Ciência: fonte inesperada para nossas dúvidas existenciais

Por Alexandre F. Souza.

Opinião / 16:07 - 26 de jun de 2020

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É impressionante como o ritmo do dia a dia pode se tornar intenso mesmo para quem está confinado em casa em tempos de pandemia. Gerenciar as tarefas profissionais remotamente, cuidar da vida pessoal e familiar e acompanhar as notícias podem consumir a passagem do nosso tempo de vida. Algumas ideias, porém, permanecem no fundo da nossa mente como referências para o nosso pensamento e para a nossa estabilidade mental e emocional. Não pensamos muito nessas ideias no nosso dia a dia, mas todas as nossas atividades se dão a partir delas: Quem sou eu? De onde eu vim? De onde veio o mundo com todas as suas forças? Por que as pessoas são tão diferentes? Qual é o sentido de tudo isso?

Essa lista poderia crescer e crescer, com perguntas que permanecem semiconscientes durante a agitação diária. Um exame mais aprofundado desse terreno pessoal interior, porém, pode ser bastante perturbador. Isso porque, se forem examinadas atentamente, para a maioria de nós essas perguntas se encontram frouxamente respondidas.

Nossas respostas para elas geralmente são vagas e imprecisas. São respostas normalmente ligadas a conceitos distantes como ideias aprendidas na escola, por comentários e referências familiares ou até religiosas. Muitas vezes não discutidas claramente, muitas vezes não realmente entendidas, foram se acumulando como sugestões absorvidas indiretamente de conversas entre parentes, como fragmentos de aulas, leituras ou sermões, além de filmes, séries e outras mídias do mundo moderno.

Mas e se estas perguntas subjacentes tivessem respostas claras e atuais? Que efeitos teriam nas emoções, nos pensamentos e na motivação do dia a dia a plena consciência das nossas origens, da origem do mundo, e do sentido da vida? Teriam o efeito de um clarão em uma penumbra até então não percebida, e o poder de remodelar nossa atitude diante dos eventos mais prosaicos do dia a dia.

Essa força toda vem do fato de que as respostas a estas perguntas fazem parte da nossa própria identidade. E a identidade é uma das maiores forças da vida humana, um dos motores secretos da motivação diante dos desafios profissionais e familiares. Uma pesquisa desenvolvida pela psicóloga Geertje Leflot e seus colegas e publicada na revisa científica Infant and Child Development revelou que jovens com identidades mais claras e positivas, quando adultas, tendem a ser mais satisfeitas com a vida em geral, ser mais bem-vistas pelos parentes, amigos e colegas, adaptar-se melhor no trabalho, ter mais sucesso nos estudos, além de menos sintomas de ansiedade e depressão.

Historicamente, esses questionamentos têm sido tema de reflexão da filosofia e das grandes religiões. Porém, no mundo tecnológico e científico em que vivemos, uma fonte essencial de conhecimento a ser também consultada para trazer respostas às nossas questões existenciais é a ciência.

Foi com base nessa premissa que escrevi o livro A criação: o que a ciência tem a dizer sobre a sua origem e o sentido da sua vida, publicado pela editora Viseu. Levei dois anos escrevendo e consultei mais de 250 fontes científicas para dar uma resposta o mais precisa e esclarecedora possível à enorme carência que temos de conhecer nossas origens.

O livro apresenta uma história da criação segundo a ciência, permitindo o redimensionamento da identidade humana. O livro também explora as consequências filosóficas e éticas das etapas da criação do ser humano pela Natureza através das suas forças criativas, desde a Energia, a matéria, as reações metabólicas, a genética e, acima de tudo, a evolução.

Por ter uma estrutura ampla e didática, o livro consegue esclarecer conhecimentos científicos e filosóficos complexos como a epigenética e sua relação com a saúde e a qualidade de vida das pessoas, o pluralismo e sua relação com a forma de termos opiniões sem nos tornarmos fanáticos, e a relação entre o bem-estar dos animais e o bem-estar das pessoas. Isso tudo baseado na descoberta de que quem criou o mundo e o ser humano foi a Natureza.

Como os ramos de uma grande árvore apontando para diferentes partes do céu, as forças da física, da química, da evolução e das relações sociais humanas se ramificam nas mais diferentes direções, produzindo níveis de realidade surpreendentes, e com consequências éticas e práticas inesperadas.

Essa visão demonstra a ligação das nossas mais profundas reflexões, aspirações e escolhas com nossas raízes biológicas e evolutivas, mas de uma maneira aberta e profundamente influenciada pelo ambiente socioeconômico.

Como disse o grande geneticista e teórico evolutivo russo radicado nos Estados Unidos Theodosius Dobzhanski (1900–1975), nada na biologia, que inclui nossa mente, nossos sentimentos e nossa vida social, faz sentido exceto sob a luz da evolução. Isso porque foi através da tremenda força criativa da evolução que a Natureza pôde produzir essa rede gigantesca de vida inteligente na qual evoluíram a coragem, o discernimento, o medo, a confiança, a tenacidade e todas as demais qualidades que fazem do ser humano a maior força transformadora na face da Terra.

Alexandre F. Souza

Doutor em Ecologia pela Unicamp, pós-doutor pela UFRGS, professor da UFRN.

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