Em um cenário global cada vez mais competitivo, a capacidade de transformar ciência em produtividade e desenvolvimento econômico tornou-se um diferencial decisivo entre países. No Brasil, apesar de uma base científica relevante e de um contingente expressivo de pesquisadores qualificados, a dificuldade histórica de converter conhecimento em ganhos sustentáveis de competitividade segue como um dos principais entraves ao crescimento de longo prazo.
A recente Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) 2024–2034, que estabelece como meta elevar os investimentos em ciência e tecnologia de cerca de 1,2% para 2% do PIB ao longo da próxima década, recoloca o tema no centro do debate econômico. Trata-se de um avanço importante frente ao histórico de instabilidade orçamentária e descontinuidade institucional. Ainda assim, a experiência internacional e os próprios indicadores nacionais sugerem que a questão central não é apenas quanto investir, mas como esses recursos são alocados, avaliados e integrados à economia real.
A comparação com países que obtiveram sucesso nessa agenda é instrutiva. O Reino Unido, por exemplo, anunciou um pacote de £ 86 bilhões em ciência e tecnologia até 2029/2030, articulado a políticas industriais regionais, metas claras de retorno econômico e forte alavancagem de capital privado. O diferencial não está apenas no volume de recursos, mas no desenho institucional: coordenação entre níveis de governo, avaliação rigorosa de resultados e incentivos claros à inovação empresarial. No Brasil, onde o venture capital permanece concentrado e relativamente tímido, a meta de 2% corre o risco de se tornar um teto político confortável, e não um piso para uma estratégia mais ambiciosa de crescimento baseado em inovação.
Os efeitos dessa limitação já se refletem no desempenho internacional do país. No Índice Global de Inovação 2025, elaborado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual, o Brasil caiu para a 52ª posição entre 139 países. Embora apresente desempenho razoável em indicadores de “saída”, como produção científica e alguns nichos tecnológicos, o país segue frágil nos “insumos” fundamentais — educação, infraestrutura de pesquisa e esforço contínuo em P&D. Trata-se de um sinal clássico de ineficiência sistêmica: resultados pontuais coexistem com bases institucionais frágeis.
Nesse ambiente, a intensificação da fuga de cérebros não surpreende. O aumento da concessão de vistos para pesquisadores e profissionais altamente qualificados brasileiros nos Estados Unidos, nos últimos anos, reflete menos diferenças salariais e mais diferenças institucionais. Ambientes com financiamento previsível, meritocracia clara, infraestrutura adequada e menor custo burocrático atraem capital humano de forma quase automática. Para o Brasil, isso implica uma perda econômica dupla: redução da capacidade inovadora interna e menor retorno social do investimento público em educação superior.
Reverter esse quadro exige políticas de longo prazo voltadas à retenção e à valorização do talento científico. Incentivos por desempenho, simplificação de processos de pesquisa, estabilidade no financiamento e programas estruturados de repatriação — integrados ao setor produtivo — tendem a gerar maior retorno econômico do que medidas pontuais. Países como Canadá e Alemanha demonstram que atrair e reter cérebros é, antes de tudo, uma escolha institucional.
Outro aspecto frequentemente subestimado no debate é o custo econômico das desigualdades regionais em ciência e tecnologia. Dados recentes do Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento indicam elevada concentração da capacidade inovadora no eixo Sul-Sudeste, com São Paulo apresentando desempenho quase três vezes superior à média nacional. Embora haja sinais de desconcentração relativa, especialmente no Nordeste, os gargalos estruturais persistem.
Do ponto de vista econômico, essa concentração reduz o retorno marginal dos investimentos públicos. A experiência internacional indica que estratégias de descentralização bem desenhadas — baseadas em vocações regionais, articulação entre universidades e empresas e fundos de inovação locais — ampliam o impacto agregado do gasto em ciência e tecnologia.
No Brasil, áreas como bioeconomia, sustentabilidade e inteligência artificial oferecem oportunidades claras para regiões hoje sub-representadas no sistema nacional de inovação, desde que acompanhadas de infraestrutura e governança adequadas. Bioeconomia, a propósito, refere-se ao uso de recursos biológicos renováveis e do conhecimento científico associado para gerar produtos, serviços e soluções de forma sustentável, em áreas como agricultura tecnológica, biotecnologia, fármacos, energia limpa e novos materiais.
O debate sobre ciência e tecnologia no país precisa, portanto, avançar para além da retórica dos percentuais do PIB. O Brasil possui escala econômica, base científica e capital humano suficientes para um salto qualitativo. O principal obstáculo reside na fragilidade institucional: políticas fragmentadas, avaliação limitada de resultados, baixa integração com o setor produtivo e instabilidade no financiamento.
A meta de 2% do PIB é necessária, mas insuficiente se não vier acompanhada de aceleração do cronograma, incentivos à retenção de talentos e uma estratégia consistente de redução das desigualdades regionais. Investir em ciência não é custo corrente, mas investimento estratégico com retorno econômico mensurável. O desafio agora é transformar intenção em execução — e execução em resultados.
Reinaldo Soares de Camargo é doutor em Economia pela Universidade Católica de Brasília, com formação em Matemática pela PUC Goiás e especialização em Ciência de Dados aplicada a finanças.

















