Contrição

A confirmação pelo boxeador cubano Erislandy Lara de que não foi deportado pelo governo brasileiro para seu país deveria não apenas implicar o abandono da tese abraçada com fervor pela mídia conservadora tupiniquim, como um pedido público de desculpas por terem reproduzido, com insistência espantosa, uma versão sem sustentação nos fatos, mas apenas em ranhetices ideológicas. A não ser que, apesar da palavra do próprio Lara, a mídia local continue a se aferrar à máxima de que uma mentira repetida mil vezes pode ser erigida ao grau de verdade.

Só no papel
Denuncia a Folha de S.Paulo desta segunda-feira que, pelo edital de privatização das hidrelétricas dos rios Tietê e Paranapanema, AES e Duke Energy – as respectivas vencedoras – teriam oito anos para ampliar em 15% a geração de energia em São Paulo, “o que implicaria investimento de R$ 1,6 bilhão”. Isso jamais ocorreu. E o governo paulista, sem tomar providências depois desta quebra de contrato das duas concessões estaduais, ainda insiste em privatizar a “jóia da coroa”, a Cesp?

Por que não acaba?
O novo derretimento dos mercados financeiros deflagrado pela revelação de novos esqueletos no armário da corretora AIG resume e reafirma, em números cada vez mais colossais, porque a crise financeira está longe de ser debelada, como apressadamente anteviram alguns diante da aparente ausência de novos dados bombásticos.
A nova extensão do rombo da AIG, agora revelada, deve ser seguida por mais informações, tão ou mais aterradoras, sobre outras instituições. A grandiosidade dos números confirma a impossibilidade de pôr termo a uma crise sobre a qual ninguém conhece a verdadeira extensão.
E, ao mesmo tempo, adverte para a urgência da estatização de grande parte do sistema financeiro internacional como o principal antídoto para estancar a hemorragia provocada pelos anos de exuberância irracional. Adiar essa solução por conta de preconceitos ideológicos, justamente da parte dos principais responsáveis pela crise, apenas adiaria uma solução e tornaria a conta ainda mais salgada.

Ensino
A crise na  educação superior será o principal assunto da pauta da reunião que o Sindicato do Sindicato dos Professores do Município do Rio de  Janeiro e Região (Sinpro-Rio), que representa os professores das universidades privadas, realiza no próximo dia 10, às 14h, na sua sede, na R. Pedro Lessa 35/3º andar, no Centro. O debate faz parte da terceira edição do Fórum Permanente da Educação Superior e vai discutir a crise das instituições privadas, suas reestruturações e as repercussões na qualidade do ensino e o papel do Estado e dos movimentos sociais na elaboração de um projeto para o ensino de terceiro grau.

Enfrentar a crise
Um debate sobre o desenvolvimento do país em meio à crise econômica internacional marcará a primeira reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) em 2009. O órgão consultivo da Presidência da República receberá, quinta e sexta-feira próximas, em Brasília, nomes como James Galbraith e Ignacy Sachs. Lula abrirá a reunião, que terá participação da ministra Dilma Rousseff, da economista Maria da Conceição Tavares, do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, do professor Luiz Gonzaga Belluzzo e do diretor-executivo no Fundo Monetário Internacional (FMI), Paulo Nogueira Batista Jr, entre muitos outros.

Só Carolina não viu
Através do BNDESPar, o banco de investimento estatal enfiou R$ 250 milhões, em novembro último, no Frigorífico Independência, primeira parcela de uma operação de subscrição de ações em que ficaria com um terço do capital da companhia. O frigorífico acaba de pedir recuperação judicial. A crise no setor já estava clara desde setembro, com o aperto no crédito. Quem leu jornais, como este MM, ficou informado do assunto. O BNDES demorou quatro meses, mas pelo menos evitou o desembolso de mais R$ 200 milhões.

“Subprime”
O número de lançamento de ações em abertura de capital (IPOs, sigla na língua preferida pelo mercado) caiu de 64, em 2007, para quatro, em 2008.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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