Da rosa de outrora só restará o nome

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Desde a criação do mercado futuro para a comercialização de arroz pelos chineses, a necessidade de se operar e movimentar recursos que não necessariamente existiam, já era evidente. O mercado de ações, diferente do que todos pensam, veio depois do mercado futuro, e acabou se tornando o mais importante meio de transferência monetária do mundo.
A tangibilidade dos ativos negociados nas bolsas de valores deu o lastro real que o mercado futuro não tinha. A divisão de uma empresa em várias pequenas partes foi à idéia brilhante, que permitiu que o capital acumulado pelos comerciantes e trabalhadores pudesse ser transferido às empresas, gerando prosperidade e conseqüentemente, mais empregos. O marketing deste mercado era a própria novidade e sua evolução, conseqüência do desenvolvimento econômico da nação. Max Weber, em meados dos anos 20, defendia que a evolução do mercado de capitais estava ligada à religiosidade das nações. Coincidência ou não, os países cuja religião protestante era maioria, desenvolveram-se mais cedo. No Brasil, o histórico do mercado acionário mostra-se tão turvo quanto o ambiente político que predominou nestes últimos 30 anos. As ações eram usadas pelo governo e pelos players de mercado, como forma de se capitalizar em cima de boatos plantados e conchavos políticos. Só a partir dos anos 90, é que a preocupação com as operações e com os investidores veio à tona. Fatores como a estabilização da economia brasileira, o crescimento acelerado da produção americana e o advento da internet nas transações, consolidaram a importância da entrada de novos investidores no mercado de renda variável, visto que a falada globalização, retirando as barreiras do mercado, retirou também o teto dos lucros, inflando o preço das ações e aumentando o nível de investimentos a patamares nunca alcançados.
Enquanto no Brasil, nenhum novo conceito ou mecanismo foi inventado para transformar acionistas em investidores, nos EUA, o produto ação foi amplamente explorado. Comparado com 1997, enquanto o volume da Bovespa em 2000 foi 47% menor, nos Estados Unidos, a Nasdaq, teve um aumento de 348% e a NYSE, de 91%. Se os rumores de desaquecimento da economia americana estiverem corretos, a diminuição de receitas será o resultado natural dos balanços nestes próximos anos. Já prevendo uma mudança de mentalidade dos grandes acionistas, JP Morgan Chase, Morgan Stanley, Goldman Sachs e Charles Schwab já estão desenvolvendo seus centros operacionais por aqui, criando novos produtos e contratando mais pessoas. Enquanto a Bovespa se preocupa em fazer uma cesta de papéis para investimentos do BNDES-PAR – que ninguém conhece, as corretoras e os bancos norte-americanos estão se preparando para invadir a América Latina. Não é preciso ser muito esperto para saber o que acontecerá com a Bovespa caso ela não se mostre eficiente no cumprimento de suas funções afinal, estes grandes bancos não estão vindo para cá para dividir o minúsculo bolo já insuficiente para os aborígines que aqui vivem. Enquanto por lá, são 20% dos americanos aplicando em bolsa, por aqui este número não passa de 0,05%, segundo dados da Forbes Brasil. O Banco Central está fazendo a parte dele, mudando o sistema de pagamentos, dando mais liquidez ao mercado de renda fixa e conseqüentemente, dando condições ao sistema de suportar o maior fluxo de capitais que virá para o Brasil.
Só em termos de novos investidores existe muito a ser feito. Quando a corretora Hedging-Griffo lançou o home broker, um grande passo foi dado. A consolidação veio com a atitude inteligente da Bovespa de colocar o sistema em todas as outras corretoras. Mas isto não foi o bastante. Quando se fala de novos investimentos, uma longa fila de serviços de suporte vem atrás. Os americanos chamam isto de pre e pos trade, e perfazem uma indústria de alguns bilhões de dólares. Quanto maior o mercado fica, mais informações confiáveis são necessárias pois um erro, pode significar uma perda de milhões de dólares. No Brasil, não se tem idéia do que significa um mercado como este, onde empresas como a First Call e CCBN valem alguns bilhões de dólares somente por fornecerem ao mercado informações de domínio público porém, bem organizadas. É fato que quando a economia se estabiliza, os juros caem e os spreads das operações vão na mesma direção.
A única maneira dos lucros não despencarem, é se o crescimento do mercado for inversamente proporcional a esta queda pois naturalmente, haveria uma compensação das taxas pelo aumento do volume operado. Outra forma é mudando o perfil das receitas de variável para taxas fixas. E neste ponto existe uma oportunidade que há muito tempo não aparecia. O mundo já sabe disto. A Bovespa e a CBLC parece que ainda não.
O mercado de ações brasileiro que era para poucos, será obrigatoriamente para muitos num curto espaço de tempo. As empresas que não estão acostumadas com os níveis de competitividade da economia americana terão que se contentar com faturamentos decrescentes e lucros cessantes. Para os eleitos, que durante anos se aproveitaram da situação precária da economia brasileira para ganhar dinheiro em cima da volatilidade plantada, a entrada destes grandes players é uma ameaça real. Para novos investidores, uma excelente oportunidade de entrar no mercado pois daqui a pouco tempo, muito pouco do que existe hoje terá sobrevivido intacto. A internet vai mudar a forma de lidar com os investimentos pelo simples fato de que ela pode fazer isto a custos muito mais baixos e uma enorme penetração simultânea. Por mais óbvio que isto possa parecer, ninguém está fazendo nada a respeito. Mas não por muito tempo.

Fernando Camargo Luiz
Diretor da Orbe Projetos e responsável pelo site CarteiraFacil

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