Crédito: importância e dilemas no contexto atual

Por Marlon Cecilio de Souza e Miguel Ceccato Machado.

Em um sentido amplo, pode-se dizer que o crédito é, para muitos economistas, o principal meio de oxigenação da economia. É a partir da tomada de crédito que famílias conseguem impulsionar seu consumo, que empresas arrecadam meios para financiar suas atividades, e que as próprias instituições financeiras suprem suas necessidades de liquidez no curto prazo. Essa dinâmica de recursos, a qual ocorre diariamente, é fundamental para a geração de empregos, aumento de renda e crescimento econômico.

De maneira mais específica, o crédito também desempenha um importante papel na disseminação da Política Monetária estabelecida pelo Banco Central (Bacen). Em termos técnicos, diz-se que o crédito é um “mecanismo de transmissão da política monetária”. Isso porque a política estabelecida pelo Bacen possui diversos canais para afetar o nível de preços na economia, onde, dentre eles, está o “canal de crédito”. Mas como isso se dá na prática?

Se pensarmos na taxa básica de juros da economia (Selic) – principal e mais conhecido instrumento de política monetária à disposição do Banco Central – pode-se dizer, de forma lógica, que ao reduzir a Taxa Selic, a ação do Bacen estimule uma redução nas taxas de juros cobradas pelos bancos, aumentando o volume de empréstimos para famílias e empresas, estimulando o consumo e o investimento.

De maneira análoga, quando se aumenta a Taxa Selic, espera-se o efeito contrário: aumento dos juros praticados no mercado, tomada de empréstimos enfraquecida, diminuição do consumo e do investimento, o que pode levar para o baixo volume de dinheiro em circulação e, consequentemente, arrefecer a inflação.

Nesse prisma, essa “dança das taxas de juros” afeta diretamente a oferta de crédito e a Demanda Agregada da economia, fator que influencia de modo direto o produto. Afinal, o maior volume de crédito disponível tende a impulsionar o crescimento do país por duas variáveis que compõem o Produto Interno Bruto (PIB): o consumo e os investimentos. Estes, junto com os gastos do governo e o saldo comercial, representam o lado da demanda do PIB.

Ante essa breve contextualização, ao pensarmos no cenário atual da pandemia, é evidente que o crédito tem um papel primordial. Em meio a aproximação da recessão, o alarmante nível de desemprego da atualidade e a queda expressiva do nível de consumo, a expansão do crédito é fundamental para salvaguardar as famílias e a atividade empresarial. Foi nesse sentido que o Banco Central, em um primeiro momento, diminuiu a Selic de forma histórica, fazendo a taxa atingir seu patamar mínimo de 2% ao ano (a.a.).

A redução da taxa básica a tal nível, somada às políticas públicas de incentivo ao crédito e manutenção da renda, permitiu que o Brasil atenuasse, no curto prazo, os impactos negativos da crise do novo coronavírus, embora os efeitos ainda tenham sido catastróficos.

Analisando o quadro geral da distribuição de crédito neste período, observa-se que durante o primeiro momento da pandemia, a variação da carteira de crédito de pessoa jurídica (PJ), principalmente a carteira direcionada, foi o grande motor do mercado de crédito. Isso por conta dos programas de incentivos públicos que tinham como objetivo uma menor queda nos níveis de emprego e, também, por conta do menor risco envolvido devido à possibilidade de se obter, com mais facilidade, contrapartidas como garantia.

Hoje, por outro lado, de acordo com os dados de fechamento do segundo trimestre deste ano, pela primeira vez desde o início da crise, o crescimento da carteira de pessoa física (PF) foi maior do que o crescimento da carteira das Pjs.

A maioria das modalidades – principalmente nas operações de cartão de crédito à vista, crédito pessoal consignado público e crédito pessoal não consignado – foi ampliada pela primeira vez. Porém, com relação ao último mercado, houve uma queda nos estímulos públicos e também em algumas modalidades de crédito específicas para PJ, o que destaca a importância das modalidades de crédito para PF durante o período de retomada.

Ainda que a economia brasileira estivesse longe da estabilidade e que a expansão do consumo e investimento sejam primordiais para atenuar os efeitos socioeconômicos da pandemia, a inflação, nossa velha conhecida, fez com que o Banco Central tivesse que mudar sua postura anteriormente assumida. Se antes a política monetária era calcada na diminuição dos juros e incentivo ao consumo, agora, para conter a inflação, o Comitê de Política Monetária está aumentando gradualmente a Selic, o que, naturalmente, gera consequências.

No fim do dia, trata-se de um velho e complexo dilema macroeconômico. O que se espera, na prática, é que embora o Bacen reaja para conter a inflação, uma eventual baixa nos preços não será percebida tão logo. Antes disso, chega o custo do crédito mais caro, que poderá ser um entrave na recuperação econômica, já que a escassez de postos de trabalho ainda é notória, e a renda das famílias é corroída pela inflação. Para piorar, de acordo com os últimos dados do Banco Central, 58,5% das famílias estão endividadas.

Nesse novo cenário, a expectativa é que o consumo dos brasileiros diminua de forma ainda mais significativa em 2022. Ademais, em detrimento da queda da demanda e aumento do custo do capital, também se espera uma piora das condições de financiamento do setor produtivo que, por sua vez, passa a encontrar taxas mais caras para a manutenção ou expansão de seus negócios.

É importante frisar que os custos do crédito variam, e a sensibilidade à Selic muda de acordo com o público e a modalidade, pois a composição de juros se altera conforme o risco envolvido. Um exemplo disso é que, apesar da expansão, as taxas de juros voltadas para as famílias chamam a atenção. Enquanto no crédito livre para pessoas jurídicas, a taxa média de juros é de 15,4% ao ano, para as famílias, a taxa média situou-se em 39,8%, segundo dados divulgados no mês de julho pelo Banco Central.

Por essas razões é imprescindível que, ainda que independente, o Estado, principalmente através de sua equipe econômica, esteja sincronizado com a política monetária adotada pelo Banco Central, pois o crédito, conquanto de suma importância, é apenas um dos fatores que pode sustentar um ciclo de expansão da atividade econômica.

Esse sincronismo deve acontecer principalmente em momentos de instabilidade financeira, para que o governo possa prover condições conjuntas necessárias, tais como: melhora do mercado de trabalho, recuperação da confiança, retomada do investimento etc, que visam intermediar as demandas emergenciais as quais a população necessita com a saúde fiscal do próprio país.

O pai da Macroeconomia, John Maynard Keynes, costumava defender a importância do conhecimento interdisciplinar para uma atuação mais sólida por parte dos economistas, sobretudo os envolvidos diretamente com o setor público. E uma de suas citações de destaques sobre o assunto é que “um economista-mestre deve possuir uma rara combinação de talentos. Ele deve ser matemático, historiador, estadista, filósofo – em certo grau. Deve compreender símbolos e expressar-se com palavras. (…) Deve ser objetivo e desinteressado de uma forma simultânea; tão distanciado e incorruptível quanto um artista e às vezes tão perto da terra quanto um político”.

Portanto, para propor soluções concretas, é importante que a equipe econômica do governo esteja politicamente disposta a ter um real contato com a realidade da população e com a conjuntura institucional.

 

Marlon Cecilio de Souza é economista pela Uerj e pós-graduando em Política e Sociedade pelo Iesp-Uerj. Trabalha como analista de crédito no Bank of New Yok Mellon.

Miguel Ceccato Machado é economista pela Uerj e graduando em Direito pela Fundação Getulio Vargas.

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