‘Car Wash’, a origem

Os integrantes da Lava Jato costumam citar como fonte de inspiração a Operação Mãos Limpas, que aconteceu na Itália na década de 1990. Mas os métodos utilizados são mais próximos aos empregados nos Estados Unidos, e não é à toa que os principais envolvidos na ação brasileira estiveram no Grande Irmão do Norte para estudar sua legislação e modus operandi. Essa relação fica mais evidente com as investigações lideradas por Robert Mueller, encarregado de apurar a grande “fake news” do momento: uma suposta ligação russa com campanha eleitoral dos EUA. Nomeado em maio procurador especial, Mueller chefiou o FBI de 2001 a 2013, para onde foi alçado por George W. Bush e mantido por Barack Obama. A posse no FBI ocorreu em 4 de setembro – exatamente uma semana antes do 11 de Setembro.

Esta semana, dois assessores de campanha do presidente Donald Trump foram indiciados por um tribunal de Washington e colocados em prisão domiciliar, resultado das investigações de Mueller. Os procuradores já mandaram o recado: é melhor colaborar. A ocasião parece ter sido escolhida a dedo, já que precedeu a viagem de Trump à Ásia, onde visitará cinco países em 12 dias, tendo como grande destaque a ida a Beijing, prevista para dia 8. A visita contraria Wall Street e o establishment norte-americano, que deseja os EUA longe dos chineses, especialmente da iniciativa Cinturão e Rota, um desafio do mundo produtivo à economia financeirizada.

O chamado “Russiagate” é um artifício para dar um “golpe” contra o presidente. Além de mantê-lo afastado dos chineses e russos, há o interesse do mercado em impedir que Trump reedite a Lei Glass-Steagall, revogada em novembro de 1999 após forte lobby do setor financeiro. Editada em 1933, a Lei separava as operações entre bancos comerciais e de investimento. O fim dela propiciou a espetacular especulação que está por trás das bolhas do século XXI.

A investigação de Mueller é apoiada fortemente pela imprensa. A Economist trouxe como manchete “A ameaça da mídia social à democracia”, sobre as audiências no Congresso dos EUA, afirmando que “as encrencas da Rússia são só o começo”. O vetusto The New York Times afirmou em título “Anúncio financiado pela Rússia vinculou Clinton a Satanás”, sobre um dos posts revelados pelo Facebook. Vem da nova mídia – a mesma acusada de plantar “fake news” – notícias menos engajadas sobre a mesma audiência. Sites como Recode e Axios destacam que as campanhas de Hillary Clinton e Donald Trump gastaram US$ 81 milhões em anúncios no Facebook, enquanto as “contas sob controle russo” gastaram só US$ 100 mil. O Washington Post escreveu editorial em que saúda o ex-diretor do FBI como o “anti-Trump”, o herói, defensor da ética, apesar de admitir que Mueller não deverá encontrar nada contra o presidente diretamente e que algo deverá ser feito quanto a isso. Qualquer semelhança com a Lava Jato não é coincidência.

 

O T do problema

O problema não é a ministra Luislinda Valois ter tentando receber R$ 61 mil por mês da Viúva, nem ter comparado o trabalho sem receber os cerca de R$ 28 mil acima do teto do funcionalismo a trabalho escravo. O problema também não é ser ela titular da pasta dos Direitos Humanos. O problema é ter acontecido tudo isso e ela continuar sendo ministra.

Bem, levando em conta o conjunto da obra, problema é existir o Governo Temer.

 

Pilatos

A semana termina, e Temer tomou uma decisão sobre as denúncias do ministro da Justiça, Torquato Jardim: nada fazer.

 

Rápidas

O Ipea realiza nesta segunda-feira, das 10h às 18h, o seminário internacional Legado de Mobilidade Urbana, Equidade e o Futuro do Transporte no Rio de Janeiro. O evento, no auditório do instituto no Rio, tem o apoio da Unidade de Estudos de Transporte da Universidade de Oxford (Reino Unido). E no dia seguinte lança o Boletim de Análise Político-Institucional – Política Nacional de Segurança Pública, às 14h, também no Rio *** A Câmara de Comércio França-Brasil (CCIFB-SP), com apoio da Investe São Paulo, realizará dia 9 o IX Fórum de Inovação e Tecnologia. Entre os temas, desafios da indústria 4.0 e os avanços do Customer Centricity e do User Experience. Será na Av. Escola Politécnica, 82, Jaguaré *** A Marinha abrirá em 9 de novembro processo seletivo para 645 vagas no Serviço Militar Voluntário (SMV) de oficiais temporários. O salário bruto inicial é de R$ 8.900, mas o contrato dura, no máximo, oito anos. Detalhes no site www.ingressonamarinha.mar.mil.br

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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