Cortina de fumaça

Nem só de estatísticas parciais e números viciados tem vivido, nas últimas semanas, a imprensa chapa branca. A operação abafa iniciada no Planalto para desviar atenção do escândalo Eduardo Jorge tem enveredado por terrenos acidentados, sempre com cobertura da mídia amiga. Só para citar três exemplos, a ameaça de confiscar estoques de álcool e as intervenções nos preços da gasolina e dos remédios.
O tabelamento da gasolina foi desmentido, ainda no mesmo dia, pelos sindicatos dos revendedores de combustíveis, que garantiam apenas fazer uma recomendação aos associados para não abusarem nos preços. Os remédios, quando muito, voltaram aos valores já reajustados de junho – em muitos casos, em particular nos medicamentos de uso contínuo, a retirada de descontos desmoralizou o congelamento de preços. Já o confisco dos estoques de álcool – bem, no dia que o governo fizer isso com usineiros, vai ver evaporar sua base política no Nordeste e o apoio financeiro ao tucanato paulista. Mais fácil nevar no sertão do Piauí.
Nem precisaria isso. A hipótese de intervenção em preços causa calafrios na equipe econômica, que vem repetindo à exaustão suas preces ao deus mercado. Não fosse essa oposição, seria o total desmonte dos órgãos de acompanhamento de preços ocorrido nos últimos dez anos.
Os anúncios feitos com estardalhaço no Planalto poderiam ser enquadrados como propaganda enganosa. Não por acaso que em Brasília o palácio é conhecido como Cabo Canaveral, ponto de lançamento de programas e planos que nunca vão sair do papel. Só que, agora, o grau de mistificação atingiu limites inéditos. Conta o governo com a falta de informação: quem não tem carro não vai saber que os preços da gasolina continuam caros como antes; quem não precisa frequentar farmácias não terá idéia de quanto os remédios ficaram mais caros.
Essa estratégia, mesmo apoiada por uma mídia amestrada, é um risco em dobro. Primeiro, porque não se consegue jogar fumaça sobre a realidade durante muito tempo, para tantas pessoas. Segundo, porque o que virá depois de descoberta a verdade será um descrédito ainda maior, não só do governo de plantão, mas da instituição como um todo. Jogar de olho nas eleições, no curto prazo, só faz aprofundar o buraco aonde se enfiou o governo.

Quem ganha
A decisão do governo de reduzir em 2,79% o preço da gasolina nas refinarias pode estar longe de resultar em preços menores para os consumidores. Na verdade, a medida deve representar muito mais uma redução na margem de lucro da refinaria (Petrobras), em favor da ampliação do lucro auferido pelos postos de combustíveis e, principalmente, pelas distribuidoras.
Atualmente, a refinaria retém cerca de 30% do preço final cobrado na bomba, cerca da metade do pedaço abocanhado pelas distribuidoras, segmento no qual se faz mais forte a presença das grandes multinacionais do setor. Nos Estados Unidos, a relação é exatamente inversa: maior benefício para quem extrai e refina o petróleo e parcela menor para quem se limita a distribuir o combustível.

Biparditarismo
Amanhã, às 17h30m, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), a ABI e o Movimento de Defesa Econômica (Modecon) realizam cerimônia de homenagem póstuma ao jornalista Barbosa Lima Sobrinho, falecido há um mês. No convite para o evento, os organizadores reproduzem frase antológica de Barbosa: No Brasil só há dois partidos: o de Tiradentes e o de Silvério dos Reis. O que não transige com o interesse do Brasil e o que atrela o destino do Brasil ao destino de uma nação estrangeira.

Sem música
Para tristeza dos velhinhos, a diretora do Sesc/Copacabana, Eliane Cristina Santos, extinguiu o Coral da Terceira  Idade daquela seção. A alegação foi a mesma de Malan & Cia: contenção de despesas. As aulas estavam a cargo de é um funcionário do próprio Sesc. Os velhinhos estão inconformados com o fechamento do coral, que vencera todos os concurso de que participou.

Colheita
O crescimento do número de homicídios no Brasil – de quase 50% entre 1989 e 1998, saltando de 28.757 para 41.836 – é mais um resultado para ser debitado na conta da desestruturação provocada pelos governos neoliberais no país. Na década de Collor e FH, com um breve intervalo da primeira fase do Governo Itamar, a população brasileira cresceu 13,7%. Já o desemprego dobrou: saltou de pouco mais de 4% para 8%. Segundo pesquisa divulgada ontem, o Sudeste é a região que teve as maiores taxas de aumento no número de homicídios, chegando a 58,2%, seguido pelo Centro-Oeste, com 48%. Não por acaso, o maior aumento do desemprego ocorreu em São Paulo.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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