Com sotaque

Os mesmos órgãos de imprensa que não conseguiram detectar o início da recessão nos Estados Unidos, em março do ano passado, insistem em enxergar uma recuperação da economia norte-americana. Como tal recuperação exclui o aumento da produção industrial e o incremento do emprego, trata-se mais de mito do que realidade. Aliás, “O mito da recuperação” é o título-definição como o Financial Times, bíblia do neoliberalismo, se refere, em editorial no último dia 12, à economia dos EUA. Como é texto com sotaque anglo-saxônico, deveria ser leitura obrigatória para os colunistas econômicos locais.

Modernidade & barbárie
O Brasil é competitivo no mercado internacional de açúcar. Mas, se quiser manter essa posição, será obrigado a melhorar sua produtividade pela mecanização da colheita de cana. Trabalho do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da USP adverte, porém, que se isso ocorrer, serão ceifados cerca de 300 mil postos de trabalho no campo. Esse contingente corresponde a cerca de 16% do total de desempregados da região metropolitana de São Paulo. O impacto social dessas demissões seria ainda maior porque a maioria tem menos de três anos de escolaridade e nenhuma qualificação técnica.
Autor do livro Açúcar Amargo (Editora Palavra Mágica), Luiz Puntel alerta que essa situação representaria “um desastre” para os municípios canavieiros. Já o secretário administrativo do Sindicato dos Cortadores de Cana de Piracicaba, Antônio Sotto, calcula que uma colheitadeira de cana substitui 80 cortadores. Como cada um ganha, em média, R$ 300, a economia com mão-de-obra é de R$ 24 mil por mês e R$ 144 mil por safra de seis meses. Em pouco mais de três safras, a máquina paga seu custo inicial – de R$ 400 mil, em média – apenas com a economia na mão-de-obra.

Para pouco
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, destacou que o Brasil precisa de uma política econômica voltada para o desenvolvimento industrial “e não apenas para o setor financeiro”. Para Piva, a política econômica atual deixa o país dependente dos investidores internacionais: “A produção da indústria nacional paga um preço elevado pela política adotada pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Não é possível sustentar a economia brasileira com este castelo de cartas que se cria com as instituições financeiras. Não podemos continuar à mercê do humor dos analistas estrangeiros”, advertiu, citando o exemplo da Argentina, na qual a financeirização da economia resultou no completo sucateamento do parque industrial.

Agência
Disfarçado numa nota técnica em que adia o prazo para uso do sistema de “multimedição em ligações LDN”,  a Anatel está permitindo que as operadoras de telefonia fixa continuem cobrando até 30 de junho 2003 pelo sistema de pulsos, ao invés de minutos, nas ligações feitas em áreas conurbadas – jargão do setor para indicar cidades de uma mesma região metropolitana. O regulamento do serviço telefônico marcava o fim de tal cobrança para junho de 2001, prazo que já havia sido prorrogado para junho deste ano. Continua valendo apenas uma regra: as leis só servem na hora de proteger os direitos das empresas privatizadas; os deveres podem ser modificados com uma canetada.

Urnas
Acontecem em clima quente as eleições para o comando do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP), hoje. O engenheiro Sérgio Magalhães, primeiro vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), afirmou que “é inadmissível que uma eleição desse porte seja conduzida de modo obsoleto, sem a utilização de urnas eletrônicas e apenas com urnas de lona, assim mesmo em número reduzido diante do que seria necessário”. Magalhães, que apóia a chapa de oposição, disse que a atual diretoria do Crea não aceitou instalar uma urna na sede da Abimaq, que congrega mais de 5 mil engenheiros. O Crea – que conta com orçamento próximo de R$ 60 milhões – tem cerca de 400 mil profissionais associados, dos quais cerca de 200 mil estão aptos a votar, mas na última eleição o presidente foi eleito com apenas 6 mil votos.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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