Conhecimento é poder

Levei muito mais 'não' do que 'sim'; digo a meus alunos que nosso conhecimento pode até nos bastar hoje, mas não ser suficiente para amanhã.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Não sei se você me conhece. Mas, se tem algo que eu gostaria que soubesse a meu respeito, é que represento 0,4% dos cargos de CEOs do país. Sou uma outlier, um ponto fora da curva. E, embora eu acredite que isso não me define, acho que é um bom começo de conversa.

Também queria que você soubesse que eu não pensava em ser uma líder executiva. Eu sonhava, isso sim, em ser aeromoça. Meu pai, que teve sete filhos e nos criou em Jordanópolis, bairro da periferia da Zona Sul de São Paulo, me fez desistir da ideia. "Caboclinha, aqui em casa filho meu faz o que quero. E você vai estudar", ele me disse. Meu pai não tinha faculdade, mas sabia das coisas. Autodidata, de faxineiro na extinta Vasp ele virou mecânico de voo.

Contra minha vontade, tive que desistir das ofertas que recebi depois de concluir a Escola de Aviação de Congonhas e, como ele queria, prestar vestibular. Na época, eu não tinha como entender a dimensão exata do que a trajetória do meu pai significava. Talvez eu não compreendesse totalmente que, negro e pobre, ele tinha todo o peso histórico da falta de oportunidade sobre seus ombros. E não queria que sua história se repetisse com seus filhos.

"Sou mulher, negra, mãe solteira de duas crianças e nascida na periferia. Sei que hoje sou um modelo para outras pessoas, homens e mulheres. E sei que não é fácil, que nos faltam oportunidades. Levei muito 'não', muito mais do que 'sim'."

Por isso, embora eu tenha culpado meu pai no início, pouco tempo depois já percebi que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. A educação me trouxe até aqui.

Quando me formei, já trabalhava na 7-Eleven. Logo depois de sair da empresa, decidi aprender inglês, uma lacuna no meu currículo. Fiquei um ano e meio no Canadá e, ao voltar, assumi como CFO da Novartis. Minha experiência com finanças me levou ao mesmo cargo na Tiffany & Co. e alçou meu voo a CEO da Pandora e da Lacoste no Brasil.

E nunca parei de estudar. Tenho dois MBAs, dois aperfeiçoamentos e um curso C-Level da FGV. Leio muito, tudo. Sempre digo para as pessoas e também para meus alunos do projeto Capacita-me - em que capacitamos pessoas em condição de vulnerabilidade e as conectamos ao mercado de trabalho - que nosso conhecimento pode até nos bastar hoje, mas não ser suficiente para amanhã.

Sou mulher, negra, mãe solteira de duas crianças e nascida na periferia. Sei que hoje sou um modelo para outras pessoas, homens e mulheres. E sei que não é fácil, que nos faltam oportunidades. Levei muito "não", muito mais do que "sim".

Mas sou a prova de que não é impossível. E por isso eu empresto a frase de uma pessoa que me inspira, Barack Obama, para ser o título desta coluna. Estou aqui para mostrar que: "Yes, we can!". E é por isso que eu luto.

.

Rachel Maia

Presidente do Conselho Consultivo do Unicef

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor