Confúcio, Marx, Bolsonaro, Marielle e atentado à Crocus City Hall

Reflexões sobre moral, política e evento, como caso Marielle e Bolsonaro s atuais à luz de Confúcio e Marx, Por Pedro Augusto Pinho.

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Marielle Franco (Foto: Guilherme Cunha/Alerj)
Marielle Franco (Foto: Guilherme Cunha/Alerj)

Nos dias que antecederam a Semana Santa de 2024, diversos eventos no Rio de Janeiro, no Brasil e no Mundo fizeram-nos refletir sobre a moral e a política hodierna. Confúcio dista 2.500 anos destes nossos dias, Marx, uns 200 anos, Bolsonaro perto de 70 anos, e o assassinato de Marielle Franco recém completou oito anos.

Porém são as palavras de Confúcio que mostram maior pertinência e nos dão orientação para análise. O que dizia este pensador milenar que, mais do que o marxismo, influencia a nação que exibe, no amplo sentido da sociedade, o maior desenvolvimento em todos os campos neste século 21?

Para o Mestre Kong, são os preceitos da moral individual que orientam a atitude política. Como moral e política se ligam? Pelo humanismo. O primeiro axioma do humanismo confuciano é a confiança na educação, como fator de melhoramento constante, crença ainda hoje solidamente arraigada na República Popular da China (China).

Educação confuciana deve ser entendida no sentido prático, “o homem não é um pote”. O estudo não objetiva exibir ou colecionar conhecimentos, mas resolver problemas.

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A China é, historicamente, o país de lavradores. Estes não podem se dar ao luxo de desconhecer a realidade, se haverá chuva ou seca, se a terra foi fertilizada ou está árida, se usou boa semente e na época devida. Caso contrário ele não terá como se alimentar nem a sua família.

Este realismo é possível na China; onde a PEW Research Center (EUA), em análise sobre a religiosidade no mundo, apontou ser o país onde 92,3% da população não acreditam em deus, ou seja, qualquer entidade superior ao homem. Ou por serem budistas (18,2%), que é uma filosofia de vida sem deuses, ou por cultuarem os ancestrais (21,9%), referência ao passado e seu legado, ou por se declararem, simplesmente, sem religião alguma (52,2%).

Lê-se em “Os Analectos” (XIX, 13): “Quando o homem, com cargo oficial, descobre que pode fazer mais do que dar conta dos seus deveres, então estuda; quando o estudante descobre que pode mais do que dar conta dos seus estudos, então aceita um cargo oficial”. Ou seja, em Confúcio, o estudo é o método orientador da arte de governar.

Também de “Os Analectos”: assegurar ao povo o bem-estar material, proteção militar, e, principalmente, educação, é o próprio fundamento da ordem política.

Os diferentes pictogramas chineses para “retidão” e “correção” leem-se “zheng”, e ensinam a governança, como se aprende em “Os Analectos”. O soberano não pode governar não sendo, ele mesmo, reto, digno de ser exemplo para seu povo. E, lá está, “sem retidão, as ordens se multiplicarão sem que lhes as obedeçam” (XIII, 6).

Em todos os casos que examinaremos, no de Marielle Franco, no Rio de Janeiro, no de Bolsonaro, em Brasília, e nas manifestações dos Estados Unidos da América (EUA) e do Reino Unido (RU), relativas ao atentado terrorista, por seus serviços de inteligência (declaração do chefe do Serviço Federal de Segurança da Rússia, Alexander Bortnikov), com execução por ucranianos e tajiques, em Crocus Hall, ressalta-se o cinismo dos mandantes e responsáveis.

Decreto assinado, em 16/2/2018, pelo presidente Michel Temer, nomeia o general Walter Souza Braga Netto interventor na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro. Pelo texto, o general Braga Netto recebe “plenos poderes” para atuar em todos setores da segurança fluminense, ou seja, empregando as polícias Civil e Militar e o Corpo de Bombeiros Militar.

Viktor Mihály Orbán (1963) é filho dos movimentos neoliberais financeiros que correram a Europa, Oriente Médio e Ásia a partir da década de 1980. Foi o bem sucedido projeto de poder que uniu as finanças de diversos países para reconquista do poder perdido no início do século 20, especialmente após as duas Grandes Guerras.

Trocaram o período de 30 anos, que se seguiu ao fim da II Grande Guerra, de desenvolvimento e criatividade, de geração de emprego e novas tecnologias, os “anos gloriosos”, como os denominou a Associação Francesa de Economia Política, pela submissão unicamente aos ditames das finanças apátridas, do Consenso de Washington (1989), e o chamaram de “liberdade”, de “democracia”.

Década das desregulações, os anos 1980 foram da retirada de poder dos Estados Nacionais para o colocar na “banca”, naqueles ávidos por dinheiro, os multimilionários de todas as partes do mundo.

O que se vê agora, passados 40 anos, senão o mundo às portas da destruição, países em prolongada recessão, gerando desemprego, e com ele a violência urbana, a fome e a miséria, no campo e na cidade, e a falta de perspectiva de vida minimamente saudável para cada um e para seus descendentes. Apenas o acúmulo de dinheiro faz sentido neste mundo de pestes, desenvolvidas pelo capital, para reduzir a população.

VOCÊS SÓ SÃO GRANDES PORQUE ESTAMOS DE JOELHO

De la Boétie, 154

As finanças desreguladas nos temem: somos muitissimamente mais numerosos. Por isso este século 21 é mais um novo século de guerras, de pestes, de miséria. Precisam nos destruir, e a destruição começa com a ignorância, com a desinformação, e as finanças criam os instrumentos de dominação no controle das comunicações, nas reformas dos sistemas educacionais.

Reforma é sempre a criação de novos usos, e a matemática da comunicação permitiu a digitalização dos processos de produção, armazenamento, transmissão e conexão das mensagens. Porém toda esta estrutura informacional foi sendo apropriada pelas finanças a ponto de, apenas como cada vez mais rara exceção, se encontrar mensagens discordantes do mainstream, daquelas prevalecentes, dominantes, verdadeiros lugar comum das pregações financeiras.

Fiquemos com o filósofo francês Étienne de La Boétie (1530-1563) e suas reflexões sobre esta servidão, que hoje nos oprime, que ele já identificava no renascimento humanista da França, não fosse um amigo de Michel de Montaigne.

A religião serve ao poder para amortecer e aniquilar os ímpetos libertários. Assim se expressa, De la Boétie em seu famoso “Discurso da Servidão Voluntária”, obra escrita aos 18 anos por este genial pensador. Antecipando Karl Marx, De la Boétie vê o caráter fetichista dos bens, onde o poder incorpora a religião, algo fora da realidade, esta tão relevante para o pensamento de Confúcio.

Hoje esta “ignorância” vem camuflada, encoberta, como se expressou Emanuel Kant (1724-1804) : “quem é ignorante sem ver as razões dos limites da ignorância e sem se preocupar com eles é ignorante de forma inculta. Tal homem nem sequer sabe que nada sabe”.

Kant percebeu a falácia, na “Lógica” (1800), aquela proposição sem sentido, sem encadeamento entre os fatos enunciados ou sem seus nexos causais, que possam explicar, de maneira completa e correta, os efeitos que constam dos enunciados. E o que recebemos hoje das academias, das igrejas, dos poderes governamentais, todos eles constituídos pelas finanças, senão falácias?

Daí a importância de resgatar Confúcio. Para que fiquemos de pé, não como atitude de hostilidade, mas como manifestação de saber.

Analisemos, pois, estas ocorrências recentes, conscientes que elas reproduzem as falácias criadas pelo poder das finanças.


O caso Marielle

Talvez seja o mais simples de entender e o mais difícil de resolver. Quando as finanças promoveram as desregulações, elas não consideraram a capacidade, como agente financeiro, da economia marginal, aquela que por todo mundo é capítulo dos códigos penais: produção e venda de drogas, contrabando de pessoas e de bens, assassinatos, chantagens, lavagem de dinheiro, entre outros.

E, o que é mais significativo, movimentando com grande liquidez seus recursos, enquanto as finanças tradicionais os tinham imobilizados em terrenos, castelos, obras de arte, de pequeno mercado consumidor e difícil liquidez.

A “crise 2008/2010” foi principalmente a da disputa de poder, dentro do mundo das finanças, para as ações dos gestores de ativos, para o controle dos paraísos fiscais, para os investimentos e ações bélicas, entre os capitais tradicionais e marginais. Se houve alguma definição, ainda é prematuro afirmar, mas, sem dúvida, as finanças marginais ganharam mais espaço, mais autonomia de ação, como nos dão conhecimento as ocorrências no Haiti, no Equador, na Argentina e no Brasil.

No Brasil, se o poder financeiro já assumira o país na “redemocratização”, com as aprovações de 140 emendas à Constituição de 1988 pouco restou aos cidadãos de direitos que não estivessem subordinados aos financeiros.

No Estado do Rio de Janeiro, as finanças marginais assumiram o controle de todos poderes, cada um conforme suas características, que vão da imposição de algum membro da marginalidade no sistema formal de poder (deputado, secretário, superintendente, diretor), à corrupção e chantagem para obter decisões dos ocupantes de cargos públicos.

Assim se explica o “caso Marielle”.

Esta vereadora, defendendo os interesses de seus eleitores, de residirem em área livre da “administração das milícias”, “dos traficantes”, deste poder que toma o governo, esbarrou no esquema criminoso do Rio de Janeiro. E para não deixar seguidores da Marielle, apelaram por sua eliminação como exemplo. E todo o sistema que vai do interventor federal na segurança fluminense, general Braga Netto, futuro candidato a vice-presidente da República, ao escriturário da repartição pública que, para sobreviver, evita conhecer a situação, são participantes cúmplices do crime de morte.

Há solução? Espera-se a conclusão do processo com a punição dos responsáveis, pois o cadáver está aguardando nas ruas para seu descanso eterno? Claro que não. Afinal ainda estamos todos de joelho, acreditando nas mídias hegemônicas e nas redes de convivência virtual.

A solução para o caso Marielle terá início com a verdadeira reforma da educação, das escolas às redes de televisão, dos equipamentos aos softwares de comunicação, todos nacionais, todos do Estado, todos com a participação por assembleias e plebiscitos populares.


O caso Bolsonaro

Sem conhecer Victor Orbán, não se entende a ação de Bolsonaro. O 1º ministro húngaro transita, desde a mocidade, entre ideologias. Participou das homenagens ao líder comunista Imre Nagy, do movimento de 1956 que exigiu o afastamento de Moscou, e apoiou o afastamento da Hungria da União Europeia. Então seria um nacionalista? Não, ele tem um projeto pessoal de poder, que o levou do comunismo da juventude ao fascismo atual.

Abre a Hungria à China, que tem nos negócios que possibilitem o desenvolvimento chinês sua principal meta. E a China é um país de partido único onde há muito mais diversidade política do que nos EUA, onde todos os partidos têm o mesmo idêntico propósito. Não há nos EUA uma oposição como o Governo de Xangai faz ao Comitê Central do Partido Comunista Chinês.

Este personalismo conservador de direita, sem qualquer outro propósito de ação política, identifica Bolsonaro a Orbán, muito mais do que a Donald Trump, a Rodrigo Duterte (Filipinas), a Nayib Butele (El Salvador), ou a Javier Milei (Argentina) e Daniel Noboa (Equador).

A submissão às finanças e, em especial, às finanças marginais é o diferencial. E, simultaneamente, estaria trocando ideias com uma liderança europeia, pouquíssimo conhecida, para sofrer contestação e até gerar admiração.

Na curta compreensão de Bolsonaro, este fato o afastaria das incriminações criminosas que o Supremo Tribunal Federal (STF) vinha municiando as mídias brasileiras. Seria uma pausa com o apoio dos EUA, vista a participação decisiva do jornal The New York Times, fornecendo ao sistema Globo e à estadunidense CNN até vídeos internos do prédio da embaixada, para o visível constrangimento do embaixador húngaro.

Primário? Sem dúvida, mas tão perto do bolsonarismo que é perfeitamente crível.


Crocus Hall

Quantos tiros os pés estadunidenses suportam? Desde o intervalo de sucesso do golpe Euromaidan, na Ucrânia, onde os EUA trocaram um presidente eleito por um artista circense, aquele país norte-americano só coleciona derrotas.

Crocus Hall vem participar desta infausta coleção, ao lado da ação bélica contra a Rússia, que demonstrou a enorme superioridade da Rússia sobre os EUA e toda Otan; da econômica, onde a Rússia cresceu, enfraqueceu o dólar estadunidense, e levou a Europa Ocidental à penúria econômica e social em que se encontra; e, como a cereja do bolo, a ampla vitória eleitoral, com observadores de todo mundo, do reeleito presidente Putin.

Só podemos atribuir ao desespero, não a movimentos islâmicos, a tragédia do assassinato de jovens, mulheres e velhos na explosão e tiroteios no Crocus City Hall. E, mais uma vez, fica exposta a fragilidade dos serviços de inteligência estadunidenses.

Recuperemos os ensinamentos de Confúcio para um mundo mais saudável e uma vida mais feliz e produtiva.

Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado

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