Composição de interesses

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Em termos estruturais, a irrisória taxa de investimentos da economia brasileira e a reduzida produtividade dos serviços públicos – que se revela através do nível precário de nossa educação – são desafios que dominam uma parte importante das preocupações dos planejadores de políticas públicas em Brasília.
Em termos conjunturais vivemos tempos de desaceleração da demanda efetiva, na medida em que as incertezas oriundas da crise internacional inibem as decisões de gastos dos capitalistas tupiniquins.
Michael Kalecki, um importante economista do século passado, sentenciou com razão que na economia capitalista “os trabalhadores gastam o que ganham e os empresários ganham o que gastam”. Em outras palavras, isto representa dizer que a decisão das empresas em produzir uma maior quantidade de bens de consumo e seus investimentos produtivos em novas plantas industriais e de serviços gera as contratações e os adiantamentos dos salários responsáveis pela renda da comunidade.
A boa teoria econômica nos ensina que outra exigência básica para o ciclo dos negócios se consolidar é, tão somente, que aquela decisão do gasto empresarial (uma típica aposta no futuro) seja validada pelo sistema bancário sancionado o “animal spirit” do empreendedor, em adquirir novos ativos de capital, cujos lucros futuros vão garantir o retorno da operação financeira.
Historicamente, a acumulação de capital em nosso país se dá pela combinação virtuosa do investimento público em infra-estrutura, associado ao investimento estrangeiro em bens duráveis de consumo (automóveis, eletrodomésticos) e o investimento privado doméstico em construção civil e serviços, por exemplo.
Na nova divisão internacional do trabalho que surgirá, após esta crise que se arrasta no Primeiro Mundo, o desenvolvimento brasileiro tende a se concentrar na sua base de recursos naturais, cuja importância ganhou impulso com a descoberta do petróleo na camada pré-sal.
Entretanto, nos anos recentes, a forte elevação do salário mínimo, o aquecimento do mercado foral de trabalho e a expansão do crédito ao consumo revelaram o extraordinário potencial de nosso mercado consumidor interno.
Nosso desafio, portanto, será de forma planejada desenvolver um conjunto de políticas públicas objetivando a consolidação da autonomia do balanço de pagamentos, através de um incremento de nossas exportações, e ao mesmo tempo fortalecer nosso parque industrial, via incremento das inovações, bem como combinando investimentos públicos e privados que possam suprir a demanda interna.
Trata-se de uma articulação que permitiria unificar os interesses dos setores hegemônicos como finanças, construção civil, agronegócios e mineração, buscando simultaneamente fortalecer o Estado Social, responsável pela manutenção da trajetória de redução da pobreza e desigualdade ainda vigentes em nosso país.

Ranulfo Vidigal
Economista, mestre e doutorando em políticas públicas, estratégias e desenvolvimento pelo Instituto de Economia da UFRJ.

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