Como fica a economia pós-vacina?

Demora no combate à pandemia já engoliu um percentual do PIB de 2021.

Com troca de farpas, queda de braço entre ministro e governador e piadas, o programa de imunização da população para a Covid-19, finalmente, tem início no Brasil. Mas, ainda vai levar tempo para que a economia do País colha os frutos do fim da pandemia que derrubou o PIB de 2020, provocou a alta do desemprego, agravou a desigualdade social e ampliou o rombo das contas públicas. Diante do quadro atual, em que se vê um cenário de estagflação (economia estagnada com alta nos preços), não se pode esperar que o Brasil escreva um V em sua recuperação econômica.

O primeiro fato a travar a economia é a incapacidade do governo em lidar com a pandemia. A demora em definir e aprovar a vacina já engoliu um percentual do PIB de 2021. O temor no início do ano era que uma segunda onda assolasse a população, o que já está ocorrendo e colapsando o sistema de saúde de alguns estados, vide o Amazonas.

Na verdade, o Brasil mal conseguiu conter a primeira onda e a falta de responsabilidade do governo em informar a população, levou à nova crise. É preciso lembrar que, enquanto o mundo se fecha, mesmo já utilizando o imunizante, nós aglomeramos jovens para fazer provas em pleno ápice da pandemia, algo que poderia ser evitado com um simples adiamento do Enem. Além disso, o número de vacinas disponíveis no país ainda é ínfimo perto do tamanho da população e, até atingir todos os que não têm medo de virar jacaré, estaremos ao final do primeiro semestre, para ser otimista.

O segundo ponto é a perda econômica irreversível no curto prazo deixada pela pandemia. Com o isolamento social, estabelecimentos comerciais e de serviços tidos como não essenciais foram fechados por um período e muitos se mantiveram assim. Esse fim de inúmeros CNPJs que mantinham, no mínimo, o próprio dono empregado, provocou o aumento do desemprego, prejudicou o desenvolvimento econômico local e, num efeito cascata, ampliou o número de pessoas sem renda, ou seja, de dependentes do auxílio emergencial, que chegou ao fim.

A taxa de desocupação no Brasil chegou a 14,6% no terceiro trimestre do ano passado a maior taxa registrada na série histórica do IBGE, iniciada em 2012, e corresponde a 14,1 milhões de pessoas.

Dados de julho do ano passado, dão conta que durante a pandemia mais de 700 mil pequenas empresas fecharam as portas. A recuperação desta parte da economia, que simplesmente morreu, leva muito tempo. Mesmo que as atividades retomem ao normal no segundo semestre, nem todos deixarão o home office. Os sobreviventes da crise se deparam com um cenário desafiador. Os restaurantes têm uma clientela menor, assim como os salões de beleza e todos aqueles que forneciam serviços às pessoas que caminhavam nas ruas em sua hora de almoço. Com menor clientela, menor faturamento, menor a necessidade de funcionários ou fechamento das portas. E aquele salão ali da esquina, deixou de contribuir com sua fatia para o crescimento da economia.

Para agravar a situação, outra parte importante do nosso PIB está sendo perdida com a saída de multinacionais. Não é à toa que o anúncio da Ford, que deixa órfãos 5 mil brasileiros desempregados, trouxe tanta comoção. É preciso lembrar que ao redor de uma fabricante de veículos gira também toda uma cadeia de fornecedores e revendedores.

Ainda há outros dois fatores que impedem uma perspectiva mais otimista: a alta da inflação, que corrói a renda dos mais pobres e a situação fiscal do governo. Estes dois outros problemas serão debatidos nas próximas colunas.

 

Leia mais:

Quarentena aumenta contágio dos semrendavírus

Cresce emprego sem renda

Ana Borges
Colunista.

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