Culpados

Demorou um pouco – até por a catástrofe ter atingido também mansões – mas uma elite carcomida, representada por uma mídia ainda mais carcomida, já tem seu culpado pela tragédia na Região Serrana do Rio: as vítimas. Disfarçado por palavras como “construções irregulares”, “morar em área de risco” e que tais, o objetivo é culpar aqueles que mais sofrem, não só em momentos de crise, mas a todo instante, com falta de saneamento, transporte, áreas para morar livres da especulação imobiliária. É a velha tese da elite: existe pobreza porque há muitos pobres.

Culpado mor
Demorou também um pouco, mas já pululam vozes atribuindo a tragédia na Região Serrana ao “caos climático produzido pelo homem” (o substituto do “aquecimento global”, difícil de sustentar em momentos de nevascas históricas no Norte). Se for assim, então uma pessoa com pouca sensibilidade, mas atenta aos números, diria que hoje a situação do clima do planeta é melhor que há 40 anos: as tragédias de Caraguatatuba e da Serra das Araras foram ainda piores do que as da Região Serrana fluminense.

Ervas daninhas
Além dos que tentam se apropriar das tragédias provocadas pelas chuvas, obscurecendo o caráter recorrente do fenômeno, outro tipo de oportunista pulula nessa época: as empresas que buscam transformar atos de solidariedade em ações de marketing. Todos aqueles verdadeiramente comovidos com a atuação sincera e desprendida da população em prol de outros brasileiros tiveram engulhos ao verem anúncios de um quarto de página de empresas que tentavam faturar com seus declarados apoios às vítimas e as suas famílias.

A pior
Relembra o jornal Diário do Vale que a maior tragédia natural do Brasil ocorreu na Serra das Araras, em janeiro de 1967, quando 1.400 pessoas morreram vítimas de soterramento pelo temporal que atingiu a região de Ponte Coberta, pouco antes da subida da serra. A Via Dutra ficou interditada por mais de três meses, nos dois sentidos.

Doações
O Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis do Rio (Sescon-RJ) também está arrecadando donativos para as vítimas das chuvas da Região Serrana do Rio, na Av Passos, 120 – 7º andar – Centro/RJ, somente até esta quarta-feira.

Coelho censurado
Enquanto permaneça obscuro o episódio sobre a suposta proibição à publicação dos livros de Paulo Coelho no Irã, não restam duvidas de que Coelho continua sendo vítima de censura pela mídia tupiniquim. De espaços, de ordinário, tão generosos na imprensa local quanto as vendas de seus livros, o escritor continua a ter ignorado seu protesto, até agora, solitário, contra a decisão do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), de contratar o ex-primeiro ministro da Inglaterra Tony Blair para garoto-propaganda das Olimpíadas 2016. Para Coelho, um evento associado à paz mundial não pode ter como propagandista alguém com “sangue nas mãos”, por sua defesa da invasão do Iraque.

Seletivos
Para dimensionar a violência que representa o silêncio da imprensa local imposto ao protesto de Coelho, lembre-se que, segundo documentos secretos do próprio governo estadunidense e divulgados pelo WikiLeaks, desde a invasão do Iraque, em 2003, cerca de 100 mil iraquianos, dos quais cerca de 70 mil civis, foram mortos.  Segundo o fundador do  WikiLeaks, Julian Assange, haveria ainda 15 mil mortos cujo destino permanece desconhecido. Apenas estes números, equivalentes a cinco vezes o das vítimas do atentado de 11 de Setembro, não são atribuíveis ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, nem a seus mais fidagais inimigos.

Tapetão
Impedido no tapetão judicial pela segunda vez de tomar posse em mandato conquistado nas urnas, em decisões que favoreceram o grupo do senador José Sarney (PMDB-AP), o senador João Capiberibe (PSB), eleito pelo Amapá, conta com o apoio de um abaixo-assinado, que começou a circular no estado, para conseguir mudar a decisão em julgamento que ocorrerá no Supremo Tribunal Federal (STF). Capiberibe, assim como a mulher, a deputada federal eleita Janete Capiberibe (PSB-AP), foram cassados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela segunda vez pela mesma acusação, de supostamente terem comprado votos de dois eleitores, por R$ 26 cada, em 2002. É mais uma prova emblemática dos riscos do moralismo seletivo, implícito na lei do Ficha Limpa.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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