Cooperação internacional como importante componente na área de C&T

Por Wanderley de Souza.

Opinião / 18:22 - 21 de ago de 2019

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O avanço crescente e acelerado do conhecimento científico, sobretudo a partir do século XX, é certamente fruto da intensa cooperação científica que ocorre entre instituições e entre pesquisadores de vários países. O Brasil tem se beneficiado desta cooperação, sendo que o estabelecimento de muitas linhas e grupos de pesquisa nas mais importantes instituições do país decorreu tanto da vinda de pesquisadores do exterior como do treinamento de pesquisadores brasileiros no exterior.

Mais recentemente, países como Coreia do Sul e China se beneficiaram significativamente de programas de cooperação científica, o que permitiu avanços significativos na posição desses países no cenário científico e tecnológico internacional.

A cooperação científica brasileira se deu inicialmente com países europeus, como França, Inglaterra e Alemanha. Logo em seguida, houve um predomínio da cooperação com os Estados Unidos da América, em função da sua liderança científica crescente.

Essa cooperação vem ocorrendo, sobretudo, entre os grupos de pesquisa e é apoiada tanto pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) como pela Fundação de Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Mais recentemente, as Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (FAPs) também vêm promovendo a cooperação científica internacional.

 

Temos cerca de 40 países com

os quais o Brasil deve ter ações bilaterais

 

Tradicionalmente, a cooperação teve início entre pesquisadores com maior experiência. Em seguida, surgiram os programas de pós-doutorado, logo seguido pelo chamado “doutorado sanduíche”. Todos os dados disponíveis mostram claramente que a cooperação internacional proporciona a publicação de artigos científicos em revistas de maior impacto e que esses artigos são mais citados, alcançando assim maior repercussão.

O ápice da cooperação científica brasileira ocorreu com a criação do programa Ciência sem Fronteiras, que, em 2013, atingiu a marca de 101 mil bolsistas. Os cinco países que mais receberam bolsistas nesse programa foram Estados Unidos, Canadá, França, Reino Unido e Portugal.

Esse programa foi interrompido sem que se fizesse uma avaliação mais profunda dos seus resultados. Foi altamente positivo quanto a atração de pesquisadores do exterior para o país, bem como no envio de doutorandos e pós-doutores para o exterior. A maior crítica foi sobre a participação de milhares de estudantes de graduação, o que não foi devidamente avaliado.

Em um momento de grandes cortes no orçamento federal para a área de Ciência e Tecnologia (C&T), é muito importante haver critérios claros para permitir a priorização de com quem cooperar. Considero que o critério mais importante é a qualidade dos grupos de pesquisa envolvidos. Muitas vezes vamos encontrar grupos de excelência em países que não estão entre os melhores situados no ranking internacional.

No entanto, para o estabelecimento de acordos de cooperação internacional de caráter institucional devemos levar em consideração alguns critérios básicos para a escolha dos países com que vamos estabelecer programas mais robustos.

Podemos identificar pelo menos seis grupos de países. Primeiro, aqueles que efetivamente lideram a produção científica e tecnológica mundial. Em ordem decrescente de produção temos Estados Unidos, China, Reino Unido, Alemanha, Japão, França, Canadá, Itália, Austrália, Espanha, Índia, Holanda, Suíça, Coreia do Sul, Turquia, Taiwan, Irã e Suécia.

Um segundo critério importante é a capacidade dos países em inovação tecnológica. Por este critério agregamos à lista anterior Singapura, Finlândia, Dinamarca, Hong Kong, Noruega, Nova Zelândia, Irlanda, Israel e Áustria.

Um terceiro critério que deve ser considerado seria a afinidade histórica e geográfica, destacando assim Portugal, Espanha, Itália, Argentina, Uruguai, Paraguai e países africanos de língua portuguesa, especialmente Moçambique e Angola.

Um quarto critério inclui os países que integram os Brics, no caso a África do Sul, já que os demais estão listados nos critérios anteriores, bem como os países que integram o Mercosul.

Quinto, é importante continuar prestigiando os países com os quais já temos forte cooperação, acrescentando à lista Colômbia, México, Chile e Bélgica.

Sexto, julgo oportuno atentarmos para um conjunto de países com economia crescente e que alguns estudos apontam como líderes importantes no futuro, entre os quais destaco Indonésia, México, Arábia Saudita, Nigéria, Egito e Paquistão.

Levando em consideração os argumentos apresentados, temos cerca de 40 países com os quais o Brasil deve ter ações bilaterais com maior ou menor intensidade em função de prioridades temáticas. Por outro lado, é também importante fortalecer os laços de cooperação multilateral com Brics, União Europeia e Mercosul.

Wanderley de Souza

Professor titular da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina.

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