Com desemprego elevado, empréstimo pode ser bomba de efeito retardado

Analistas dizem esperar manutenção da alta taxa de desemprego até o final deste ano.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) aponta que o país contabiliza mais de 12 milhões de brasileiros sem trabalho e renda formal. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) elevou projeção para a inflação, este ano: 6,5%, um percentual bem acima do teto da meta. Diante de uma inflação persistente, juros altos, desemprego e perspectiva de baixo crescimento da economia, a tendência, segundo analisa o diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Fausto Augusto Júnior, é que o mercado de trabalho continue se desestruturando.

Segundo a Pnad, o rendimento real habitual do trabalhador caiu 8,8% no trimestre encerrado no último mês de fevereiro, quando comparado com o mesmo período do ano passado. Isso significa, segundo o estudo, que a renda média caiu para R$ 2.511 (era R$ 2.752, em fevereiro de 2021).

“Uma pessoa ou família que comprometa quase metade do rendimento mensal com empréstimo terá condições de honrar a dívida e ainda sobreviver neste contexto econômico? O que se dizer, então, sobre quem está negativado e, possivelmente, desempregado?”, questiona o presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae), Sergio Takemoto.

Fausto Júnior, diretor técnico do Dieese, emenda a avaliação:

“Estamos falando de rendas baixas e que podem ficar bem menores com a contratação de dívidas. Estão construindo um modelo que, passadas as eleições, vai retirar ainda mais de quem já tem muito pouco.”

O presidente da Fenae ressalta que o problema não é a concessão de crédito à população. O alerta é para o que ele classifica como “combinação de extremo risco” tanto para quem contrai o empréstimo quanto para o próprio banco público.

“A economia brasileira está deprimida por uma política de governo que paralisou a possibilidade de o trabalhador ter emprego e renda. Defendemos medidas anticíclicas. Contudo, esses ‘pacotes de bondades’ do governo – com mais linhas de empréstimo à população já economicamente massacrada – tratam-se, na verdade, de uma jogada para atrair milhões de pessoas que recebiam auxílio emergencial, por exemplo, e agora têm ainda menos condições de honrar qualquer dívida contraída”, explica Takemoto.

Segundo observa Takemoto, são brasileiros que ou buscam empréstimo para sobreviver ou recorrem a crédito na tentativa de empreenderem por necessidade, e não por oportunidade.

“Eles abrem seus pequenos negócios por estarem desempregados, por não enxergarem outra saída para a sobrevivência. No desespero, caem na armadilha do empréstimo e, possivelmente, na lista de inadimplentes”, pontua.

Levantamento feito pelo Dieese a pedido da Fenae mostra que os aumentos reais do salário-mínimo, descontados os efeitos da inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), vêm ficando cada vez menores ou até zerados, como é o caso dos últimos três anos, incluindo 2022. Neste governo, apenas em 2019 houve reajuste real do salário, no percentual de 1,14%. O levantamento do Dieese também aponta a evolução do desemprego no país. Considerando os mesmos anos analisados acima, as taxas médias anuais de desemprego foram de 9,2% (em 2006), 7,4% (em 2012), 11,7% (em 2016), 12,9% (em 2017), 12,4% (em 2018), 12% (em 2019), 13,8% (em 2020) e 13,2% (em 2021). Em relação a 2006, era considerada a Pnad. Para os demais anos, a fonte passou a ser a Pnad Contínua.

Já analistas do Mitsubishi UFJ Financial Group, Inc (MUFG) dizem esperar “a manutenção da alta taxa de desemprego até o final deste ano. Do lado positivo, vemos espaço para alguma aceleração da criação de empregos no segmento de serviços prestados às famílias que é intensivo em mão de obra e ainda é muito inferior ao pré-pandemia em fevereiro de 2020. Por outro lado, o setor industrial pode apresentar um desempenho mais fraco, uma vez que continua sofrendo com altos custos de insumos com a Covid na China e com a incerteza no ritmo da demanda de bens duráveis ​​com os preços industriais mais altos e taxas de juros crescentes. De um modo geral, o crescimento econômico é limitado pelo cenário de alta inflação e juros projetados para este ano que limita a demanda e, portanto, leva a desacelerar o ritmo de reação do emprego. Nesse cenário, a recuperação do mercado de trabalho nos próximos meses tende a ser mais frágil, uma vez que pode se concentrar no mercado de trabalho informal com renda instável e perdendo poder aquisitivo com a inflação. Esperamos taxa de desemprego de 11% até o final deste ano e 11,2% na média do ano.”

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