Enrico Casini e Federico Deiana, numa análise para a Fondazione Med-Or, na qual examinam as “convergências estratégicas” com o Mediterrâneo, explicam como o Ártico esteja no centro de uma nova corrida global, devido ao degelo e à consequente acessibilidade a imensos recursos naturais e a novas rotas comerciais.
A Fundação Med-Or foi criada por iniciativa da empresa italiana, Leonardo Spa, na primavera de 2021, com o objetivo de promover atividades culturais, de pesquisa e de formação científica, a fim de fortalecer os laços, os intercâmbios e as relações internacionais entre a Itália e os países da área. Do Mediterrâneo estendeu-se até ao Sahel, ao Chifre da África e ao Mar Vermelho (“Med”) e ao Médio e Extremo Oriente (“Or”).
O cenário considerado pelos analistas envolve três atores principais: Rússia, China e Estados Unidos, protagonistas do que eles definem, em outro artigo, como a “nova corrida pelo Ártico”.
A Rússia, graças à sua posição geográfica e à maior frota de quebra-gelos do mundo, é o país com presença mais consolidada na região. O Ártico já representa 10% do PIB da Rússia e 20% de suas exportações, incentivando Moscou a explorar economicamente a região. Após a invasão em larga escala da Ucrânia, a Rússia intensificou ainda mais suas atividades na área, tanto econômica quanto militarmente.
A China, embora não seja um país do Ártico, declarou-se um “Estado Quase Ártico” em 2018, incluindo o Ártico na Iniciativa do Cinturão e Rota com o projeto “Rota da Seda Polar”. Pequim tem como objetivo principal explorar as rotas marítimas mais rápidas e investir em projetos russos, consolidando seu interesse estratégico e comercial.
Os Estados Unidos e outros países da Otan responderam com um fortalecimento crescente de sua presença regional, principalmente após a entrada da Suécia e da Finlândia na Aliança Atlântica. O Ártico é visto, agora, como uma região crucial tanto do ponto de vista da segurança nacional quanto para o controle de novas rotas e recursos energéticos e minerais.
Essa competição geopolítica, explicam os dois autores, está interligada aos desafios ambientais globais ligados às mudanças climáticas, que aceleram o derretimento do gelo e ameaçam os delicados equilíbrios climáticos. O Ártico, portanto, não é apenas uma fronteira de oportunidades econômicas e estratégicas, mas também uma região-chave para o futuro ambiental do planeta.
O que Pequim quer no Ártico
Yang Zhen e Ren Yanyan, pesquisadores da Universidade de Ciência Política e Direito de Xangai, argumentam que a cooperação naval China-Rússia no Ártico é uma resposta direcionada para combater o que eles chamam de “hegemonia marítima dos EUA”.
Essa cooperação se intensificou no plano econômico, com o desenvolvimento conjunto de rotas do Ártico, cruciais para o transporte de petróleo e gás russos, especialmente depois que as sanções ocidentais, após a invasão da Ucrânia, reduziram significativamente o comércio de energia entre Moscou e a Europa.
A posição oficial de Pequim está delineada no “Arctic Policy White Paper”, publicado em 2018. O documento afirma que a estratégia polar da China se concentra em questões como mudanças climáticas, proteção ambiental, pesquisa científica, navegação, exploração e desenvolvimento de recursos, segurança internacional e governança.
A linha de Pequim é que não tem intenção de usar as questões do Ártico para promover seus interesses geopolíticos, considerando-se um “participante ativo” e um “construtor” nos assuntos do Ártico, oferecendo sua contribuição para o desenvolvimento e as mudanças na região.
No entanto, o comprometimento da China, que é o principal elemento de singularidade dada sua localização geográfica e estratégica, especialmente na cooperação com a Rússia e no desenvolvimento da infraestrutura do Ártico, levanta questões sobre a real neutralidade das ambições chinesas.
O crescente envolvimento de Pequim em projetos relacionados à Rota do Mar do Norte e aos recursos energéticos russos demonstra como o Ártico se tornou um componente estratégico de sua visão global, equilibrado entre a cooperação declarada e as ambições de contrapeso geopolítico.
Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), editor da revista Italiamiga e vice-presidente do Ideus.
















