CBAM europeu e siderurgia brasileira: riscos, adaptações e oportunidades

Descubra como o CBAM está mudando a dinâmica do comércio internacional ao exigir custos de carbono em produtos importados. Por Sandro Raposo

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Bandeiras da União Europeia (foto CGTN)
Bandeiras da União Europeia (foto CGTN)

Nos últimos anos, a agenda climática passou a influenciar diretamente a dinâmica do comércio internacional. O Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM), criado pela União Europeia, talvez seja hoje o exemplo mais claro dessa mudança. O mecanismo parte de uma lógica simples, se empresas europeias precisam pagar pelo carbono emitido em seus processos produtivos, produtos importados também devem refletir esse custo. A intenção é evitar a chamada “fuga de carbono”, quando a produção migra para países com regras ambientais menos rigorosas.

Na prática, isso significa que o conteúdo de carbono dos produtos industriais começa a ganhar um peso cada vez maior nas relações comerciais. Para setores intensivos em emissões, como o siderúrgico, o CBAM inaugura uma nova etapa do comércio global. A competitividade deixa de ser definida somente por custo, escala ou logística e passa a incorporar, de forma crescente, a intensidade de carbono dos processos produtivos.

Para o Brasil, essa transformação traz riscos importantes, pois, à medida que mercados relevantes passam a exigir métricas mais rigorosas de emissões, empresas que não possuem sistemas estruturados de mensuração, reporte e rastreabilidade podem enfrentar dificuldades adicionais para acessar determinados mercados. Todavia, limitar essa discussão ao risco seria uma leitura incompleta.

O CBAM também evidencia uma mudança estrutural no ambiente competitivo da indústria global e, nesse contexto, o Brasil possui características que merecem atenção. A combinação de matriz elétrica relativamente limpa, disponibilidade de fontes renováveis e experiências industriais baseadas em biomassa coloca o país em uma posição potencialmente diferenciada quando comparado a economias ainda fortemente dependentes de combustíveis fósseis.

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Essa vantagem, no entanto, não é automática, ela precisa ser demonstrada, medida e reconhecida internacionalmente.

Isso passa pela consolidação de sistemas confiáveis de rastreabilidade de carbono ao longo das cadeias produtivas. Em um ambiente regulatório cada vez mais orientado por dados, transparência e comparabilidade serão fatores determinantes para a competitividade industrial.

Ademais, a situação exige um debate mais amplo sobre política industrial e financiamento da transição. Reduzir emissões em setores intensivos em energia e carbono demanda investimentos relevantes em tecnologia, eficiência energética e novos processos produtivos. Países que estruturarem instrumentos adequados de financiamento e incentivos tendem a acelerar essa transformação. Talvez a principal mudança, no entanto, seja de perspectiva.

A discussão sobre carbono na indústria não pode ser tratada apenas como uma agenda de conformidade regulatória. Ela também representa uma oportunidade estratégica de reposicionar cadeias produtivas, atrair investimentos e fortalecer a presença da indústria em mercados que passam a valorizar cada vez mais produtos com menor intensidade de carbono.

O CBAM é um sinal claro de que as regras do comércio internacional estão evoluindo. Carbono, transparência e sustentabilidade passam a fazer parte da equação competitiva da indústria global.

Para países como o Brasil, que possuem ativos naturais relevantes e uma base industrial significativa, o desafio agora é transformar essas condições em estratégia. Se bem conduzido, esse movimento pode abrir espaço para que a indústria brasileira amplie sua relevância em um mundo que caminha, de forma cada vez mais acelerada, para uma economia de baixo carbono.


Por Sandro Raposo, membro do conselho da Aço Verde do Brasil

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