência de uso desses medicamentos como uma das principais preocupações em relação aos custos de saúde. O impacto financeiro deve ser sentido com mais força nos próximos meses: 53% projetam que os gastos com essas terapias devem aumentar entre 5% e 25% em 2026.
Menos ultraprocessados, mais fibras: efeito no varejo alimentar
O mercado brasileiro de GLP-1 está em forte expansão. Projeções indicam que o segmento pode atingir US$ 9 bilhões até 2030, com crescimento médio anual estimado em 40%. Em 2025, o setor já movimenta cerca de R$ 10 bilhões no país, sem considerar o mercado informal.
O principal impacto desses medicamentos está na redução da ingestão calórica, que pode variar entre 20% e 30%. Usuários relatam diminuição significativa do apetite e menor consumo de alimentos ultraprocessados, especialmente aqueles ricos em gorduras e açúcares — o que pode gerar efeitos diretos sobre categorias estratégicas do varejo alimentar.
“Essa mudança de comportamento se traduz em uma alteração no mix de produtos consumidos, com queda na demanda por carboidratos, doces, salgadinhos e bebidas alcoólicas, e aumento na busca por proteínas, fibras, suplementos e vitaminas. O consumidor passa a preferir porções menores e alimentos mais densos nutricionalmente, buscando equilíbrio e funcionalidade em suas escolhas”, avalia Rangel Turatti, gerente sênior da Peers Consulting + Technology.
Para Turatti, a revisão do sortimento é crucial. Os varejistas precisam reduzir a exposição a categorias em declínio (como ultraprocessados e doces) e expandir a oferta de itens de saúde e bem-estar. Isso inclui produtos frescos, orgânicos, ricos em proteínas e fibras, além de suplementos e vitaminas. A busca por saudabilidade e funcionalidade não é nova, mas o GLP-1 acelera essa transição.
“A mudança no perfil de consumo e a demanda por produtos mais específicos exigem uma revisão da logística e da cadeia de suprimentos. Os varejistas precisarão otimizar a gestão de estoque para produtos de alta e baixa rotatividade, garantindo a disponibilidade dos itens mais procurados e minimizando perdas”, recomenda o especialista.
Canetas emagrecedoras impulsionam consumo esportivo
Além disso, a popularização das canetas emagrecedoras passou de tendência de saúde a motor concreto de expansão também do esporte no Brasil. A transformação corporal acelerada levou um número crescente de pessoas a buscar academias, piscinas, corridas de rua e treinos funcionais como parte da manutenção dos resultados e da construção de uma rotina ativa.
Esse movimento encontra um mercado já robusto. Em 2025, o setor esportivo brasileiro deve movimentar cerca de R$ 30 bilhões, impulsionado por uma população mais ativa e pelo avanço do varejo de performance. O país mantém mais de 30 mil academias em operação, com faturamento anual próximo de R$ 12 bilhões e cerca de 10 milhões de clientes ativos.
O segmento de vestuário esportivo é estimado em R$ 25 bilhões e também acompanha esse crescimento, com destaque para eventos esportivos, que movimentam aproximadamente R$ 800 milhões em inscrições, ativações e venda de produtos associados. Esse avanço forma um público que chega à atividade física em plena transição corporal, com necessidades específicas de mobilidade, conforto e adaptação.
Segundo o CEO da Speedo, Roberto Jalonetsky, o movimento ajudou no crescimento das vendas de roupas esportivas da marca no ano passado. A percepção está relacionada ao avanço de 18% em relação a 2024 na categoria. Estudos realizados pela própria Speedo também apontam um aumento de 23% nas vendas de peças em tamanhos menores, movimento associado à redução das medidas do consumidor.
No e-commerce, a análise de compras revela que uma parcela significativa dos clientes passou a adquirir numerações inferiores. Muitos migraram do GG para o M, por exemplo, saltando dois números. Esse fenômeno pode estar relacionado ao uso crescente de medicamentos voltados ao tratamento da obesidade e ao controle metabólico, que promovem redução rápida e expressiva de peso.
Com isso, a marca vem ajustando sua linha de produtos para atender à demanda por tamanhos menores. Pessoas que passam por emagrecimento acelerado tendem a iniciar ou intensificar a rotina de treinos, buscar fortalecimento muscular e melhorar o condicionamento físico, ampliando a base de novos praticantes e impulsionando o consumo de vestuário esportivo.
Para Jalonetsky, as canetas emagrecedoras mudaram o ponto de partida da prática esportiva. “Estamos recebendo no esporte pessoas que transformaram o corpo em poucos meses e agora precisam consolidar essa mudança por meio da atividade física”, afirma.
“O consumidor mudou, e a diversificação deixou de ser opcional e passou a ser parte central da estratégia para quem quer crescer em mercados cada vez mais competitivos”, finaliza Jalonetsky.
“O cenário atual exige que as empresas do varejo alimentar não apenas reajam, mas antecipem as mudanças impulsionadas por alterações no perfil de consumo. A capacidade de otimizar as estratégias e refinar o planejamento é fundamental para a sustentabilidade e o crescimento no longo prazo”, conclui Turatti.
Por Gilmara Santos, especial para o Monitor
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