Como lidar com a renda variável no segundo semestre de 2022?

Diversificação, privilegiando as empresas mais líquidas.

Conversamos com quatro especialistas sobre os cuidados que um investidor deve ter com a renda variável nos próximos 6 meses.

 

Bernardo Pascowitch, fundador do Yubb

Bernardo Pascowitch (foto divulgação Yubb)

É importante que o investidor tenha uma estratégia mais diversificada e focada no longo prazo. Ele não deve se concentrar, demasiadamente, em ativos de renda variável, já que eles estão muito pressionados agora.

Por outro lado, ele também não deve ficar somente em renda fixa, já que ela não é suficiente para trazer grandes multiplicações de patrimônio. Na verdade, a renda fixa serve mais para proteger da inflação do que para trazer retornos relevantes no longo prazo.

Não existe uma fórmula mágica, mas os cuidados passam por buscar uma diversificação que seja interessante nesse momento. Ter uma exposição em renda variável, que tende a ter uma performance bem interessante no longo prazo, mas ter uma exposição a renda fixa no curto prazo, o que pode proteger de tantas turbulências surfando na alta da taxa Selic.

Historicamente, o período de eleições traz uma alta do dólar e uma queda da bolsa, independente do candidato que ganhe. O momento para renda variável pede cuidado e atenção redobrada, mas o investidor pode aproveitar eventuais quedas nos preços das ações para acumular visando o longo prazo.

 

Pedro Serra, gerente de research da Ativa Investimentos

Pedro Serra (foto divulgação Ativa Investimentos)

No início do ano, nós tivemos uma alta da Bolsa puxada pelas commodities, muito por conta do que aconteceu lá fora. Nós também tivemos a entrada de um fluxo de capital estrangeiro bem relevante devido à exposição do Brasil às commodities e à saída de capital da Rússia e da China. Esse fluxo foi revertido depois em decorrência do ciclo de juros lá fora, ao aperto monetário e ao call de China barata, o que fez com que alguns investidores realocassem recursos neste país.

Para os próximos 6 meses, nós achamos que teremos uma Bolsa de lado e volátil, e que em algum momento ela encontrará um limite. Os valuations seguem muito baratos. Além disso, existe um risco dos resultados das empresas serem revisados para baixo, mas não muito. Eu não acho que o mercado estava muito otimista quando fez as suas previsões, e nós não temos tido muitas revisões. Agora, se o valuation da Bolsa brasileira está muito barato, lá fora também está.

A diferença é que nós temos um ciclo de juros mais a frente do que os outros países. Enquanto nós tivermos uma eleição para acontecer e o ciclo de juros para ocorrer, o mercado ficará sem gatilhos. Por isso que nós achamos que a Bolsa ficará de lado até o final do ano, pelo menos até outubro. Neste mês, nós já deveremos ter uma visibilidade melhor, tanto dos juros aqui e lá fora quanto do resultado das eleições. Isso pode tirar o peso do mercado.

Nesse momento, o investidor deve olhar primeiro para empresas mais líquidas. Ficar nas small caps agora é perigoso. Na Ativa, nós gostamos de commodities como petróleo, celulose e minério de ferro; empresas de consumo voltadas mais para alta renda e shoppings, que estão com seus fundamentos melhorando; e setores defensivos que ainda fazem sentido, como farmácias e supermercados.

Existem também casos mais específicos, como a Totvs, que estão com um valuation muito depreciado, mas que possuem um mercado mais resiliente. Por enquanto, nós evitaríamos estatais. Nós gostamos da Petrobras, mas com relação a bancos, preferimos o Bradesco e o Itaú ao Banco do Brasil. No mais, seguimos de fora de setores mais ligados à atividade econômica como e-commerce e de construtoras.

 

Rodolfo Marques, especialista em investimentos e fundador do canal Vamos pra Bolsa no Youtube

Rodolfo Marques (foto divulgação Vamos pra Bolsa)

Mesmo dentro da renda variável, nós podemos ter diferentes níveis de risco. O Ibovespa reúne o retorno das 70 maiores empresas do Brasil, só que dentro desse bolo, nós temos empresas de setores que sofreram muito mais que o índice, como tecnologia e varejo. Nesse caso, posso citar os exemplos da Via Varejo e Magalu, que estão caindo mais de 50% no ano. Contudo, também podemos olhar com outra ótica para as empresas que não sofreram dessa forma, como as seguradoras e os bancos, que se beneficiam de um cenário de juros maiores. Não é à toa que a BB Seguridade está com uma valorização superior a 20% e que grandes bancos como o Itaú estão levemente positivos.

Por mais que tenhamos um cenário mais adverso, isso não vai impactar as empresas na mesma proporção. As empresas que precisam de mais recursos e são mais afetadas pela inflação, sofrem mais, mas aquelas que muitas vezes oferecem crédito ou são favorecidas por retornos financeiros em decorrência de juros maiores como as seguradoras, se beneficiam.

Nesse momento, cabe ao investidor ter uma diversificação de carteira mais assertiva e focada naquilo que pode se beneficiar desse cenário de juros em patamares mais elevados, como seguradoras e bancos.

 

Werner Roger, sócio e gestor da Trígono Capital

Werner Roger (foto divulgação Trígono Capital)

Nós sempre comentamos que quem vai investir em Bolsa deve ter um horizonte de no mínimo 2 a 3 anos. Eu acredito que logo a inflação mensal vai passar para deflação devido à queda dos combustíveis gerada pela redução do ICMS e de algumas commodities. Com isso, nós vamos ter o IGP-M e o IPCA negativos, o que pode trazer algum alento nas taxas de juros, principalmente nas de mais longo prazo.

Além do cenário doméstico, a Bolsa é guiada pelo cenário internacional. A combinação de fatores como a perspectiva de recessão e aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, conflito europeu e lockdown na China, com a questão do risco fiscal no Brasil com a aprovação de PECs, Auxílio Brasil e outros benefícios, acabou pressionando a expectativa de uma queda mais lenta da taxa de juros, o que explica o 2T22 negativo, especialmente o mês de junho. Dessa forma, por que o investidor que não vendeu até agora, venderia no nível mais baixo?

A nossa recomendação é não ficar se movimentando, tentando adivinhar para onde vai o mercado, se a Bolsa vai subir ou não. O investidor deve comprar boas empresas ou investir em fundos que tenham bons gestores com bons resultados.

A eleição é outra incerteza, mas nem por isso se vai adivinhar quem vai ganhá-la. Na Trígono nós olhamos as empresas e não ficamos tentando adivinhar para onde vai o mercado. Muitas vezes, o market timing acaba sendo negativo, pois as pessoas não conseguem antecipá-lo. Geralmente, esse tipo de análise caminha para o mesmo lado, sendo muitas vezes o lado errado.

Recomendamos também que não se faça grandes apostas. Elas são boas num cassino, no jockey ou na loteria. Para quem faz investimentos, trata-se da escolha de boas empresas e bons gestores, sempre com a perspectiva de 2 a 3 anos.

Dentro do cenário do segundo semestre, nós estamos tranquilos pois nós não compramos mercado, e sim as empresas que acompanhamos.

 

Nota: o Ibovespa fechou junho de 2022 com uma desvalorização de 11,50%. No primeiro semestre, a desvalorização foi de 5,99%, e nos últimos 12 meses, de 22,99%.

Coordenação: Jorge Priori

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