Chutando a escada

A expressão cunhada pelo economista alemão Friedrich List em seu célebre texto Sistema nacional de economia política (1841) ainda merece uma reflexão mais profunda. List, que havia passado um tempo estudando o sistema econômico norte-americano estruturado por Alexander Hamilton, sabia que o discurso do livre-comércio pregado pelos britânicos buscava defender os interesses de seus capitais.
O discurso da “mão invisível” não era neutro. Segundo List, os britânicos estavam tentando chutar a escada por onde tinham subido e atingido o seu patamar de desenvolvimento. As “boas práticas” pregadas então estavam longe das práticas historicamente adotadas pelos britânicos. Não se deve esquecer que os tratados desiguais eram formas comuns de apoio estatal aos capitais britânicos. O comércio fluía, porém sob a vigilância da Marinha Real.
Poder e dinheiro sempre foram dois ingredientes presentes na História. As lições de List são atuais. Prova disto é o livro Chutando a escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica (Ed. Unesp, 2004).
Neste texto, Ha-Joon Chang, diretor-assistente de Estudos sobre Desenvolvimento na Universidade de Cambridge, defende que a estruturação ideológica e política do que se convencionou chamar globalização apenas busca chutar a escada para que os países periféricos não adotassem os expedientes históricos utilizados pelos hoje países altamente desenvolvidos: proteção à indústria nascente; espionagem industrial; engenharia reversa; etc.
A Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial são alvos das críticas de Chang. Nos moldes em que estas instituições estão estruturadas, elas estão apenas representando os interesses dos países centrais em detrimento da periferia do sistema, ou seja, elas estão buscando chutar a escada do desenvolvimento. Não estaríamos revivendo os tratados desiguais? Admitiremos passivamente que os países centrais busquem congelar a História através do controle ideológico e político das instituições multilaterais?
Para que a História não se repita como farsa, é necessária a estruturação de um Sistema Nacional de Economia Política. As políticas que os países do Leste asiático estão implementando foram inspiradas em práticas históricas desenvolvidas pelos hoje países altamente desenvolvidos.
O Brasil já teve um projeto que se desenvolveu de 1938 até 1980, com, sem e contra Getúlio Vargas. Neste período, a produção industrial brasileira cresceu 26 vezes e o país se transformou então na oitava economia do mundo.

Rodrigo Medeiros
Professor da Universidade Gama Filho.

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