Começando pelos tesouros das extremidades do norte espanhol

Só na faixa setentrional espanhola estão a Rioja, Ribera del Duero, Priorat, boa parte dos Cavas e muito mais.

Nessa primeira abordagem da Espanha vitivinícola, vou tratar do norte do país, que por si só já compreende muita coisa e deve ocupar três artigos, considerando as denominações de maior destaque. Começo pelas bordas, ou seja, pelas extremidades leste e oeste. O norte da Espanha é mais largo em longitude do que o restante do país – segue a oeste, acima da faixa continental portuguesa e, a leste, acompanha a fronteira com o sul da França. Só nessa faixa setentrional estão Rioja, Ribera del Duero, Priorat, boa parte dos Cavas e muito mais.

Nas duas extremidades oeste e leste estão regiões de grande proximidade oceânica, a primeira com o Oceano Atlântico e a segunda com o Mar Mediterrâneo, mas circundada por montanhas que criam um microclima particular. Comecemos então por Rías Baixas. Situada na Galícia, trata-se da denominação de origem mais ocidental da Espanha, de pequena extensão e que leva este nome por ser formada pelas rías mais meridionais da região. A ría é uma expressão que define um estuário – uma fusão entre o rio e o mar – muito presente em forma de grandes desembocaduras na Galícia. O mais precioso tesouro desta D.O. é a variedade Albariño, codinome espanhol da portuguesa Alvarinho, plantada na região do Minho, norte de Portugal e fronteira com Rías Baixas. A origem da Albariño nesta região é controversa – há quem diga que chegou no século XII, trazida pelos monges cistercienses da região do Reno, há quem diga que veio de Portugal, onde chegou via barcos ingleses oriunda da Grécia. O fato é que ela se aclimatou muito bem ali, onde representa 90% dos vinhedos da região, que, por sua vez, tem produção majoritária de vinhos brancos (99%).

Assim como em outras partes do país, Rías Baixas, tornada D.O. em 1988, passou por transformações visando a melhoria da qualidade de seus vinhos, a começar pela replantação de vinhedos e pela introdução de novas tecnologias em três perfis de produtores locais: cooperativas, grandes bodegas e pequenos produtores. A zona vitivinícola é espacialmente dispersa e se subdivide em 5 zonas, com algumas diferenças entre si, onde também aparecem as cepas Loureira Blanca, Godello, Torrontés, entre outras De modo geral, seus vinhos têm cor amarelo palha com reflexos dourados, aromas intensos de frutas cítricas, melão e matizes florais. Boca ampla, com acidez vibrante e caráter mineral, advindo de seus solos graníticos e de sua proximidade litorânea.

A segunda região que escolhi falar, em faixa latitudinal próxima, um pouco mais meridional no extremo oposto do mapa espanhol é a D.O. Priorat, comarca situada no centro-norte da província de Tarragona que, em 2009, foi elevada a Denominación de Origen Calificada. Esta é a categoria superior das denominações, só concedida a regiões com reconhecida e consistente qualidade de produção ao longo do tempo. Badalada hoje no mercado de vinhos de alta gama, trata-se de uma D.O. bem pequena, mas com singularidades. Sua origem remonta ao século XII, quando monges cartuxos do Mosteiro Scala Dei introduziram a viticultura ali. O cuidado do Mosteiro com os vinhedos e estímulo à produção local, somados à riqueza do terroir, deram prestígio aos vinhos da região, até que ela fosse apropriada pelo Estado em 1835. Ao final do século XIX, a filoxera devastou os vinhedos, e a viticultura foi substituída pela cultura de amêndoas, avelãs e oliveiras.

Só a partir da década de 1950 é que novos vinhedos foram plantados visando um alto padrão de qualidade, o que definitivamente aconteceu mais tarde. A partir de 1980, a região passou por transformações introduzidas por jovens enólogos (liderados pelos consagrados René Barbier e Álvaro Palácios), visando resgatar a sua vitivinicultura. Mas tudo ali conspira a favor da qualidade, apesar de ser um terreno difícil de ser explorado, com encostas íngremes de origem vulcânica, temperaturas extremas e ventos fortes. Seu solo predominante é chamado de llicorella, uma espécie de ardósia vermelha e negra com partículas de quartzito, que refletem a luz solar e conservam calor. A superfície é de ardósia em decomposição e obriga as raízes a buscarem nutrientes na profundidade do solo, dando uma riqueza mineral excepcional aos vinhos.

A cepa tradicional do Priorat é a Garnacha tinta, presente em muitos vinhedos antigos, mas outras foram introduzidas para serem associadas às autóctones, como Cariñena, Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah para os tintos e Garnacha blanca, a Macabeo, Pedro Ximénez e Chenin para os brancos. O corte mais tradicional tinto é de Garnacha tinta e Cariñena – vinhos potentes, de cor intensa, mas equilibrados, elegantes, com forte mineralidade e potencial de guarda.

 

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Miriam Aguiar
Jornalista, educadora e especialista em vinhos

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