Das duas, uma

Em novembro passado, durante seminário para jornalistas sobre a metodologia das contas nacionais, o chefe do Departamento de Contas Nacionais do IBGE, Eduardo Nunes, foi enfático em dois pontos-chave. Nunes salientou que o IBGE não faz previsões, se limita a divulgar números oficiais, e fez questão de diferenciar a posição do instituto da adotada pelo Banco Central (BC), que usara o IGP-DI – que capta a inflação dos preços industriais – como deflator, o que inflara o PIB.
Tais atitudes, tornadas públicas de forma serena, mas firme o suficiente para abortar tentativas de envolver indevidamente o IBGE numa operação de maquiagem, elevaram o respeito devido a Nunes, tanto no meio acadêmico, quanto entre jornalistas não integrantes da imprensa “chapa branca”.
Esses antecedentes tornam a repentina e inusitada revisão do PIB que fora divulgado em agosto ainda mais inusitada. Como sabe qualquer estagiário de estatística, a revisão dos dados do setor de telecomunicações, que transformaram um tombo 11,5% em uma disparada de 13% no segundo trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado, é impensável num órgão com a respeitabilidade do IBGE.
Erro tão grosseiro só permite duas conclusões. Ou são anunciadas medidas drásticas contra os responsáveis, ou as especulações sobre a verdadeira origem de tal revisão se tornarão ainda mais amplas do que o tamanho do erro. Registre-se que, diante de duas hipóteses tão incômodas, a segunda é ainda mais grave.

Padrão de qualidade
Em palestra ontem, na Expo Light 2001, no Rio, o presidente do Operador Nacional de Sistema (ONS), Mário Santos, depois de reforçar o lobby a favor das termelétricas, deitou falação a favor do programa de energia do governo: “Fizemos um ótimo programa de prevenção. Se não tivéssemos feito, os reservatórios estariam a zero, afetando, principalmente, as regiões Nordeste e Sudeste”. Se o ótimo, deu em racionamento, o regular resultaria na volta às lamparinas e o péssimo, levaria o país à pedra lascada.

Efeito
Com a crise da Swissair, crescem as preocupações com as coligadas, como a Swissport, empresa de atendimento a aeronaves em terra (ground handling, no jargão do setor). A empresa opera em cerca de 10 aeroportos no Brasil e consta que  estaria sofrendo os efeitos dos problemas da companhia aérea suíça, com dificuldades para pagar em dia os salários e o adicional de periculosidade.

Procon
A agência do Procon da Rua Buenos Aires foi desativada pelo Governo do Estado do Rio. No local, lacrado pela Defesa Civil, um funcionário indica à população onde procurar seus direitos de consumidor. Até aí, nenhuma novidade. O descaso dos órgãos públicos com a população é, no mínimo, tema de discussão para todos que já necessitaram desse tipo de serviço. A novidade fica por conta do descaso on line. Quem recorre ao sítio do governo esbarra com uma surpresa nada agradável. O endereço e os telefones indicados são os do posto da Buenos Aires. Perguntado sobre o que aconteceria com seu trabalho, o funcionário, em clima de velório, respondeu: “Eleição é só ano que vem, meu filho…”

Estado terminal
O acirramento da crise da Argentina produziu trocadilho infame, porém, com lastro real no mercado financeiro brasileiro: “O Domingos caiu do cavalo” era um dos comentários mais comuns entres os operadores do lá de cá da fronteira.

Custo
O Custo Unitário Básico (CUB) da construção civil do Rio de Janeiro subiu 1,91% em setembro, ficando em R$ 560,62, reflexo da alta do dólar. O aço – as siderúrgicas são acusadas pelo Cade de formação de cartel – acumula alta de 17,65% no ano. O cimento – outro setor historicamente acusado de combinar preços – ficou ainda mais caro: 4,55% em setembro e 21,05% no acumulado de 2001. Fios elétricos e tintas também pressionaram o CUB. Estável, só o custo da mão-de-obra.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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