O ator Paulo César Pereio costumava dizer: “Chico Anysio não é um ator; é um médium”. A ótima sacada de Pereio explica em uma simples frase a genialidade e o tamanho de Chico Anysio, que encarnou 209 personagens em seis décadas de sucesso na televisão. Ninguém no mundo criou e interpretou tantos tipos, capazes de captar a essência do povo brasileiro sob diferentes perspectivas. Quando ele faleceu, em 2012, aos 80 anos, o jornal O Dia foi o veículo que melhor traduziu em sua manchete os inúmeros artistas que viviam em um só homem: “Morreram Chico Anysio”. Genial.
É um pouco dessa carreira fantástica que o documentário lançado semana passada pelo Globoplay mostra em cinco episódios. Chico Anysio: um Homem à Procura de um Personagem traça a trajetória do cearense de Maranguape ao longo de sua vida pessoal e artística, mostrando como ele moldou centenas de personagens que marcaram a história da comédia brasileira. A direção é de um dos filhos de Chico, Bruno Mazzeo, que mescla depoimentos de familiares, amigos e colegas de trabalho com imagens de arquivo para construir um retrato intimista representativo de sua genialidade.
A produção vai lá no início da carreira do humorista, mostrando sua origem nordestina e a chegada ao Rio de Janeiro, ainda criança. Desde jovem, Chico sempre teve uma voz bonita, acompanhada de uma locução perfeita e bem empostada. Aos 17 anos, em 1948, participou de dois concursos da Rádio Guanabara – um para locutor e outro para radioator. Ficou em segundo lugar no primeiro e em sétimo no segundo. Na disputa pela melhor locução, perdeu para um rapaz, também de 17 anos, chamado Silvio Santos. “Ele era o melhor disparado”, lembra Chico.
Na categoria de radioator, a vencedora no geral foi Arlette Pinheiro Monteiro – uma talentosa moça de 18 anos que, mais tarde, seria conhecida pelo nome artístico de Fernanda Montenegro. Três gênios, quase da mesma idade, que começaram juntos no rádio.
Fernanda Montenegro é uma das entrevistadas da minissérie, ao lado de Carlos Manga, Daniel Filho, Boni, Moacyr Franco, Carlos Alberto de Nóbrega, Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum, Castrinho, Stepan Nercessian, Heloísa Périssé e tantos outros colegas de trabalho e admiradores que Chico teve ao longo da vida.
Todos ressaltam a generosidade do artista, que foi mentor e revelador de diversos talentos — como Tom Cavalcante. Na produção, ele relata como mostrou o seu trabalho ao ídolo e foi incluído de forma muito carinhosa na Escolinha do Professor Raimundo. O programa, a propósito, foi uma maneira de Chico Anysio acolher velhos colegas humoristas, servindo de escada para que eles pudessem brilhar e se manter empregados no final da carreira. Conseguiu juntar Brandão Filho, Zé Trindade, Walter D’Ávila, Orlando Drummond e Costinha, entre outros.
Uma carreira multifacetada que até hoje influencia gerações
Chico brilhou também fora do Brasil e chegou a se apresentar no Carnegie Hall, em Nova York. Amante do futebol, era torcedor do América, mas depois virou Vasco e integrou o time de comentaristas da TV Globo, atuando ao lado de Galvão Bueno e Pelé. Tudo isso é contado pelos amigos que compartilharam com ele uma rotina vivida intensamente por décadas a fio. As inseguranças e fragilidades do ator também são expostas, como uma depressão que o acompanhou por longos anos de sua vida.
Foram seis casamentos e sete filhos biológicos, além de um adotivo e um enteado. Todos são entrevistados e lembram com emoção as histórias do pai, mas o ponto alto são as recordações do início da carreira de Chico na televisão, entre a TVs Rio e Excelsior, esta última cassada pela ditadura militar na década de 70. Ao lado do TV Tupi, as duas eram as maiores emissoras da época.
Quando o humorista foi para a Globo, em 1969, ela era apenas a quarta força do Brasil. Com seu talento e enorme audiência, ajudou a emissora a se tornar a maior potência da América Latina, com programas como Chico City, Chico Total, Escolinha do Professor Raimundo e vários outros especiais.
Chico era obcecado pelo trabalho e pelo processo criativo de concepção de personagens, sempre tentando abordar temas sociais e críticos de maneira leve e acessível a todas as classes sociais. Fazia isso como ninguém e transitava entre diferentes gêneros e formatos com grande versatilidade, influenciando gerações que até hoje sentem o impacto de suas obras. Um gênio inesquecível, um monumento da cultura brasileira que o excelente documentário de Bruno Mazzeo ajuda a imortalizar.
Para encerrar, no último episódio, Daniel Filho suspira e finaliza: “Chico fez metade do que poderia ter feito. Ele era muito maior”. Difícil imaginar como poderia ser maior do que já foi… Salve Chico Anysio!
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