‘Cultura e Sociedade’

Por Paulo Alonso.

Um ponto que restringe o conceito de sociedade é o objetivo comum

 

Em muito boa hora, e no instante em que a cultura no Brasil tem sido reduzida a pó nos últimos anos, sem qualquer incentivo, e sendo a todo o instante desprezada, massacrada e aviltada, a professora Maria de Fátima Silva Porto lança o livro Cultura e Sociedade, editado pela Unipam. Na sua apresentação, a autora enfatiza que todo profissional, de qualquer área, deve ter conhecimento sobre o que representa a cultura em uma sociedade.

Essa obra visa justamente proporcionar o leitor a oportunidade de adquirir conhecimento integralista, por meio da abordagem de diversos temas atuais, os quais fazem parte do cotidiano. Assim, a escritora espera que, ao final da leitura, o leitor tenha uma visão mais crítica e reflexiva sobre sua própria realidade, seu contexto, seu entorno, enfim, sobre problemas que a sociedade brasileira apresenta e enfrenta diariamente.

Dividida em 19 capítulos, a obra foca o homem, a cultura, os aspectos biológicos e culturais; o multiculturalismo e relações étnico-raciais; a História do Brasil e as culturas afro-brasileira e indígena; a ética e a moral; ideologia, democracia, cidadania e Direitos Humanos, passando pelos meios de comunicação de massa, o trabalho, o mercado e a responsabilidade social.

Conceitos sobre globalização e neoliberalismo; grupos etários e conflitos de gerações; ecologia e biodiversidade e relações sociais de gênero e violência rural e urbana também são temas que merecem destaque no livro de Fátima Porto. Na realidade, a autora fez uma pesquisa das mais espetaculares sobre todos esses temas e, em linguagem de fácil entendimento, ela apresenta cada um deles e, ao mesmo tempo, vai deixando possibilidades para reflexões do leitor.

Doutora em História e Culturas Políticas; mestre em História Social da Cultura; especialista em Sociologia, História Moderna e Contemporânea e História do Brasil, além de licenciada em História, Fátima Porto é, atualmente, professora e presidente do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário de Pato de Minas. Para ela, estudar e conhecer a cultura da sociedade brasileira é extremamente importante, pois o homem é produto e produtor da cultura na qual foi e continua sendo socializado.

A palavra cultura tem várias acepções, sendo a mais corrente, especialmente na antropologia, a definição genérica formulada por Edward Tylor, segundo a qual cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei e os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”. Definições de “cultura” foram realizadas, dentre outros, por Ralph Linton, Leslie White, Geertz, Frans Boas, Malinowski.

Por ter sido fortemente associada ao conceito de civilização no século 18, a cultura, muitas vezes, se confunde com noções de desenvolvimento, educação, bons costumes, etiqueta e comportamentos de elite. Essa confusão entre cultura e civilização foi comum, sobretudo, na França e na Inglaterra dos séculos 18 e 19, onde cultura se referia a um ideal de elite. Ela possibilitou o surgimento da dicotomia (e, eventualmente, hierarquização) entre “cultura erudita” e “cultura popular”, mais bem representada nos textos de Matthew Arnold, ainda fortemente presente no imaginário das sociedades ocidentais.

Fátima Porto enfatiza que, segundo Laraia, a palavra cultura está associada ao momento em que foi elaborada a primeira norma ou regra entre os homens. Essa seria a criação de um padrão de comportamento generalizado, isto é, comum para todas as sociedades humanas. E essa primeira norma foi, de acordo com a autora, a proibição do incesto.

Do ponto de vista das ciências sociais, isto é, da sociologia e da antropologia, sobretudo conforme a formulação de Tylor, a cultura é um conjunto de ideias, comportamentos, símbolos e práticas sociais artificiais aprendidos de geração em geração por meio da vida em sociedade. Essa definição geral pode sofrer mudanças de acordo com a perspectiva teórica do sociólogo ou antropólogo em questão.

De forma didática, Fátima Porto escreve que há comportamentos que resultam da mistura de múltiplos grupos e que se pode observar essa realidade em festas, regras de etiqueta e crenças. Naturalmente, a língua portuguesa, que é um importante elemento da unidade nacional, também está entre os pontos de destaque da cultura brasileira. Em consequência das dimensões geográficas, os diferentes grupos que se estabeleceram no Brasil influenciaram a língua de maneira particular. Assim, há entonações e expressões que apontam as mais variadas regiões. Embora seja a mesma, a língua é pronunciada de maneira diferente no Sul, no Sudeste, no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste.

O Brasil é um país rico em diversidade cultural, devido a sua extensão territorial e a pluralidade de colonizações e influências sofridas ao longo do processo de construção da sociedade brasileira. Nas regiões Norte e Nordeste, a predominância é das tradições indígenas e africanas, sincretizadas com os costumes dos povos europeus, que colonizaram o país. Na região Centro-Oeste, onde predomina o Pantanal, existe ainda uma grande presença da diversidade cultural indígena, com forte influência da culinária mineira e paulista. Já no Sudeste e Sul destacam-se costumes de origem europeia, com colônias portuguesas, germânicas, italianas e espanholas que, ainda hoje, mantêm a cultura típica de seus países de origem.

Já a sociedade é uma agremiação de pessoas que se juntam com vistas a preservar a sobrevivência da coletividade. Não é possível falar que uma sociedade é completamente homogênea e que todas as sociedades são homogêneas entre si, mas há uma norma geral nelas que as coloca em graus parecidos de funcionamento. Há também, e a obra aponta, uma diferença sociológica entre a comunidade e a sociedade, sendo que esta é mais complexa e comporta-se de maneira diferente daquela.

Pode-se dizer que um ponto que restringe o conceito de sociedade é o objetivo comum. Uma sociedade é uma espécie de pacto social que coloca os seres humanos em um tipo de contrato para que alguns benefícios sejam adquiridos. Para que o pacto funcione, é extremamente necessário que deveres sejam cumpridos pelos cidadãos que convivem na sociedade em questão.

Uma sociedade, de acordo com os conceitos da obra de Fátima Porto, comunga de uma cultura em comum e de hábitos e costumes comuns. É importante essa unidade dentro da sociedade para que haja maior coesão solidária entre as pessoas e estas cumpram efetivamente os seus papéis, conferindo à sociedade o papel de organizadora e protetora da vida humana. As sociedades são compostas por grupos de pessoas com maior organização, geralmente esses grupos encerram em si as comunidades; e há nelas uma organização social feita por instituições, como o governo, a família, a escola e, quando há a quebra da ordem social, a polícia.

Um dos fatores distintivos dos seres humanos em relação aos demais animais, além do raciocínio e da linguagem, é a criação de cultura. O ser humano é capaz de criar cultura e faz isso desde os primórdios de seu desenvolvimento, com vistas a manter uma unidade de coesão nas sociedades. Aliás, outro fator distintivo dele é a formação de sociedades. Os animais irracionais agrupam-se em comunidades, isso é fato, porém, esses agrupamentos são menos complexos, pois o que rege a vida animal é, apenas, o instinto. Para além do instinto, os seres humanos desenvolveram o raciocínio e, com isso, adquiriram a habilidade de criar cultura e mecanismos complexos de sobrevivência.

Ainda, em grupos pela força e pela capacidade de juntar esforços para sobreviver, os seres humanos tiveram que criar mecanismos de coesão social e organização, para que não houvesse possibilidade de destruição do grupo. Nesse sentido, as sociedades surgiram para que a cultura e as normas sociais estabelecidas por pactos impedissem o caos que pode surgir do convívio natural entre indivíduos diferentes, que, muitas vezes, têm vontades diferentes.

A obra de Fátima Porto, pela importância e profundidade de cada um dos capítulos apresentados, é para ser lida e relida, com atenção máxima, pois o leitor, ao mergulhar nos conceitos trazidos por ela, amparados, por vezes, em citações grandes autores, terá um leque informações para numerosas reflexões, todas elas ancoradas na atualidade dos temas exibidos, presentes em jornais, telejornais, rádios e redes sociais. Um livro que, sem dúvida, deve ser adotado pelos professores nas escolas e nas universidades.

 

Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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