Crise de identidade

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          Entender a economia implica, sobretudo, esclarecer o conjunto das representações mentais que dela fazem as sociedades e despi-la do caráter ideológico com que é revertida para atender a interesses específicos de grupos e classes.
Portanto, dissecar e explicar a economia política de nosso tempo passa por entender, detalhadamente, o coração do sistema financeiro e seus processos, atores e coadjuvantes buscando sempre destrinchar as razões não econômicas embutidos nas decisões centrais do capitalismo focado na financeirização da riqueza líquida.
Afinal de contas, o mercado é uma construção histórica, uma instituição social, com raízes e falhas como qualquer instituição semelhante.
A recente preocupação dos “analistas de mercado”, quanto à queda paulatina da taxa nominal de juros para níveis mais civilizados no Brasil nos remete a uma situação inusitada.
Neste debate é fundamental compreender que a dívida pública interna, e seus desdobramentos sobre a política monetária, está no núcleo do processo de formação dos lucros expressivos do sistema financeiro nacional, pouco afeito a financiar projetos de longo prazo das carteiras das empresas brasileiras.
Na atualidade o montante da dívida beira dois trilhões de reais e equivale a 40% do PIB, mas já foi de apenas 20% em 1994.
A política fiscal, através do orçamento autorizado pelo Legislativo, escolhe os setores favorecidos pelas políticas públicas, mas garante através do superávit fiscal cerca de R$ 100 bilhões anuais que saem dos nossos impostos para remunerar os credores da dívida.
Estes não são cidadãos quaisquer, mas as famílias com renda média e alta da sociedade brasileira. Cada centavo distribuído desnecessariamente para os encargos da dívida são recursos que faltarão para melhor remunerar os profissionais de saúde, educação, ou para as melhorias de nossas estradas em estado lastimável de conservação.
Exatamente aí ocorre uma luta política mais ampla por direitos. No mundo contemporâneo é através do fundo público que os trabalhadores podem angariar uma renda indireta, sob a forma de educação básica de qualidade, saúde universalizada, ou proteção social e previdenciária, contra os riscos do desemprego, da doença e da velhice.
A ideologia neoliberal, ainda predominante, apesar de desmoralizada pela crise mundial, prega o Estado mínimo para as rendas complementares do trabalho, mas ao mesmo tempo cobra uma atenção redobrada do poder público no subsídio ao capital, ou até no salvamento do setor financeiro internacional, como ocorre neste momento nos EUA e na Europa.
No mundo globalizado, o montante de riqueza financeira em poder das famílias, fundos de previdência e empresas com sobras de liquidez é elevado. Portanto, os interesses dos “investidores” põem em segundo plano os interesses produtivos, sociais e ambientais.
Ao justificar perante a sociedade uma taxa de juros absurdamente alta como a que cobra no cartão de crédito, o setor financeiro abocanha uma parcela cada vez maior da riqueza social da comunidade brasileira. Por outro lado, o risco de alta na inflação hoje, quando o mundo vive quase uma depressão econômica, é pura fantasia.
A crise se resolve com mais demanda efetiva. O que significa mais investimentos produtivos, mais empregos, melhores salários e mais gasto público com infra estrutura econômica, social e ambiental.

Ranulfo Vidigal
Economista, mestre e doutorando do Programa de Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pelo Instituto de Economia da UFRJ.
     
     

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