Canto da sereia

Eleito pelos bancos de investimento e especuladores o porto mais seguro entre os mercados emergentes, o México rejeitou uma das exigências neoliberais: o Senado de lá arquivou, no final de abril, três projetos que permitiriam a privatização e o desmantelamento das duas empresas estatais responsáveis pela geração e distribuição de energia elétrica no país. Também a Suprema Corte mexicana rejeitou decreto do presidente Vicente Fox que, na prática, criava um mercado desregulamentado de eletricidade. Fox, porém, não se dá por vencido. Determinou aumento das tarifas – entre 30% e 100% – para tentar convencer a população que só a competição poderia trazer preços menos salgados.

Por decreto
Também no Canadá a desregulamentação do mercado de energia elétrica vai sofrendo reveses, maiores após o fim do sonho da norte-americana Enron. A privatização da estatal Hydro One, na província de Ontario, só pode acontecer com aprovação do Legislativo, segundo a Justiça, ao contrário do que desejava o governo local. Como se vê, também no Canadá a relação entre neoliberalismo e democracia fica nos limites da amizade colorida.

Malan x democracia
Depois de meses de molho, está de volta a tentativa de interditar aos eleitores brasileiros a oportunidade de transformar o voto num instrumento de mudança. Principal vocalizador desse autoritarismo tardio, o ministro Pedro Malan insiste em arrancar dos candidatos, inclusive dos que se opõem à sua política econômica, o compromisso de continuidade dos “fundamentos” impostos ao país em oitos anos.
Tal nível de arrogância não foi insinuado sequer pela ditadura, a qual Malan se orgulha de ter combatido. Para além do autoritarismo hidrófobo, a pretensão malaniana traz embutida em si sua própria condenação. Afinal, qual a herança intocável que o ministro pretende engessar? Seriam metas de inflação que ele próprio em dois anos não conseguiu cumprir? Ou ainda a eternização de níveis medíocres de crescimento, que devem fechar os longos oitos anos de sua gestão em patamares ainda mais danosos ao país do que os da década perdida?
Malan sabe que a questão central em jogo nas eleições deste ano será justamente o julgamento do legado da nomenclatura econômica. Se a aceitação do produto entregue por ele ao mercado eleitoral gozasse da mesma reputação que os sábios tucano se atribuem, certamente o candidato do Planalto não estaria patinando na campanha nem o burgomestre estaria a importunar o país com sua pretensão descabida.

Collor na frente
“Desminto, categoricamente, que tenha eu participado ou emulado qualquer acordo relativo ao noticiado apoio do PRTB de Alagoas à minha candidatura à Presidência da República. Acordos regionais são tema que está sendo tratado pelos dirigentes dos partidos que integram a Frente Trabalhista – PPS, PDT e PTB. Contradições, portanto, referentes a este assunto devem ser esclarecidas pela direção nacional dos três partidos. Tentar envolver-me nisto é: 1) inverdade; e 2) esforço de fomentar intriga.” Essa nota oficial foi distribuída ontem pelo candidato à Presidência da República Ciro Gomes, a respeito de notícias envolvendo aliança entre ele e o ex-presidente Fernando Collor. Mesmo que parcialmente desmentido, continua a mancha do apoio collorido.

Vaga certa
A Secretaria estadual de Transportes cancelou o pagamento de R$ 3,5 mil mensais à concessionária que opera o Terminal Menezes Cortes, no Centro do Rio. Segundo a secretaria, o pagamento se destinava a assegurar o uso de cerca de dez vagas por “uns poucos beneficiados”. A nova administração, no entanto, não divulgou a identidade da turma dos com-vaga.

Mãezona
De coração de mãe se sabe ser tão generoso que é incapaz se imaginar o que nele cabe. Essa generosidade, porém, parece um átimo diante da elasticidade do jornalismo “chapa branca”. Poucos dias antes do Dia da Mães, esse tipo de mídia proclamava em manchetes que as vendas nos shopping centers iriam avançar 12% em relação à mesma data no ano passado. Passada a efeméride e feitas as contas, a Associação dos Lojistas de Shopping Centers do Rio (Aloserj) informou ao distinto público que as vendas foram 1,3% menores.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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