Carlos Francisco Theodoro M. R. Lessa, Lessa, de todos os brasileiros

Seu pendor e energia de professor faziam de cada papo tomando um café, uma aula entusiasmada e entusiasmante.

Empresa Cidadã / 19:23 - 9 de jun de 2020

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Pedi emprestado ao Marcos, para a coluna desta semana, o título iluminado do editorial de sábado, 6 de junho, com uma leve alteração, mas não poderia deixar de utilizá-lo. Perfeito. Parabéns, Marcos de Oliveira.

Desde a fatídica sexta-feira, 5 de junho, não mais veremos Carlos Lessa, pois como disse Rodrigo, o primogênito, ele “foi descansar”. Nascido em 30 de julho de 1936, Carlos Lessa vive, porém. E viverá enquanto houver uma brasileira ou um brasileiro em busca de justiça, ou enquanto houver jovens esperançosos e dispostos a construir uma América Latina livre de todos os jugos cruéis, antes que esteja “all sold out” (tudo vendido).

As referências a Carlos Lessa geralmente versam sobre o seu patriotismo, caráter, cultura e outras qualidades. Versam também sobre importantes postos ocupados (como o de primeiro diretor do “S” de social do BNDES; reitor da maior Universidade pública federal do Brasil, eleito com 85% dos votos; presidente do BNDES etc.).

Lessa foi tudo isso e mais ainda. Seu pendor e energia de professor faziam de cada papo no balcão da padaria, tomando um café, uma aula entusiasmada e entusiasmante. Junto com Antônio de Barros Castro, escreveu um alternativo livro texto, chamado de “Castro Lessa”, por que pareciam reificados num só autor, com o título Introdução à Economia – Uma Abordagem Estruturalista, que deixava para trás os manuais importados de Economia, a exemplo do Introdução à Análise Econômica, na moda daquela época, do Nobel Paul Samuelson ; ou do Introdução ao Raciocínio Econômico, de Marshall A Robinson; ou ainda do Introdução à Teoria Econômica, de Erich Schneider, entre muitos outros.

Muito porque a disciplina de Introdução à Economia era um espaço cobiçado no plano metodológico. E o amarelinho “Castro Lessa” passou quebrando a banca. O que o livro amarelo, nas edições posteriores na cor laranja, mostrava era o óbvio, só que sistematizado cientificamente – as decisões econômicas tomadas no outro hemisfério repercutem no nosso, de forma inevitável. Lessa deixou também o livro Rio de todos os Brasis, expressão do seu amor pelo Rio de Janeiro.

Às vezes, ele impactava por enunciar percepções de fatos, em óticas que o comum dos mortais não conseguia. Foi o caso de quando ocupou a diretoria do BNDES. Tive a oportunidade de convidá-lo então a participar de uma oficina, onde estavam Feem (RJ), Funabem (Federal) e um conjunto de ONGs, para discutir e ajustar o Programa do Leite (distribuição aos mais necessitados gratuita de leite pelo governo). Lessa, corajosamente, defendeu uma posição de que, àquela altura, tínhamos perdido uma oportunidade importante de transformar o programa em um fator de desenvolvimento institucional, trocando esta possibilidade pela crítica raivosa e vazia. Estava certo.

Lessa também se aventurou na selva da política partidária, candidatando-se a deputado federal, no pleito de 1982, primeiras eleições depois da tutela imprópria do golpe de 1964. Foi um dos colaboradores na redação do programa “Esperança e Mudança” (MDB). Enriqueceu o debate político, mas a campanha dura, sem dinheiro para “outdoors”, carros de som, contratações de pessoal, gráfica e mídias, obteve votos em quantidade insuficiente para elegê-lo. Deixou um elenco de fatos pitorescos que, com bom humor, bem soube captar.

Uma dessas histórias refere-se às caminhadas que fazia em campanha por uma das regiões da sua preferência, chamado Casco Velho, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Trata-se de região de rica História e arquitetura pujante, mal tratada, porém. Uma vez, Lessa saiu para caminhar e não voltava, preocupando a equipe de voluntários, pois havia outras tarefas a cumprir. Até que ele apareceu entusiasmado, como de hábito. Indagado, disse que no caminho viu um salão de beleza e, convidado a entrar, entrou, pegou na prosa e perdeu a hora. Alguém disse: “Mas isso dá quantos votos?” Lessa deu de ombros. Era o jeito dele. Era o lugar preferido dele.

Lessa, na crítica à desimportância autoatribuída pela representação política do Rio de Janeiro, criou uma retórica inquestionavelmente didática. Dizia ele que São Paulo deu aos seus jornais de maior circulação os nomes de Folha de SÃO PAULO e Estado de SÃO PAULO. Já os do Rio, chamavam-se Jornal do BRASIL e O GLOBO.

Poderíamos acrescentar os nomes dados pelos estados da Federação às companhias aéreas (Vasp, SÃO PAULO; Varig, RIO GRANDE DO SUL; Cruzeiro do Sul, RIO) ou às principais avenidas do Centro das capitais (Avenida PAULISTA, SÃO PAULO; Avenida RIO BRANCO, RIO). Gostaria de acrescentar algo sobre a principal avenida litorânea (Avenida ATLÂNTICA, Rio), mas não dá. São Paulo não tem avenida litorânea...

Esse é o Lessa de todos os brasileiros.

Recentemente, já nos levaram Paul Singer (em abril de 2018), Wilson Cano (em abril de 2020) e, agora, o Carlos Lessa. Salas de aula perdem talento e cidadania.

 

#Fique em casa

Na paz. Bons vídeos, bons livros, boa música, boa companhia, boa comida. E olha que agosto ainda não começou. Brrrrr...

 

Paulinho (é como o Lessa me chamava), professor servidor público aposentado da Universidade do Estado do RJ (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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