A crise dos Correios não se resolve com cortes, fechamento de agências ou venda de patrimônio público. Confundir enxugamento com modernização pode ser um erro estratégico que comprometerá a soberania logística do país, ignorando a verdadeira causa do problema: décadas de subinvestimento tecnológico e ausência de um modelo de negócios adequado ao século 21. Pode-se até considerar que esse modelo, felizmente, já está delineado: é o definido pelo Decreto 12.464, de 2025, que estabelece os serviços postais universais como obrigação de Estado e amplia o horizonte da empresa para a era digital.
Falo a partir de experiência profissional. Sou engenheiro especialista em telecomunicações e atuei por muitos anos com sistemas de radiocomunicações em HF/SSB transmitindo com sinais telegráficos, inclusive em regiões remotas da Amazônia Legal. Vivi realidades em que cidades inteiras dependiam de apenas duas instituições para se comunicar com o restante do país: a agência dos Correios, com seu telégrafo, e a rede operacional da empresa de energia elétrica, com sua rede de telegrafia.
Não havia telefonia, DDD ou qualquer outro meio regular de comunicação. Durante décadas, foram os Correios que garantiram a integração nacional, inclusive em processos eleitorais, quando tribunais eleitorais dependiam diretamente dessa infraestrutura. Essa é a gênese do conceito de serviço universal, hoje consagrado em norma regulamentadora.
Essa vivência despertou minha dedicação ao estudo do serviço postal. A partir de 1999, durante a análise do Projeto de Lei 1.491/1999, que propunha a reestruturação do setor, publiquei estudos que ainda hoje são referência, dada a escassez de pesquisas sobre o tema. Na transição do governo FHC para o governo Lula, participei de levantamentos técnicos sobre o papel estratégico dos Correios, especialmente em apoio às entidades representativas dos trabalhadores, que enfrentavam precarização do trabalho e tentativas de privatização do serviço postal.
Os Correios sempre foram mais do que uma empresa de entregas. Com presença em todos os municípios brasileiros, garantem acesso universal à comunicação, às encomendas, a serviços postais financeiros e a políticas públicas. Ainda hoje, oferecem serviços essenciais, como a carta social a R$ 0,01 para famílias do CadÚnico, além de serviços com entrega em D+1, como o Sedex padrão. Trata-se de um ativo estratégico de soberania nacional.
A experiência recente da privatização da Eletrobras demonstra que a venda de empresas públicas estratégicas não gera benefícios à população. Resulta em aumento de tarifas, perda de controle nacional sobre infraestrutura essencial e prejuízos econômicos e sociais. Não podemos repetir esse erro com os Correios.
A modernização dos Correios não pode se confundir com um mero ajuste contábil. Propostas que se limitam a reduzir custos operacionais via demissões, encerramento de unidades e alienação de imóveis cometem um erro estratégico duplo: primeiro, desidratam o principal ativo da empresa, que é sua capilaridade nacional e seu corpo técnico e de trabalhadores; segundo, ignoram a causa raiz da perda de competitividade, que é a defasagem tecnológica. São propostas que olham para o passado, enquanto o novo decreto abre as portas para o futuro.
Enquanto o mercado de logística avança com Inteligência Artificial, big data e automação, uma reestruturação baseada apenas em cortes é como tentar consertar um carro de Fórmula 1 trocando o motorista, mas mantendo o motor antigo. A consequência é um ciclo vicioso: cortes enfraquecem o serviço, a receita não se recupera, e a empresa depende de novas injeções de capital ou de mais dívida, alimentando a narrativa da “ineficiência eterna” da estatal. A solução, portanto, não está no desmonte, mas na reconstrução tecnológica alinhada ao novo marco legal.
Os Correios não podem continuar a ser vítimas de um ciclo de paralisia. A crise atual também é fruto da falta de investimento e da incerteza gerada pela ameaça de privatização. O comércio eletrônico global exige soluções logísticas rápidas e eficientes, algo que os Correios podem e devem fornecer. Para tanto, é necessário um processo de modernização que integre tecnologia de ponta e parcerias estratégicas, especialmente para concretizar os serviços postais eletrônicos e de logística integrada previstos no Decreto 12.464/2025.
Uma modernização real implica:
- Automatização da entrega de correspondências e encomendas: implementar sistemas de roteirização inteligente, alimentados por IA e machine learning, que analisam em tempo real trânsito, volume de encomendas e localização dos carteiros, reduzindo prazos de entrega em até 30%;
- Investimentos em serviços postais eletrônicos como centros de dados unificados para consolidar informações de rastreamento, frota e clientes, e em sensores de IoT (Internet das Coisas) para monitoramento em tempo real, não dependendo de satélites de forma isolada;
- Criação de uma plataforma integrada de telemedicina e distribuição de medicamentos, onde prescrições digitais são automaticamente direcionadas para a farmácia mais próxima, e a entrega é otimizada pela IA dos Correios, garantindo acesso vital em áreas remotas;
- Expansão dos serviços postais de logística integrada com o e-commerce: oferecer soluções logísticas para o e-commerce, com armazenamento e preparação de pedidos (fulfillment), além de entregas de última milha (last mile) mais eficientes, integrando a rede de agências dos Correios com sistemas tecnológicos de ponta;
- Modernização da frota e da infraestrutura: desenvolver frota própria de aeronaves, veículos elétricos e equipamentos logísticos, garantindo maior eficiência e menor impacto ambiental.
Além disso, o fortalecimento do Banco Postal e dos serviços postais financeiros com a implementação de contas digitais e microcrédito para populações de baixa renda e para os trabalhadores e comunidades da agricultura familiar deve ser uma prioridade, integrando os Correios ao sistema financeiro nacional de maneira eficiente e acessível.
Parcerias estratégicas são bem-vindas, desde que voltadas à transferência de tecnologia e conhecimento para as atividades concorrenciais, e não à privatização disfarçada ou ao simples endividamento. O objetivo deve ser fortalecer a capacidade operacional da empresa, preservando seu monopólio sobre o núcleo essencial, sua função social e seu controle público.
Assim como o presidente Lula teve a ousadia de reativar a Telebras em 2010 para fortalecer a conectividade nacional, é possível — e necessário — reconstruir os Correios como uma empresa pública moderna, eficiente e financeiramente sustentável. O Decreto 12.464/2025 pode ser a bússola. Falta o mapa de navegação: um plano de investimentos massivos em tecnologia.
O caminho não é a venda, mas a reinvenção. O caminho correto é fazer dos Correios uma política de Estado tecnológica, transformando sua histórica capilaridade em uma rede inteligente de serviços universais. Só assim se quebra o ciclo de prejuízos e se constrói uma empresa pública “sarada, de pé e produtiva”, porque eficiente, inovadora e em plena sintonia com a legislação que a governa.
Modernizar os Correios é reafirmar o papel do Estado na garantia de serviços postais universais, na integração territorial e na soberania logística do Brasil do século 21.
Israel Fernando de Carvalho Bayma é advogado, engenheiro eletrônico, especialista em regulação de telecomunicações

















