Conta crescente

Passado quase um mês dos, ainda mal explicados, atentados nos Estados Unidos, esta coluna vê confirmar a previsão que fizera, três dias depois do fato. Em nota intitulada “Nova era”, previa-se que, de fato, o mundo não seria mais o mesmo, mas, “não porque, a partir de agora, sua única superpotência terá um cheque em branco ilimitado para suas ações, mas, sim, porque sua fragilidade exposta em tempo real e em imagens sem retoques aponta para a impossibilidade da continuidade da civilização sem uma ampliação dos centros de decisão, tanto para isolar fundamentalismos, quanto para manter sob controle o caldo de cultura da perversão social e econômica do qual se alimentam os novos profetas da barbárie”.
O longo prazo passado entre os atentados e a reação dos EUA revelou, além das profundas divisões no seio do Governo Bush, que a hegemonia norte-americana era insuficiente para dar conta do novo cenário. O comando dos EUA, porém, parece não ter entendido que as alianças pontuais firmadas – muitas das quais com inimigos históricos – não mudavam a visão desses governos e, principalmente, das suas sociedades sobre o império. A condenação ao terrorismo, unânime, se estendia ao terrorismo de Estado – modalidade na qual os EUA registram a incômoda situação de principal praticante. Ao iniciarem o ataque ao Afeganistão sem apresentarem uma única prova contra Bin Laden digna desse nome, os EUA já vêem os apoios políticos se transformarem em críticas contundentes a sua ação. Além do mais, a desestabilização de governos aliados – históricos ou momentâneos – dos EUA pode deixar o país em pior situação na região do que antes do conflito. Todo esse cenário aponta para a necessidade de menos porrete e mais concessões políticas. Quanto mais tempo a liderança norte-americana demorar para se entender isso, maior o preço a pagar.

Gol contra
A decisão de prefeituras do interior do Estado do Rio de Janeiro de combater a migração para seus municípios pelo impedimento da entrada de pessoas de fora das suas cidades, além de ilegal e excludente, está criando situações constrangedoras, que podem levar a resultados opostos, com o esvaziamento de lugares que têm no turismo um de suas principais receitas. No último fim de ano, a Guarda Municipal de Rio das Ostras, por exemplo, tentou impedir a entrada de uma excursão de pessoas da terceira idade vindas do Rio. Embora a firmeza do guia tenha impedido o intento, a maioria dos visitantes, constrangida com o tratamento, riscou o município de futuras excursões.

Roto & esfarrapado
O superávit comercial de US$ 843,5 milhões acumulado pela Argentina com o Brasil até setembro não autoriza a continuidade do voluntarismo do engessamento cambial prático por Cavallo e seus fundamentalistas. Na verdade, ele é o efeito colateral da profunda recessão em que tal sistema enfiou a Argentina. No mesmo período, as exportações argentinas para o Brasil desabaram 26,7%, fato compensado pelo tombo de 39,2% nas vendas nacionais provocadas pela falta de mercado no vizinho.

Destampão
Os atentados nos Estados Unidos tiveram um efeito colateral pouco previsto pelos pregoeiros da política de relações carnais com Washington: a liberação, em todo o mundo, inclusive no Brasil, de um profundo sentimento antinorte-americano. A surpresa com essa situação revelou, com grande profundidade, que a aplicação das políticas do Consenso de Washington só é popular nas elites locais. Em tempo, a tradução de sentimento antinorte-americano por sentimento anti-império talvez causasse menos surpresas.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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