Como os eventos climáticos impactam na saúde das populações?

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Inundação em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, evento climático
Inundação em Porto Alegre, RS (foto de Lucio Tavora, Xinhua)

Conforme a crise climática global se aprofunda, suas consequências adversas sobre a saúde e o bem-estar da humanidade se tornam ainda mais sérias. Ninguém está imune a esses impactos, porém milhões de pessoas — incluindo mulheres, crianças, idosos, minorias étnicas, indivíduos com condições de saúde pré-existentes e aqueles que vivem em situação de pobreza — encontram-se entre os mais vulneráveis.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mudanças climáticas representam “a maior ameaça à saúde enfrentada pela humanidade”, afirmação respaldada por evidências alarmantes. A OMS estima que as mudanças climáticas resultarão em mais de 250 mil mortes adicionais anualmente, entre 2030 e 2050.

De modo geral, condições extremas relacionadas aumento do nível do mar e da temperatura, poluição, falta de água, diminuição da produção de alimentos, ecologia e distribuição de vetores, conectadas a fatores de vulnerabilidade social, acabam gerando cada vez mais problemas respiratórios, zoonoses, lesões e mortalidade decorrentes de eventos climáticos extremos, além de má nutrição, impacto na saúde mental, doenças transmitidas pela água contaminada e provocadas pelo calor.

À medida que essas alterações ampliam o espectro de enfermidades e óbitos, também modificam padrões de propagação de doenças infecciosas e aumentam a probabilidade de surtos e pandemias. Os desfechos relacionados à saúde materna e infantil se deterioram, e consequências como inundações, secas, incêndios florestais e tempestades se intensificam. A mudança climática impõe pressões substanciais sobre os sistemas de saúde, aumentando a demanda por serviços médicos enquanto prejudica a capacidade de resposta desses sistemas.

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Paralelamente, a crise climática está rapidamente minando o acesso a necessidades humanas básicas, como segurança alimentar, água potável, saneamento e ar limpo. Novos dados do Banco Mundial revelam que um clima mais quente pode contribuir com pelo menos 21 milhões de mortes adicionais até 2050, devido apenas a cinco riscos à saúde: calor extremo, atraso no crescimento, diarreia, malária e dengue. Em novembro de 2023, a sensação térmica no Rio de Janeiro atingiu os 60ºC. Em julho de 2023, quase um terço dos leitos do Centro de Queimaduras do Valleywise Health Medical Center, em Phoenix, Arizona, foram ocupados por pessoas com queimaduras de terceiro grau ao tocar em maçanetas, água ou asfalto quentes.

Em relação à poluição do ar, além de agravar as mudanças climáticas, ela pode piorar ou desencadear doenças respiratórias como asma e bronquite. Em agosto de 2019, o céu da cidade de São Paulo escureceu durante o dia, em função de nuvens de fumaça provenientes de queimadas florestais. A cidade mais populosa do Brasil, que também é a que possui os maiores índices de poluição urbana, teve um aumento médio da temperatura em 2ºC desde a década de 1960, com 14 mil mortes relacionadas ao aumento do calor nos últimos 20 anos. Estima-se que 7 milhões de mortes prematuras ocorram anualmente devido à poluição do ar, de acordo com a OMS, além do impacto indireto nas mortes por causas cardiovasculares.

Contudo, embora todos enfrentem esses riscos climáticos, o fardo não é distribuído de maneira equitativa: mais de 90% das mortes relacionadas ao clima ocorrem em países de baixa e média renda. Um recente estudo conduzido pelo Banco Mundial projeta que as mudanças climáticas poderão empurrar mais de 132 milhões de indivíduos para a pobreza extrema até 2030. Destes, mais de metade reside na África Subsaariana e no sul da Ásia, onde se prevê que 44 milhões serão impactados diretamente pelos efeitos adversos na saúde.

Além disso, crianças, idosos e pessoas de baixa renda são mais suscetíveis aos impactos na saúde de forma imediata e mensurável. A ONU ressalta que as crianças são particularmente vulneráveis a doenças relacionadas ao clima, com aumento nos índices de mortalidade infantil em locais que enfrentam eventos climáticos adversos.

Migrantes e refugiados também enfrentam barreiras maiores à saúde e mais efeitos relacionados à mudança climática. Furacões, enchentes e secas prolongadas podem gerar estresse, ansiedade e traumas psicológicos, além dos danos causados pela migração das populações. A ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, destaca os problemas de saúde mental como os principais desafios para as pessoas refugiadas, fora as situações de violência, com aumento no número de refugiados climáticos para 828 milhões em todo o mundo.

Não bastasse tudo isso, secas prolongadas e eventos climáticos extremos podem levar à escassez de água potável, aumentando o risco de doenças transmitidas pela água, como diarreia e cólera. No Brasil, 33 milhões de pessoas vivem sem acesso à água potável para consumo, de acordo com o Instituto Trata Brasil, o que agrava a situação causada por eventos climáticos, como as enchentes no Rio Grande do Sul, que desencadearam uma urgência por água limpa para higienização e potável para consumo.

Ademais, secas e inundações podem prejudicar os setores agrícola e pesqueiro dos países, resultando na diminuição da disponibilidade de alimentos, no aumento dos preços e na carência nutricional. Isso afeta de forma desigual os países de baixa renda, onde a agricultura emprega 58% da força de trabalho, em comparação com apenas 3% nos países de alta renda. A perda da produção de arroz no Sul do Brasil devido à enchente de maio é um exemplo direto do impacto dos eventos climáticos extremos na produção agrícola.

As mudanças climáticas também causam a migração de animais e insetos para as cidades, aumentando a incidência de arboviroses que possuem os mosquitos como vetores, tal como a Malária, Dengue, Zika, Chikungunya e Febre Amarela, além de doenças que têm como hospedeiros animais silvestres e roedores, conhecidas como zoonoses.

Doenças como Leptospirose e Esquistossomose são mais frequentes após enchentes, bem como a Hepatite A, vírus com transmissão oral-fecal, após o contato com água contaminada por esgoto. A OMS estima que o aquecimento global pode expor até 5 bilhões de pessoas a doenças transmitidas por vetores até 2100. O aumento das temperaturas também está relacionado a maior incidência da Doença de Lyme, transmitida por carrapatos e causada pela bactéria Borrelia burgdorferi, e da Doença de Chagas, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, tendo como vetor o inseto barbeiro.

Em suma, os eventos climáticos têm demonstrado um impacto profundo e multifacetado na saúde das populações ao redor do mundo. Os efeitos são inegáveis e urgentes. A saúde mental e física, a disponibilidade de recursos básicos e até mesmo a infraestrutura dos sistemas de saúde são afetados de maneiras complexas e interconectadas. É evidente que medidas de mitigação e adaptação são necessárias para enfrentar esses desafios. Investimentos em infraestrutura resiliente, políticas de redução de emissão de gases de efeito estufa, análises de riscos e ações coordenadas em níveis local, nacional e global são cruciais para proteger a saúde das gerações presentes e futuras. A crise climática não é apenas uma questão ambiental, mas também uma questão de saúde pública, que exige uma resposta urgente e colaborativa de toda a sociedade.

Rafael Kenji é médico e Thaís Scharfenberg é internacionalista. Ambos são consultores em ODS, ONU e sustentabilidade para empresas.

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