Crédito privado, estrutura de capital e capitalismo em transição

O que o caso Ambipar ajuda a entender sobre o futuro das finanças corporativas Por Roberto Carline

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Cartão de crédito na carteira (foto LaTunya Howard - CC - Reprodução - ABr)
Cartão de crédito na carteira (foto LaTunya Howard - CC - Reprodução - ABr)

Nas últimas décadas, o ambiente econômico global foi palco de transformações profundas, e de colapsos emblemáticos. Empresas como Eastman Kodak, Xerox, Olivetti, Hanwha, Daewoo, Lehman Brothers, Enron, Worldcom, OGX, Lojas Americanas e banco regional norte-americano SVB perderam relevância ou desapareceram, vítimas de falhas de adaptação, governança menos robusta do que se supunha e estratégias míopes. As consequências foram bilionárias: US$ 840 bilhões em perdas com Enron, WorldCom e Lehman; R$ 8,3 bilhões evaporados em um único dia após o rombo das Lojas Americanas; mais de 160 mil empregos encerrados. O SVB, ao suspender linhas de crédito a startups, demandou intervenção regulatória para evitar contágio sistêmico. O World Uncertainty Index–Global, indicador que mede a volatilidade econômica, subiu 152% ao longo de 35 anos, refletindo o aumento da incerteza global em função de eventos como crises financeiras, pandemias, conflitos geopolíticos e transformações tecnológicas.

É nesse contexto que se insere o “caso Ambipar”. A empresa brasileira de gestão ambiental, antes celebrada como expoente ESG, pediu recuperação judicial em outubro de 2025. Sua crise expôs não apenas fragilidades particulares, mas também dilemas estruturais do mercado de crédito privado. Esse parece ser mais um caso no qual a Teoria de Trade-Off na Estrutura de Capital – que suporta que empresas são beneficiadas ao buscar o ponto ótimo entre os benefícios fiscais do endividamento (tax shield) frente aos riscos de falência e conflito de agência – foi deixada em segundo plano uma vez que a emissão de dívida, longe de disciplinar, tornou-se combustível para uma expansão que se mostrou pouco sustentável.

Segundo análise de Estevão Seccatto, “ESG sem governança é incêndio financeiro”. A frase sintetiza o paradoxo: propósito legítimo, mas estrutura financeira vulnerável. A empresa cresceu por aquisições alavancadas, financiadas também por títulos de crédito privado que, entre outras alocações, foram usados como “lastro” por instrumentos como COEs distribuídos a investidores de varejo, por vezes sem todas as cautelas necessárias tampouco o conhecimento adequado. O resultado foi nova quebra de confiança que atingiu não apenas investidores, mas parte do ecossistema de crédito privado.

Nos Estados Unidos, o mercado também enfrenta dilemas. Wall Street está dividida entre os que alertam para riscos sistêmicos e os que apostam na resiliência de tais ativos. O crescimento dos fundos de crédito privado, que já movimentam trilhões globalmente, é impulsionado por busca de retorno em ambientes de baixa liquidez. Mas a sofisticação dos produtos nem sempre é acompanhada por compreensão dos riscos — especialmente entre investidores não institucionais.

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No Brasil, na edição 271 da Revista RI (2023) eu já alertava para os riscos de alavancagem à sustentabilidade corporativa de longo prazo. O aumento de pedidos de recuperação judicial expõe fragilidades de modelos que priorizam o retorno ao acionista (shareholder capitalism) em detrimento do valor compartilhado com stakeholders. Steve Denning e Klaus Schwab apontam caminhos nas teorias de Edward Freeman e na economia do mutualismo, que propõem uma visão mais integrada e resiliente do capitalismo.

Exemplos internacionais ajudam a contextualizar. A Blackstone tem investido em educação financeira para seus clientes institucionais e varejistas. O BNP Paribas lançou modelos de crédito que incorporam métricas ESG e impacto social. No Brasil, iniciativas como o Capitalismo Consciente Brasil e o Instituto Ethos promovem debates sobre o papel das empresas na geração de valor para todos os públicos, não apenas acionistas.

Os casos de ruptura que vivemos ao longo do tempo não invalidam o uso do crédito privado, seja como forma de financiamento como de investimento, mas reforçam a necessidade de amadurecimento do mercado e de maior diligência por parte de emissores, distribuidores e reguladores. A provocação que se impõe: estamos financiando o futuro ou apenas empacotando riscos com veludo e seda? Investidores e líderes corporativos devem repensar o papel do crédito privado como instrumento de transformação, e não apenas de rentabilidade.


Roberto Carline, mestre em economia internacional e estrategista de mercado de capitais

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