Cem anos do PC chinês: avanços e recuos da Revolução Chinesa

Por Luiz Eduardo Motta.

O ano de 2021 marca o centenário do Partido Comunista Chinês que, sem dúvida nenhuma, tornou-se ao longo das décadas o partido comunista mais representativo constituído no século XX, além de liderar o processo revolucionário socialista mais bem sucedido.

É só compararmos com o PCUS que, nos anos 1980, começou a entrar numa derradeira crise e acabou por implodir a URSS no início dos anos 1990, além de levar à marginalização do PCUS. Distintamente dessa situação, o PCCh chegou aos seus 100 anos liderando por 70 anos a transição revolucionária na China como a grande referência da esquerda internacional. A força e o sucesso do PCCh ao longo da sua história deveram-se a alguns fatores dos quais listarei abaixo.

Primeiramente, foi a primeira revolução de caráter anticolonial do século XX – e liderada por um partido comunista – e se tornou o modelo para as demais revoluções anticoloniais do chamado Terceiro Mundo ao influenciar diretamente as experiências revolucionárias, como coreana, vietnamita, cubana, argelina, angolana etc.

Isso significou, naquele contexto, uma mudança de paradigma no campo revolucionário ao transferir para as formações sociais colonizadas o palco das revoluções políticas e sociais, além de ser palco da Guerra Fria que foi travada entre os EUA e a URSS.

Além disso, depois de a China romper com a URSS no início dos anos 1960, o PCCh e o maoísmo tiveram influência direta em várias rupturas que ocorreram nos PCs “oficiais” ligados à URSS e estabeleceram uma alternativa organizacional calcada numa estratégia revolucionária de guerra popular prolongada com a participação ativa do campesinato no processo revolucionário, sobretudo nos países do Terceiro Mundo.

Em segundo, em 1966, a China constituiu o movimento mais radical de transformação no processo de transição que foi a Revolução Cultural. Se por um lado foram positivas a criação de uma democracia de base e uma mobilização crítica ao enrijecimento da transição revolucionária pela burocracia do PCCh, por outro resultou em minar e quebrar a direção do PCCh diante ao crescimento e da influência das Guardas Vermelhas (com grande influência do Grupo de Xangai) e do Exército Popular de Libertação (EPL) liderado por Lin Biao.

O resultado disso foi o confronto direto entre as Guardas Vermelhas e o EPL, além do conflito interno das próprias Guardas Vermelhas, levando a China à beira de uma guerra civil no que resultou numa intervenção direta de Mao Zedong e Zhou Enlai nessa luta interna para resgatarem o papel do PCCh como condutor do processo revolucionário.

Essa crise dentro das Guardas Vermelhas foi resolvida por Mao numa reunião em 1969 com os seus cinco líderes, e se dirigindo a eles, Mao afirmou: “Vocês estão participando da Revolução Cultural há dois anos, conhecem a estratégia debater-criticar-transformar. Debater é lutar com as palavras, mas vocês estão lutando com armas”. A pacificação desse conflito interno acabou sendo resolvido ao serem incorporados membros das Guardas Vermelhas, do Grupo de Xangai e do EPL no Comitê Central no início dos anos 1970.

Em terceiro, o recuo revolucionário do PCCh em relação à democracia de base, e de sua participação direta nos processos revolucionários de outras formações sociais, foi necessário para a manutenção e sustentação do processo de transição ao estabelecer, a partir de dezembro de 1978, o Programa das 4 Modernizações que, a grosso modo, recuperou as bases desenvolvidas no programa da Nova Democracia constituído em 1940, ao enfatizar o primado das forças produtivas sobre as relações de produção.

O Programa das 4 Modernizações dizia respeito à indústria, à agricultura, ao exército e à ciência e tecnologia, sendo estas últimas o primado estratégico para as demais modernizações. Paralelamente ao programa de modernização, Deng e o Comitê Central do PCCh estabeleceram os 4 princípios fundamentais para a sustentação das 4 modernizações:

1) manter a direção ao socialismo;

2) defender a ditadura do proletariado;

3) defender a liderança do PCCh;

4) defender o marxismo-leninismo e o Pensamento Mao Zedong.

Nesse conjunto de princípios, fortaleceu-se ainda mais o papel do PCCh, que já vinha ocupando o seu espaço central desde 1969 com o fim das Guardas Vermelhas e com a anulação do EPL na condução da Revolução Cultural.

O fato é que esse recuo foi fundamental para a sobrevivência do PCCh e do processo revolucionário. O PCCh liderado pela ala de Deng Xiaoping anteviu a crise que estava se desenhando nos PCs europeus, tanto pela ingovernabilidade e crise econômica que se avizinhava no Leste europeu, como também na crise de representação dos PCs ocidentais que foram perdendo a sua força eleitoral nos anos 1980.

Ao enfatizar os aspectos infraestruturais, a China resistiu à avalanche anticomunista de 1989 que derrubou a condução dos processos revolucionários dos PCs da Europa oriental. Desse modo, o PCCh resistiu à onda neoliberal do “fim da história” que varreu as experiências socialistas da Europa, e não somente as conduzidas pelos PCs, mas também da própria social-democracia europeia e do modelo do Welfare State. O ponto culminante não foi somente o fim da URSS, mas também do principal partido comunista do Ocidente, o PC italiano.

E, em quarto lugar, nos anos 1990, diante o crescimento econômico dos chamados Tigres Asiáticos, o PCCh enfatizou ainda mais o papel das forças produtivas no aspecto tecnológico e, desse modo, superou o apartheid tecnológico estabelecido pelos países do Norte aos países pós-coloniais do Sul.

Jiang Zemin, em 1992, defendeu o conceito de socialismo de mercado que, com efeito, diferenciava o socialismo de características chinesas das demais experiências anteriores do socialismo do Leste Europeu. Assim como a economia planificada pode ser tanto capitalista quanto socialista, Jiang Zemin – partindo dos pressupostos de Deng Xiaoping – definiu a China como uma economia de mercado planificada baseada na propriedade pública. Isso significou a inexistência da máxima liberal do laissez faire, laissez passer.

A China soube se adaptar ao clima desfavorável dos anos 1990 às formações sociais socialistas em meio à emergência do neoliberalismo, e essa estratégia de evitar o colapso já se fazia presente em 1978, e hoje a China ocupa um papel central na economia mundial e no plano das relações internacionais.

A visão do PCCh sobre o marxismo e de sua adaptabilidade às condições chinesas sustentou o PCCh durante as suas diversas crises internas e sobretudo externas. Uma compreensão de que o próprio Mao entendia que o marxismo não se fixava como um dogma, mas sim enquanto uma teoria inacabada que responde a novas questões emergentes com novas respostas.

E isso ficou bem delimitado por Xi Jinping em seu discurso comemorativo do papel de Mao Zedong na Revolução Chinesa: “As teorias fundamentais do marxismo são verdades universais de valor ideológico permanente. Os autores clássicos do marxismo não exauriram as verdades, mas continuamente abriram caminhos para buscar e desenvolver as verdades.”

Também se deve destacar, para finalizar, que a emergência de Xi Jinping retomou a radicalidade que fora abandonada devido ao recuo chinês diante a onda neoliberal. A retomada dos estudos e do legado da teoria marxista vem mobilizando a militância do PCCh, além de buscar uma maior compreensão da Revolução Cultural sem a demonização que ela sofreu pós-1978. Recuperar os seus princípios sem cair nas armadilhas do esquerdismo e do dogmatismo.

E o papel da China no plano internacional se tornou uma alternativa ao fracassado modelo neoliberal (que vem se apoiando no neofascismo para se contrapor ao avanço dos governos progressistas que marcaram o cenário político no início do milênio).

E a alternativa chinesa no campo da esquerda como alternativa ao modelo neoliberal se dá atualmente pelo seu modelo econômico bem sucedido no qual ao longo de décadas, desde 1949, conseguiu talvez o maior feito do século XX, e que vem atravessando o século XXI: a retirada de centenas de milhões de pessoas da pobreza absoluta, e isso é um fato que não pode ser ignorado.

E é partir dessa rica experiência chinesa que a esquerda – particularmente a brasileira diante a fascistização recente e do modelo neoliberal que afundou a indústria nacional gerando um enorme bolsão de miséria – tem de se inspirar para romper com a cadeia imperialista, recuperar o desenvolvimento nacional e se tornar uma referência para os países periféricos. É essa a lição chinesa conduzida pelo PCCh que devemos incorporar.

 

Luiz Eduardo Motta é professor associado de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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