Cooperação Sul-Americana – XXX – Final

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A cooperação Sul-Americana deve ser vista como um instrumento de alavancagem coletivo de todos os países da região. Deve ser imaginada como um amplo programa de combate ao subdesenvolvimento crônico da região e como um elemento de potencializar os amplos recursos naturais que a região dispõe. É indubitável que esta cooperação é de fundamental importância para um bem sucedido programa de integração física, política, econômica, cultural e militar da região.
Esta cooperação é o elemento mais promissor para a reversão do quadro de progressivo rebaixamento que a região recebeu, nos últimos 40 anos, nas relações com os países centrais, em especial, com os EUA. Só para exemplificar, nesses últimos 40 anos, os países da América Latina perderam dois terços da participação relativa que detinham nas pautas do comércio exterior dos EUA. Esta perda se materializa em decorrência do aumento relativo e crescente da Alemanha e do Japão, nos trinta primeiros anos e mais recentemente, pela ofensiva dos chamados tigres asiáticos e pela China. A adoção preferencial feita pelos estadunidenses, primeiro pelos derrotados da II Grande Guerra, feita no início da década de 50, e depois pela franja asiática e pela China, em função da derrota no Vietnam e feita nos início da década de oitenta, magnificou os efeitos da escassez crônica de divisas da América do Sul, algo que só poderá ser revertido com uma nova política que diminua a dependência de divisas e, talvez, obrigue aos norte-americanos a dar atenção novamente a região.
A curto prazo, a Área de Livre Comércio da América do Sul (ALCSA) teria que utilizar profundamente sua capacidade negociadora para atrair aqueles países ou facções de industriais no setor desenvolvido, que estejam dispostos a cooperar com o desenvolvimento da região, seja pelas vantagens comerciais que represente participar neste mercado ampliado, seja pela necessidade que tenham de abastecer-se de matérias-primas, recursos energéticos ou qualquer outro produto que necessitem, ou inclusive para negociar o pagamento parcial do serviço da dívida. Em qualquer caso, as regras do jogo teriam que definir-se no sentido de que o ALCSA pode oferecer recursos naturais abundantes e um grande mercado em potencial, mas exige, em troca, tecnologia e bens de capital para integrar e consolidar sua estrutura industrial, prioritariamente naquelas áreas onde a vulnerabilidade da região é maior.
Paralelamente a esta estratégia de negociação, os países sul-americanos teriam que juntar recursos tecnológicos e capacidades produtivas para ultrapassar as principais restrições que poderiam lhes impor um hipotético bloqueio comercial. Estes esforços se concentrariam, inicialmente, em diversas matérias-primas para a indústria e insumos para a agricultura, em medicamentos e instrumental médico e na manutenção e em peças de reposição para operação das indústrias, talvez sua carência mais crítica. Com a ajuda de ninguém poder-se-ia também alcançar êxito, embora com maiores dificuldades e em muito maior tempo.
A América do Sul conta com suficientes exemplos históricos nacionais de sucessos tecnológicos em situações semelhantes, como o caso dos esforços do Brasil para manter e desenvolver a indústria petrolífera, em face ao bloqueio que se lhe impôs, como fruto de sua decisão soberana de monopolizar essa indústria, no início dos anos cinqüenta. Deve-se recordar também que os notáveis avanços na produção industrial que registraram alguns países sul-americanos durante a Segunda Guerra Mundial, foram conseguidos em condições equivalentes a um bloqueio comercial, pelo simples fato de que os países industrializados haviam concentrado, praticamente, todas as suas capacidades produtivas na manutenção de ações militares.
A análise demonstra que não há, no mundo de hoje, espaço maior para uma ação voltada para o desenvolvimento resultante da cooperação entre nações do que aquele decorrente de uma cooperação entre os países sul-americanos. Uma Confederação Sul Americana não deve ser vista mais como um sonho bolivariano, e sim como uma realidade em marcha.

Darc Costa
Coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra e Membro do Conselho Editorial do MONITOR MERCANTIL.

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