Congo. Agora. Jacarezinho

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Moïse Mugenyi Kabagambe (foto reprodução)
Moïse Mugenyi Kabagambe (foto reprodução)

Mais um país vitimado pelo colonialismo, o Congo (com pouco mais de 300.000 km², de 3 milhões de habitantes e de subsolo rico) ainda vive amarguras de uma exploração colonial intensa. Potências europeias levaram tudo o que conseguiram carregar.

Moïse Kabagambe, jovem congolês, de 24 anos e sua família, quem sabe acreditando que encontrariam reciprocidade agora, em um país que foi construído também pelo trabalho dos seus ancestrais, como o Brasil, encontrou a tortura seguida de morte, e sua família, ameaçada, confrontados com valores civilizatórios do tempo do pelourinho, pensa em deixar o Brasil e a ferrugem escravista daqui, institucionalizada. Agora.

Supostamente, por cobrar dois dias trabalhados (R$ 200) em um quiosque denominado Tropicália, ao que foi dito, de propriedade de um suspeitíssimo cabo da polícia militar (PMERJ), ou um discreto gênio das finanças (salário médio de um cabo da PMERJ gira em torno de R$ 5.368), em uma área de controle da milícia, acordou a cobra ancestral dos capitães do mato, que mostraram quem manda no pedaço. Agora.

A economia congolesa está baseada principalmente em ricas atividades extrativas, como diamante, cobre, petróleo, madeira, marfim, látex e cobalto. Em 1891, em outra etapa de sua trágica História, o Congo passou a ser colônia francesa, encerrada com o seu processo de independência, em 1960.

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Black Lives Matter

Coluna Empresa-Cidadã, de 8 de julho de 2020

“A campanha Black Lives Matter, criada após o assassinato covarde de Eric Garner por policiais (Nova York, julho de 2014) e revigorada a partir do assassinato de George Floyd (Minneapolis/Minnesota) parece ter recebido mais uma adesão – a de Philippe, rei da Bélgica. É o que se depreende do pedido de desculpas por ele manifestado, há dias, pela ocupação e exploração do Congo, no período do reinado de Leopoldo II, quando, segundo ele, ‘foram cometidos atos de violência e crueldade, que ainda pesam na nossa memória coletiva’.”

“Uma das estátuas do rei Leopoldo II, que ficava em Antuérpia, foi alvejada por manifestantes belgas antirracistas e recolhida pela administração local, em junho deste ano. Leopoldo II ocupou o trono de 1865 a 1909, e pela exploração colonial de minerais, do marfim, e do látex na região conhecida como Congo Belga deixou um legado estimado em 15 milhões de assassinatos, mais um número incontável de mutilações, em adultos e crianças, e estupros. Segundo o rei Philippe, o período posterior, de 1908 a 1960, também ‘causou sofrimento e humilhação’.”

“O rei Philippe assumiu o compromisso público de ‘combater todas as formas de racismo’.”

 

‘Descolonizar é preciso. Agora.’

Em 1485, Diogo Cão, escravista português, abriu uma trágica etapa na vida do Congo, só encerrada, em relação a Portugal, em 1885, com a Conferência de Berlim, em que Portugal foi alijado do espólio. A longa etapa, iniciada no final do século 15, compreendeu a escravização de mais de 2 milhões de pessoas para desenvolver as culturas mercantis que fizeram o Brasil, sob tutela europeia, a triste hospedeira de cerca de cinco milhões de escravos negros, dos quais pelo menos 2 milhões do povo Banto, congoleses.

Apesar dos sinais da História advertirem pelo contrário, Moïse Kabagambe, o jovem conguês de 24 anos, e sua família acreditaram no Brasil como abrigo para fuga da violência presente no Congo. Agora. E foi jogado nos colos da milícia e da PMERJ. Em resumo, assassinado de forma bárbara, a pauladas. Agora. No Brasil.

 

Biruta e Tropicália

Pelo massacre, protestos estão ocorrendo em diversas partes do Brasil. E, em ato simbólico expressivo, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro anunciou no sábado, 5 de fevereiro, que o direito à exploração das atividades no quiosque Tropicália e no quiosque vizinho, Biruta, será concedido à família de Moïse, com a hipótese provável de que seja transformado em um memorial em homenagem ao jovem conguês assassinado. Não é muito, mas já é mais do que os posicionamentos vazios dos governos estadual e federal e é compatível com as recomendações expressas no Plano de Ação que segue a Declaração de Durban, na III Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela ONU, em setembro de 2001.

 

Yago, preso portando um saco com pães

Yago Corrêa de Souza, 21 anos, torcedor do Flamengo, foi detido pela PMERJ, no domingo, 6 de fevereiro, após adquirir 7 pães para acompanhar um churrasco, mas o próprio delegado titular da delegacia, onde foi feito o registro da ocorrência, liberou o Yago.

Ele teria sido confundido com traficantes porque correu quando viu um tumulto com policiais, como faria qualquer pessoa sensata, sabedora de que, na favela do Jacarezinho, 28 pessoas foram fuziladas por policiais (únicos indiciados), em chacina ainda não solucionada, ocorrida em maio de 2021. Foram contabilizados 73 disparos, na ocasião.

Familiares de Yago ouviram na delegacia que ele estava no lugar errado, na hora errada. Acrescento com a cor de pele errada também. Yago é negro.

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