Conhecendo melhor os rosés e algumas dicas

O vinho rosado ‘pegou’, de um jeito diferente dos seus irmãos de outra cor.

Vinho etc / 18:56 - 7 de fev de 2020

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Já tive oportunidade de falar em artigo anterior sobre o vinho rosé e o seu crescimento estupendo, reforçado por um marketing muito bem feito em torno de sua estética – belas cores, garrafas e rótulos design. O “patinho feio” virou o vinho da moda e teve como boa contribuição o trabalho promocional da região de Provence. O vinho rosado “pegou”, de um jeito diferente dos seus irmãos de outra cor, isto é, aparecendo mais como uma categoria de vinho do que como um vinho portador de certa tipicidade, seja ela identificada com a uva ou com a origem. Mais ou menos como acontece com o espumante – as pessoas vão criando o hábito de bebê-lo, sem fazer muita distinção dos produtos entre si e, aos poucos, esse conhecimento virá, e as preferências serão estabelecidas. No caso dos demais vinhos, o referencial de uvas e tipos de vinhos já está mais difundido, e o consumidor já busca a uva – o Malbec ou o Chardonnay – ou a região – o Rioja ou o Bordeaux, por exemplo.

A identificação dos vinhos brancos e tintos pelas cepas torna o entendimento e escolha dos vinhos mais acessíveis aos consumidores, por mais reducionista que isso às vezes pareça ser, já que há outros fatores em jogo. Por outro lado, embora muitos vinhos sejam de corte de várias uvas, temos no universo mais tradicional do vinho, como nos países europeus, tipos de vinhos já consagrados e associados às suas origens. Assim, quando eu falo de Bordeaux, eu já consigo imaginar um perfil para vinhos brancos e tintos, da mesma forma com vinhos do Douro, Alentejo, Chianti, Rioja, entre outros. Eu não penso apenas na categoria branco ou tinto, mas em certas características que “devem” pretensamente acompanhar o vinho feito daquela uva ou naquela região.

Me parece que isso ainda é algo complicado no vinho rosé, pois o fato dele ser feito, em sua grande maioria, com uvas utilizadas para a elaboração de vinhos tintos, este dado pode não ser suficiente para provocar uma clara antecipação de sua qualidade na mente do consumidor, pois, além dessa tipicidade estar meio diluída devido à menor concentração de extratos, ele pode estar entre o que caracterizaria um vinho branco ou um vinho tinto da mesma uva. O vinho fica no meio do caminho, ele tem parte do perfil de um vinho tinto da mesma uva (do qual temos referências) e parte do perfil do branco dessa uva, que normalmente desconhecemos. Mas você pode argumentar que os vinhos de cortes também não nos antecipam muita coisa – concordo, mas, como disse acima, os mais consagrados já têm estilos associados às suas origens. Isso acontece com alguns rosés também, mas é menos conhecido e difundido.

Em função disso, neste artigo, vou indicar algumas regiões mais associadas a vinhos rosés e, se possível, estilos mais afins a cada uma delas, mesmo que em alguns casos isso ainda esteja em construção. Desse modo, pretendo facilitar a exploração desse universo para quem tem curiosidade e aprecia um vinho rosé. A distinção de vinhos rosados começa pela coloração – que tem nuances bem encantadoras: rosa palha, cebola, salmão, pêssego, laranja, framboesa, cereja, groselha etc.

A cor rosada se origina dos pigmentos presentes nas cascas das uvas tintas, assim como a cor rubi nos vinhos tintos, só que em menor quantidade. Para a extração desses pigmentos, existem dois métodos mais utilizados: a prensagem leve e direta das uvas para a extração de cor de forma mais delicada (até 2 horas de contato com as cascas), que normalmente gera vinhos de cor mais clara, e a maceração curta das uvas, normalmente feita por sangria: quando a pigmentação alcança o extrato desejado, separa-se parte do suco rosado de sua parte sólida para a fermentação alcoólica do vinho rosé nos moldes dos vinhos brancos. Em parte, ele é vinificado como tinto, e em parte, como branco.

A região de Provence adota um perfil mais claro e fresco de vinhos rosés, em que muitas vezes basta a prensagem direta; já a AOC Tavel, localizada no Vale do Rhône/França, produz um rosé de cor intensa, mais carnudo e encorpado, que demanda um tempo maior de maceração e que tem a Grenache como casta principal, mas em corte com outras cepas do Rhone. Dentro da região de Provence, no entanto, há propostas “em tese” distintas, vindas de cortes em que predominam Cinsault, Grenache, Syrah, Mourvedre, Carignan e Tibouren (casta provençal). Os vinhos da Côtes de Provence, com maior influência litorânea, buscam um perfil mais aromático, fresco e acidulado; já os da Côteaux Varoix, com vinhedos em partes mais altas e com boa exposição solar, apresentam um rosé mais floral, de corpo médio e frutado. Há ainda a Côtes de Aix-en-Provence, cujo clima é mais mediterrâneo e que produz rosés mais frutados e concentrados; e os rosés do Bandol, AOC onde reina a Mourvèdre, de perfil mais estruturado. Há outra região que, tradicionalmente, faz vinhos rosés na França: o Vale do Loire. Dentre eles, o mais internacionalizado é o Rosé d’Anjou, um vinho de média extração, mas de perfil bem frutado e levemente adocicado, feito de uma uva bem local e pouco conhecida, a Grolleau.

Fora da França, outro país no qual a produção de rosés aumenta é a Espanha. Algumas regiões os produzem e os consomem tradicionalmente, como em Aragon, que tem o Calatayud rosado, fruto da Garnacha Tinta, de cor framboesa e potência aromática. Há também os Cigales rosados, feitos da Tempranillo em Castilla y Léon, em processo de refinamento produtivo e, na região de Navarra, os rosados representam quase 40% da produção, a partir das uvas Garnacha e Tempranillo, que se caracterizam pela concentração de aromas e sabores de frutas vermelhas. Há muitos rosados ainda em Rioja Baja e Valencia, além dos belos Cavas rosados, feitos especialmente das uvas Pinot Noir e Trepat (variedade local).

A Itália também apresenta produções tradicionais na categoria, embora não apresente um claro investimento no perfil atualmente. O Bardolino Chiaretto (chiara vem de claro) é produzido a partir das famosas cepas dos cortes tintos do Veneto – Molinara, Rondinella e Corvina – e apresenta um perfil mais fresco, frutado e com leve amargor final. A região de Abruzzo foi a primeira a ter uma DOC de rosato italiano: o Cerasuolo d’Abruzzo, que tem perfil de guarda, contrariamente à maior parte dos rosés. Produzidos a partir da cepa Montepulciano di Abruzzo, seu nome vem de Cerrasi, cereja para dialeto local, em função de sua cor e sabor característicos. A terceira maior região italiana para rosés é a Puglia, região sulina quente, que faz rosatos a partir de uvas dos tintos locais (Negroamaro, Malvasia Nera e Primitivo), mas especialmente da Bombino Nero, que tem pigmentação mais leve e permite a produção de vinhos mais frescos, com toques cítricos.

No Novo Mundo, a Califórnia também consagrou vinhos rosés com a emblemática Zinfandel, da qual se produz muitos tintos, mas que tem uma versão rosé bem popularizada: a White Zinfandel. Como estamos em tempos de rosés, não faltam versões com uvas tintas trabalhadas regionalmente em boa parte dos países. No Brasil, uma região que vem sempre investindo substancialmente nesta produção é o Estado de Santa Catarina.

Como prometido, preparei uma relação de vinhos rosés disponíveis no mercado com valores até pouco mais de R$ 100. Além das boas referências de produtores e importadores, privilegiei apresentar perfis distintos de vinhos em relação a origens e cepas, dentro da faixa de preço citada.

Vinhos

Importador/Distribuidor

Preço

 

 

 

Castillo De Jumilla Rosé (MONASTREL) Espanha

Wine Lovers

R$ 72,00

Bojador Rosé Org. Alentejo (TOURIGA / Aragonês)

Wine Lovers

R$ 107,00

Cava Viña Romale Rosado Brut Nature

Wine Lovers

R$ 99,00

Dom. Horgelus Côtes De Gascogne Rosé

Premium Wines

R$ 87,00

Casa Da Passarela A Descoberta Rosé Dão

Premium Wines

R$ 99,00

Bisquertt Petirrojo Reserva Rosé Chile (PAIS)

Baccos

R$ 58,80

Garzon Estate Pinot Noir Rosé Uruguai

Baccos

R$ 79,90

Campo Castillo Rosado Garnacha Espanha

Casa Rio Verde

R$ 59,00

Collevento Trevenizie Rosato (CAB. Sauv/Merlot)

Casa Rio Verde

R$ 103,00

Rosé De Chevalier (CAB. Sauv./MERLOT) França

World Wine

R$ 99,00

Ercavio Más Q Vinos Tempranillo Rosado Espanha

Decanter

R$ 54,60

Castello Di Magione Belfiore Rosato Italia

Decanter

R$ 68,00

Villa Francioni Rosé Sta Catarina Brasil

Cave Di Baco

R$ 100,00

Otazu Rosado Italia

Vinci Vinci

R$ 89,70

Gran Feudo Rosado Chivite Navarra (GARNACHA)

Mistral

R$ 93,71

Espumante Brut Rosé Monte Paschoal

Zahil Rex Bibendi Bh

R$ 48,00

Espumante Moscatel Aquarela Casa Perini

Zona Sul

R$ 69,00

 

Para saber mais sobre grupos de estudos sobre vinhos e turmas abertas da Cafa Wine School no Brasil, visite miriamaguiar.com.br / Instagram: @miriamaguiar.vinhos

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