Compromisso com a vida

Opinião / 13:00 - 6 de fev de 2003

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Ele tinha uma vida feliz e confortável; bem casado e com filhos inteligentes e saudáveis; sua trajetória nos negócios também era um sucesso. Um dia, ao fazer alguns exames de rotina, descobriu que estava com uma doença gravíssima, incurável, daquelas que condenam seu portador à morte. Seu mundo de repente desmoronou; entrou em desespero e caiu em profunda depressão. Iniciou, então, um macabro ritual de preparação para a morte, organizando a sucessão no comando da empresa, o testamento e até o próprio funeral. Passado o impacto inicial, decidiu ir à luta. Consultou incontáveis médicos e debruçou-se sobre o computador na esperança de encontrar na Internet mais informações e, quem sabe, possíveis tratamentos que adiassem o desfecho fatal. Ficou sabendo, então, que um determinado laboratório farmacêutico estava organizando uma pesquisa clínica com um grupo de pacientes portadores da mesma doença para se submeter a um tratamento com um medicamento ainda inédito. Após muitos contatos, conseguiu incluir-se nesse grupo. Alguns meses se passaram, a doença foi regredindo, a perspectiva inexorável de morte foi ficando para trás, até que, um dia, os médicos lhe deram a grande notícia: ele estava curado. E, surpreendentemente, aquele homem que preparava o próprio funeral estava agora fazendo planos para o futuro. Esse caso é verídico e ilustra como um medicamento inovador pode mudar a vida de uma pessoa, pode significar literalmente a diferença entre a vida e a morte. Outro exemplo é a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids). Na década de 80, o diagnóstico de sorologia positiva para o HIV era sinônimo de sentença de morte. Hoje, mesmo ainda não se tendo chegado à cura definitiva, graças às novas classes de anti-retrovirais desenvolvidas pela indústria farmacêutica de pesquisa as pessoas vivendo com HIV e Aids levam uma vida praticamente normal. Um progresso e tanto, sobretudo se considerarmos que a Aids foi descoberta há cerca de 20 anos. Os próximos 20 anos, por sinal, deverão ser pródigos com a chegada ao mercado de cerca de mil novos e revolucionários medicamentos para prevenir, controlar e curar doenças, salvando milhões, talvez bilhões de vidas em todo o mundo. Entre as doenças-alvo desses novos produtos podemos citar mal de Azheimer, mal de Parkinson, artrite reumatóide, osteoporose, osteoartrite, diabetes, depressão, disfunções sexuais, gastrointestinais, respiratórias, de pele e da próstata, além das doenças degenerativas crônicas associadas à idade. Todo esse progresso só é possível, no entanto, porque a indústria farmacêutica de pesquisa investe anualmente bilhões de dólares na invenção de novas moléculas e no desenvolvimento de novos medicamentos. Só em 2001 foram US$ 60 bilhões. Nenhum setor da atividade econômica investe tanto dinheiro e esforço em pesquisa e desenvolvimento. Os investimentos para se inventar uma nova molécula são realmente elevados. Segundo estudo do Tufts Center for the Study of Drug Development (Boston), o custo médio para criação e desenvolvimento de um novo medicamento é da ordem de US$ 800 milhões. Além disso, até sua comercialização, um novo medicamento consome mais de dez anos de pesquisas laboratoriais e clínicas e mais uns dois anos nos processos de obtenção de registro das agências regulatórias. Isso sem contar que um novo medicamento que consumiu milhões de dólares e anos de pesquisa pode ser descartado por apresentar um efeito colateral indesejado ou não atingir a eficácia esperada. Ou seja, os riscos são imensos, sobretudo se lembrarmos que de cada dez mil moléculas inventadas apenas cinco chegam aos testes finais em seres humanos e somente uma chega às prateleiras das farmácias na forma de medicamento. Apesar disso, as indústrias farmacêuticas de pesquisa não abrem mão de seu compromisso legítimo de investir no desenvolvimento de novos medicamentos, que permitem ao ser humano viver mais, com mais saúde, qualidade de vida e produtividade. O empresário da história lá em cima e milhares de pessoas ao redor do mundo agradecem, pois graças às invenções dos laboratórios farmacêuticos eles ganharam uma segunda chance e, hoje, podem continuar em busca da realização de seus sonhos e de um futuro melhor. Flávio Vormittag Médico, é presidente da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma).

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