O ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã marcou a balança comercial brasileira em março. As vendas externas de petróleo bruto saltaram 70,4% ante março de 2025, acrescentando US$ 1,97 bilhão às exportações.
“O dado, porém, surpreende quando decomposto: o crescimento foi majoritariamente por volume, com os embarques físicos praticamente dobrando (+75,9%), passando de 5,8 para 10,1 milhões de toneladas. O preço implícito por tonelada caiu levemente (-3,1%)”, analisa Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay.
Os números indicam que o Brasil “aproveitou uma janela de demanda aquecida pelos países importadores que buscavam diversificar fornecimento diante da instabilidade do Estreito de Ormuz, mas ainda não embutia plenamente o prêmio de risco geopolítico nos contratos fechados”, afirma Benedito.
No lado das importações, o conflito pressionou os preços: “Os custos de fretes internacionais permaneceram elevados, derivados de petróleo importados subiram 20,5%, e carvão avançou 59,9%, reflexos do realinhamento global de cadeias de energia que a guerra acelerou”, destaca a economista.
Os resultados da balança comercial em março reforçam críticas à política – ou falta dela – de exportação de petróleo. Artigo de Felipe Coutinho, presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet), classifica como padrão primário-exportador típico de ciclos coloniais: “Exportar petróleo cru em volumes recordes e importar derivados de maior valor agregado, com perda de soberania energética e controle estrangeiro sobre o recurso nacional.”
“Em 2025, foram exportadas do Brasil mais de 700 milhões de barris de petróleo bruto, o maior volume da história. O valor total das exportações de petróleo alcançou US$ 44,6 bilhões no ano, ligeiramente abaixo do recorde de US$ 44,8 bilhões de 2024, mas ainda assim o segundo maior da série histórica”, destaca o artigo.
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Coutinho chama atenção para o fato de que não é a Nação que se beneficia prioritariamente dessas exportações. “Quem exporta o petróleo são empresas petrolíferas — em sua maioria estrangeiras, sejam estatais (como a chinesa CNPC, a norueguesa Equinor) ou privadas (como a anglo-holandesa Shell, a norte-americana ExxonMobil, a francesa TotalEnergies, a espanhola Repsol) — que operam no território nacional e enviam o recurso para seus países de origem ou para o mercado internacional. Apenas uma parcela dos royalties e impostos fica no Brasil; a maior parte do valor agregado fica com Estados ou acionistas estrangeiros”, critica.
Em 2025, a participação da Petrobras foi de aproximadamente 40%, com as estrangeiras respondendo por 60% das exportações.
“Em 2025, o superávit comercial do setor de petróleo e derivados foi de aproximadamente US$ 35 bilhões. Esse saldo positivo, no entanto, esconde uma estrutura perversa: são exportados petróleo cru de baixo valor agregado e importados derivados mais caros — e a maior parte da balança comercial favorável beneficia as empresas exportadoras (em grande medida estrangeiras), não necessariamente o povo brasileiro”, explica o presidente da Aepet.
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