A percepção de aumento de fraudes internas e a presença de organizações criminosas se infiltrando nas empresas é resultado de mudanças no contexto empresarial do país. A afirmação é do perito contador e investigador de fraudes e disputas complexas, Marcelo Alcides Carvalho Gomes. Ele está há 35 anos atuando em investigações para apurar como funcionários, dirigentes, sócios, fornecedores e clientes se organizam e praticam malfeitos de diferentes camadas.
A estimativa é que cerca de 6% do faturamento bruto de uma empresa seja desviado por fraudes e abusos ocupacionais. Nesse sentido, a implantação de práticas de compliance para checar o cumprimento de normas não inibiu, mas revelou a dimensão do que acontece. Agora, começa a ficar ainda mais visível como organizações criminosas se apossam de segmentos de negócios para garantir seus interesses escusos.
A cereja do bolo, relata Marcelo Gomes, está nas articulações para que negócios sejam nublados em desfavor de investidores e cadeias de suprimentos. “Todas as empresas estão vulneráveis à ação do crime organizado, seja para esconder ativos, seja para serem adquiridas e entrarem em um determinado setor para fazer operações de lavagem de dinheiro”, afirma o especialista.
Muitos desses pontos são abordados nesta entrevista exclusiva ao Monitor Mercantil. Acompanhe os principais pontos.
Por quais formas o crime organizado pode tentar ingressar em empresas?
O crime pode ingressar nas empresas como cliente, como fornecedor, sempre trazendo transações ou propostas vantajosas, muito mais do que clientes e fornecedores usuais. No caso de instituições financeiras, basicamente oferecendo a entrada de dinheiro e aceitando uma remuneração muito abaixo do mercado.
Quais são as principais estratégias utilizadas por organizações criminosas para infiltrar-se no ambiente empresarial?
A principal estratégia é utilizar empresas que não têm um bom compliance. Forma-se uma carteira, seja de clientes, seja de fornecedores, e aí, quando o criminoso vai buscar outro tipo de empresa na qual possa fazer operações maiores, o perpetrador passa o histórico que teve com essas empresas de menor porte, dizendo: “Olha, já tenho um histórico, pode checar com essas pessoas a minha idoneidade”, etc.
Quais setores das empresas são mais vulneráveis à atuação do crime organizado?
Não há um tipo específico de empresa ou setor que seja mais visível e alvo para as organizações criminosas. Elas escolhem aquelas que geram dinheiro. Então, temos o clássico posto de gasolina, lavanderia, companhia de ônibus, tudo o que movimenta dinheiro fácil. Mas, como cresceu muito a necessidade de lavar e até mesmo desviar dinheiros, já se observa uma subida na cadeia de produção. Já temos empresas no setor de logística, por exemplo.
Há áreas com mais riscos?
Todas as empresas estão vulneráveis à ação do crime organizado, seja para esconder ativos, seja para serem adquiridas e entrarem em um determinado setor para fazer operações de lavagem de dinheiro.
Quais sinais indicam a possível presença de integrantes do crime organizado na empresa?
Usualmente, são funcionários que possam ser usuários de drogas, ter dívidas com jogo ou com agiotas. Esse perfil de pessoas é muito mais vulnerável à ação e ao assédio do crime organizado. Então, eu sugeriria observar esses aspectos.
Como identificar comportamentos suspeitos ou padrões fora do comum?
O padrão é da pessoa que está com problemas de endividamento crescente, com remuneração que considera insuficiente e com pedido de aumento não atendido, e que, de repente, aparece com um carro novo, com sinais exteriores de riqueza.
Quais são os riscos para a empresa caso ocorra uma infiltração criminosa?
Os riscos de infiltração vão desde a empresa ser alvo de uma operação de lavagem de dinheiro até ela falir, porque para o crime organizado, às vezes, até interessa manipular ao máximo a empresa, e ela corre o risco de entrar em uma recuperação judicial ou até em uma liquidação.
Quais consequências legais, financeiras e de reputação podem ocorrer?
Além da exposição da marca – que afeta a reputação –, a empresa vai gastar muito dinheiro com advogados para tentar sair dos processos, provando que é inocente ou que foi ludibriada pelas organizações criminosas devido a uma falha de compliance. E isso nunca é rápido.
Como o crime organizado pode usar empresas para lavar dinheiro?
Depende muito do tipo de empresa. Por exemplo, numa gestora de investimentos, entraram com uma montanha de dinheiro e aceitaram como remuneração apenas um CDB a 7% por ano, o que é ridículo. E o pessoal nessa instituição financeira comemorando os altos lucros que iriam ter com o dinheiro que entrou. Esqueceram-se de fazer a verificação do cliente e foram alvo de investigação, sendo acusados de participar da lavagem de dinheiro.
Quais mecanismos e operações são comuns nesse tipo de crime?
Oferecer produtos e serviços a um preço muito menor do que a concorrência. Comprar sem discutir preço. Pedir para pagar a mais (porque precisa urgente daquele produto), etc. Então, é sempre aquele cliente muito bom ou aquele fornecedor muito barato com qualidade.
Quais procedimentos e controles internos são recomendados?
O básico é ter o programa de compliance implementado, sempre atualizado e devidamente avaliado, onde se busca entender qual é o nível de maturidade desse programa em relação aos concorrentes do mercado. Se estou abaixo dos meus concorrentes, preciso melhorar meu programa de compliance. Se estou acima, então estou bem. Portanto, é sempre fazer essa avaliação do programa de compliance para que eu esteja sempre atualizado com as melhores práticas de mercado.
Como realizar uma investigação interna diante de suspeita de envolvimento criminoso?
A primeira coisa, quando for identificada uma situação suspeita com o cliente – e isso é muito comum nos grandes bancos – é simplesmente encerrar qualquer tipo de transação com esse cliente ou fornecedor e partir para a investigação. Daí em diante, se for constatado, é necessário encerrar a relação e comunicar às autoridades, sendo que o departamento jurídico da empresa ou o jurídico externo é quem está habilitado para fazer as comunicações de praxe para as autoridades.
Como líderes e gestores podem criar uma cultura de integridade e segurança?
Exemplos vêm de cima. A participação do C-Level e da liderança de alto nível da empresa é primordial para estabelecer o tom da administração. Então, se a alta administração está comprometida com as questões de compliance e prevenção a situações que envolvam risco de crime organizado, mais ainda os funcionários abaixo terão essa preocupação e cuidado em seus relacionamentos com clientes, fornecedores, parceiros etc.
Tem papel importante nessa cultura os cuidados de checagem de informações de fornecedores ou parceiros suspeitos de malfeitos. O trabalho deve ir além do parceiro e apurar, se necessário, participações acionárias, parceiros de negócios e compreender a cadeia de valor que está ligada ao fornecedor.
Quais são os tipos mais comuns de fraudes em empresas?
Os tipos mais comuns de fraude dentro das empresas são o furto qualificado, onde um funcionário rouba algum equipamento ou põe a mão no dinheiro da empresa. Em alguns casos, apura-se a falsificação e, muitas vezes, conflitos de interesses no relacionamento com fornecedores ou clientes.
Como identificar sinais ou indícios de fraude?
Entre os principais sinais de que algo pode não estar certo, temos demonstrações exteriores de riqueza. Isso é muito comum diante de um carro novo, férias no exterior com gastos incompatíveis com o salário da pessoa. E também temos visto muitas situações envolvendo vício em jogos fornecidos pelas empresas de apostas online. Já temos três casos em que funcionários viciados em apostas roubaram a empresa para pagar suas dívidas.
Quais medidas as empresas podem adotar para prevenir fraudes?
Ter um canal de denúncia ativo e que os funcionários percebam que funciona. Ou seja, precisam ser informados sobre o número de denúncias recebidas, investigações realizadas, pessoas demitidas, casos que não deram em nada, etc. Não adianta nada ter esse tipo de canal se ninguém sabe se ele realmente funciona.
Além disso, é necessário ter uma área de compliance comprometida e que saiba identificar os riscos e o momento de agir com uma investigação interna, especialmente com o apoio de especialistas externos para conduzir a investigação. Esse é o principal trabalho da área de compliance quando se depara com uma situação de fraude ou uma denúncia de fraude.
Como deve ser feita a investigação de uma suspeita de fraude?
Para investigar a fraude, é possível ter investigação interna e externa. Deve-se analisar a denúncia a partir do tipo de operação exposta e apurar sobre as pessoas envolvidas nos fatos. Com os elementos coletados e analisados, devem-se conduzir entrevistas. Conforme a gravidade dos fatos, esses elementos de prova devem ser apresentados às delegacias de polícia especializadas.
Quais normas legais tratam sobre fraudes corporativas no Brasil?
A legislação específica para fraude é composta pelo Código Penal, a Lei Anticorrupção e a Lei de Prevenção à Lavagem de Dinheiro. É a partir dessas leis que se monta uma área de compliance, observando-se quais são os cuidados necessários para atuar.
Gilmara Santos, especial para o Monitor

















