Carestia na veia

Por Ranulfo Vidigal.

Levando em consideração uma família de quatro pessoas, com dois adultos e duas crianças – padrão brasileiro – a vida fica, cada dia, mais difícil. O problema fundamental da inflação no Brasil é que a taxa de exploração da força de trabalho é muito elevada, e os salários são muito baixos.

Assim, qualquer elevação mais significativa do custo de vida coloca uma boa parte da classe trabalhadora no primeiro patamar da fome, tal qual observamos nos dias atuais. E a elevação inflacionária atual é forte, persistente e concentrada em alimentos, energia residencial e combustíveis, o que compromete diretamente a renda da maioria da população. É simples de entender o que acontece.

De acordo com dados do IBGE, o rendimento médio real habitual dos trabalhadores (considerando a soma de todos os trabalhos) foi de R$ 2.547,00 no trimestre móvel até maio de 2021. Este valor deveria ser suficiente para custear comida, aluguel, transporte, luz, água etc. O fato é que, mesmo que o rendimento médio fosse o dobro, a conta não fecharia, como mostra o valor do salário mínimo necessário, estimado pelo Dieese, em mais do dobro desse valor.

Os preços dos produtos básicos (comida, água, energia elétrica, tarifas de transporte) estão aumentando num momento em que a classe trabalhadora brasileira atravessa o seu pior ciclo de empobrecimento da história. Em outras palavras, temos que entender que a profundidade da crise requer maior transferência de riqueza da periferia para o centro, o que significa a necessidade de destruição de direitos sociais e desemprego.

O caso do petróleo no Brasil ilustra com riqueza o que é ser um trabalhador de um país dominado pelos interesses de fora. O País dispõe de uma das maiores reservas de petróleo no mundo e é um grande produtor de petróleo. Ao mesmo tempo, estão vendendo as refinarias, para tornar o País apenas um exportador de óleo cru e depender cada vez mais de importações de derivados de petróleo com preço caríssimo.

O fato é que, com os níveis salariais do Brasil, o trabalhador tem a sensação de que a inflação é muito elevada. É que o custo de vida é muito alto para os salários vigentes, mesmo que ele não esteja aumentando. Muitas vezes os trabalhadores reclamam da inflação, mesmo com ela estando em nível muito baixo. Na verdade, a reclamação é direcionada para os baixos salários.

Se o trabalhador recebe o salário mínimo para o sustento de duas ou três pessoas e uma cesta básica para um adulto custa R$ 650 ou mais, a conta nunca irá fechar. Na realidade, essa é uma confusão entre inflação e salário baixo, que são temas correlacionados, porém distintos.

Quem sobrevive com um salário mínimo no país (no total, 27,3 milhões de brasileiros) gasta praticamente toda a sua renda para comprar comida. Dependendo do número de dependentes da família, não consegue pagar nem mesmo luz e água.

Nesse contexto, quando há uma pressão dos alimentos, a renda do pobre é impactada direta e mais fortemente. Em menor escala, a classe média baixa sente também. Já as famílias ricas ganham com a inflação ao receber juros como rendimentos.

 

Ranulfo Vidigal é economista.

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