Capitalismo: a visão de Adam Smith e Marx

O interesse próprio que move o capitalismo em Adam Smith é reinterpretado por Marx como a base de um sistema de desigualdades e contradições sociais Por Alonso Barros

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Dinheiro, cédulas, real
Dinheiro (Foto: CC)

Adam Smith, em seu livro intitulado A riqueza das nações, publicado em 1776, afirma que não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que depende nossa janta, mas do interesse que eles têm pelo seu próprio negócio. O que Smith quer dizer com isso é que o interesse individual (egoísmo) proporciona o beneficio coletivo ou o bem comum. Portanto, o motor da economia, seguindo esse raciocínio, seria o interesse próprio dos agentes econômicos.

Karl Marx faz a crítica a esse pensamento de Adam Smith. Para ele, o egoísmo smithiano leva apenas a acumulação de riqueza nas mãos de poucos e a exploração cada vez mais irracional da força de trabalho, não gerando o tal do bem-estar coletivo defendido por Adam Smith. Marx afirma que o interesse próprio geraria mais exploração do trabalhador, concentração de riqueza e desigualdade social. A harmonia entre os interesses individuais e coletivos não existe, de acordo com Marx, sendo o sistema movido por contradições e conflitos de classe.

A análise comparativa entre Adam Smith e Karl Marx revela dois modos radicalmente distintos de compreender o funcionamento da economia e o papel do indivíduo na sociedade. Para Smith, o interesse próprio é o motor da atividade econômica e, paradoxalmente, é o que promove o bem coletivo. O indivíduo, ao buscar atender às suas necessidades e maximizar seus ganhos, acaba contribuindo para a prosperidade geral por meio do mecanismo de mercado.

Essa visão, típica do liberalismo econômico nascente do século 18, expressa um otimismo em relação à capacidade autorreguladora da sociedade, na qual cada agente, ao agir livremente, encontra o equilíbrio de suas trocas no jogo natural da oferta e da demanda.

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Marx, entretanto, observa essa lógica sob uma perspectiva materialista e histórica, percebendo nela não uma harmonia social, mas um sistema de exploração. Para ele, o que Smith chama de interesse próprio não passa de uma forma ideológica de mascarar as contradições do capitalismo.

A liberdade de mercado, exaltada pelos liberais, não é uma liberdade efetiva para todos, mas uma liberdade formal que beneficia apenas a classe que detém os meios de produção. O trabalhador, destituído da propriedade dos instrumentos de trabalho, é obrigado a vender sua força de trabalho em troca de um salário, tornando-se dependente e alienado. Esse processo revela que a aparente reciprocidade entre agentes no mercado não garante justiça social, mas reproduz relações de dominação.

A crítica marxista revela, portanto, a dimensão social do “egoísmo” smithiano. O que Smith interpreta como um impulso natural que move o progresso, Marx identifica como um reflexo das relações de produção capitalistas, baseadas na apropriação privada do excedente econômico (mais valia). O lucro, longe de ser uma recompensa legítima pelo esforço produtivo, representa, para Marx, a expressão concreta da exploração, gerado pelo trabalho não pago ao operário.

Assim, enquanto o padeiro de Smith produz movido por seu próprio interesse e, com isso, supostamente contribui para o bem-estar coletivo, o trabalhador de Marx é compelido a produzir por necessidade, e parte do fruto desse trabalho é apropriado por quem detém o capital.

Outro ponto de ruptura entre os dois pensadores está na divisão do trabalho. Adam Smith vê nela uma das grandes conquistas da sociedade moderna, pois aumenta a produtividade, especializa as funções e eleva a capacidade total de produção. A célebre fábrica de alfinetes, citada por Smith, é exemplo de como a fragmentação das tarefas pode multiplicar a eficiência.

Para Marx, porém, esse mesmo processo, ao invés de libertar o trabalhador, o aprisiona em uma rotina mecânica, retirando-lhe o domínio sobre o processo produtivo e alienando-o de sua própria atividade. A especialização extrema transforma o saber prático em saber parcial e, consequentemente, reduz a esfera da autonomia operária.

A alienação, conceito central na teoria marxista, revela o lado sombrio da racionalidade econômica exaltada por Smith. O trabalhador alienado não reconhece mais o produto do seu trabalho como algo seu; o fruto de sua criação lhe é estranho, controlado por outro — o capitalista — que o converte em mercadoria. Essa alienação não é apenas econômica, mas também espiritual e social: o homem perde a consciência de si mesmo como ser criativo e passa a se perceber apenas como uma engrenagem no sistema de produção. Dessa forma, a divisão do trabalho, que para Smith é fonte de prosperidade e ordem, para Marx é um instrumento de dominação e fragmentação do ser humano.

Além disso, Marx contesta a ideia de que o mercado é capaz de promover automaticamente o equilíbrio e o bem comum (a tal da mão invisível que tudo faz e tudo resolve). Ele mostra que o capitalismo é um sistema dinâmico, mas também contraditório, sujeito a crises periódicas de superprodução e desemprego. Essas crises não são acidentes, mas consequências inevitáveis da lógica da acumulação capitalista: a concorrência força a redução de custos e a intensificação do trabalho, ao mesmo tempo que pressiona a queda das taxas de lucro, gerando instabilidade.

O interesse próprio, que Smith vê como elemento civilizador, transforma-se, na análise marxista, em força destrutiva, pois leva à expansão desenfreada do capital e à concentração de riqueza em poucas mãos, ampliando desigualdades e corroendo a coesão social.

Em última instância, Marx considera que o interesse próprio, exaltado por Smith, é apenas uma forma histórica particular do comportamento humano, típica da sociedade capitalista. Ele não é uma essência natural do homem, mas o resultado de relações sociais específicas, baseadas na propriedade privada e na divisão de classes.

A economia política clássica, representada por Smith, naturaliza essas relações, tratando-as como permanentes e universais, enquanto Marx as historiciza e mostra que elas são transitórias e passíveis de superação. A verdadeira libertação humana, segundo a perspectiva marxista, não viria da livre concorrência entre indivíduos egoístas, mas da superação da forma capitalista de produção, em direção a uma sociedade sem classes, na qual o trabalho deixe de ser mero meio de sobrevivência e se torne expressão livre da criatividade humana.

Dessa forma, o confronto entre Adam Smith e Karl Marx ultrapassa o campo puramente econômico: é um embate entre duas visões de mundo. De um lado, a fé liberal na harmonia espontânea do mercado e na moral do interesse individual; de outro, a crítica radical de Marx, que denuncia as contradições dessa aparente harmonia e propõe uma transformação estrutural das relações de produção. Se para Smith o egoísmo pode gerar o bem comum, para Marx ele é a raiz das desigualdades. Se para Smith a divisão do trabalho é a chave do progresso, para Marx é o símbolo da alienação.

Em síntese, a análise marxista desnuda as ilusões do liberalismo econômico e mostra que a promessa de prosperidade universal embutida na ideia smithiana de interesse próprio é, na prática, uma promessa não cumprida. A crítica de Marx permanece atual porque evidencia que, enquanto persistirem as relações de exploração, o bem comum continuará subordinado à lógica do lucro, e o homem, em vez de sujeito da história, permanecerá instrumento de acumulação.

O diálogo — e o conflito — entre Smith e Marx, portanto, continua a iluminar os dilemas centrais da economia e da sociedade contemporânea: a tensão entre liberdade e igualdade, entre eficiência e justiça, entre o indivíduo e o coletivo.


Alonso Barros é economista, mestre e doutor em Economia

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