Consumo de alimentos fora do domicílio pressiona IPCA em setembro

Preços de alimentos consumidos em bares e restaurantes aceleraram mais do que o esperado.

Opinião do Analista / 15:52 - 9 de out de 2020

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Em setembro de 2020, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acelerou 0,64%, levemente acima da nossa expectativa (0,61%) e bem acima do consenso de mercado (0,54%). No acumulado de 12 meses, o IPCA acelerou de 2,44% em agosto para 3,14% em setembro.

Alimentos, bebidas e vestuário foram destaque de alta. Os preços de alimentos consumidos fora do domicílio aceleraram mais do que esperado, o que deve ser consequência principalmente I) do repasse em bares e restaurantes do aumento da inflação de alimentos nos últimos meses e II) da continuidade da reabertura gradual da economia, permitindo recomposição de caixa. A inflação de alimentos consumidos no domicílio manteve a tendência de alta, em linha com o projetado. Destaque para I) cereais e leguminosas (como arroz e feijão fradinho), II) carnes, III) leites e derivados e IV) óleos e gorduras. Já no caso de vestuário, o aumento dos preços também era esperado, em linha com o sinal positivo que a retomada da indústria e do varejo já traziam para o setor.

Com a flexibilização das medidas de isolamento social, os preços de transportes aceleraram pelo quarto mês consecutivo, com destaque para as passagens aéreas, que apresentaram inflação de 6,39% em setembro (contra -1,71% em agosto). No entanto, com a descompressão dos preços de combustíveis (1,94% em setembro contra 2,94% em agosto), a inflação do setor de transportes como um todo foi menor do que nos meses anteriores.

Com a inflação acima do esperado dos alimentos consumidos fora do domicílio, as medidas de núcleos - que indicam a tendência subjacente da inflação - vieram mais pressionadas. Esse fator, somado ao anúncio de que o IBGE deverá coletar as mensalidades escolares já no mês de dezembro, traz um viés de alta para as projeções de IPCA para o ano, uma vez que os descontos concedidos pelas escolas durante a pandemia já devem começar a ser reduzidos para as mensalidades do ano que vem.

Assim, com exceção dos preços consumidos fora do domicílio, o resultado do IPCA em setembro veio em linha com o esperado. Apesar da alta dos núcleos, a inflação segue em patamares historicamente baixos. Entendemos que o resultado de hoje não deve mudar a avaliação do Banco Central de que os juros devem se manter em patamar estimulativo para a economia (projetamos a Selic nos atuais 2,00% ao ano até o terceiro trimestre de 2021).

Para o ano que vem, o novo recorde projetado pela Conab para as produções agrícolas na safra 2020/21 deve ajudar a reduzir a inflação de alimentos. Além disso, com os ajustes nos preços das mensalidades escolares já sendo sentidos em dezembro desse ano, é provável que a inflação projetada para o setor de educação no que vem também seja levemente reduzida. A provável desaceleração da economia com a redução das medidas de suporte do governo completa o quadro relativamente benigno.

Dessa forma, ainda que a projeção para o IPCA em 2,6% para 2020 tenha certo viés de alta, para 2021 não vemos razão para alterar significativamente nossa projeção (também em 2,6%).

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Lisandra Barbero

Economista

XP Investimentos

www.xpi.com.br

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