De Norte a Sul do Brasil, povo defende democracia e saída de Bolsonaro

Por Paulo Alonso.

Apesar da pandemia que assola o Brasil, com o número de mortos aumentando dia após dia, com uma quantidade alarmante de casos confirmados da Covid-19 e com um despreparado general-ministro-interino à frente do Ministério da Saúde e omitindo criminosamente dados sobre a pandemia, os brasileiros se encorajaram e, destemidos, resolveram enfrentar de peito erguido e aberto essa situação dantesca em que vivemos e foram às ruas, no último domingo, em manifestações pacíficas, protestar contra o desgoverno que se apossou do Brasil, mesmo que, à época, legitimamente eleito. Também bradaram hinos contra o racismo.

Usando máscaras e empunhando faixas e cartazes como “fora Bolsonaro”, “pela democracia”, “Brasil livre e soberano”; “fora militares” e “abaixo o fascismo”, dentre muitas outras frases de ordem, esses manifestantes defenderam as instituições brasileiras, nas ruas, avenidas, becos, largos e praças de 20 capitais do país, além de Brasília. Um verdadeiro espetáculo da democracia, regime pelo qual lutamos e lutaremos pela sua salvaguarda e manutenção. Os protestos por essas pautas no Brasil começaram em São Paulo e no Rio de Janeiro e se estenderam de Norte a Sul.

Em São Paulo, o protesto contra o racismo e o fascismo e a favor da democracia começou no Largo da Batata, em Pinheiros, Zona Oeste. O ato foi convocado por movimentos negros, torcidas organizadas dos quatro grandes clubes de São Paulo e por movimentos sociais integrantes da Frente Povo Sem Medo. Na Avenida Paulista, naquela tarde, um pequeno grupo de formou para apoiar o presidente.

Em Brasília, manifestantes contrários ao governo se concentraram em frente à Biblioteca Nacional na manhã do domingo. Em seguida, seguiram até a Alameda das Bandeiras, onde a Polícia Militar do DF montou um bloqueio para impedir o encontro com um segundo grupo, pró-Bolsonaro. Defensores do governo, em número mais reduzido, permanecem ainda acampados próximo à Praça dos Três Poderes, onde têm feito manifestações aos domingos, agora em menor número de participantes, depois que o STF passou, com vigor, a investigar as fake news e também mandou a PF investigar os patrocinadores desse grupo.

Todavia, o grupo que se intitulava “a favor da democracia” entoou palavras de ordem. A maioria dos manifestantes usou máscaras de proteção facial. Eles carregaram faixas e bandeiras com dizeres contra o racismo, antifascismo, pela democracia, por respeito às mulheres e em defesa do Sistema Único de Saúde. Alguns, vestiam jalecos brancos, representavam os profissionais de saúde e carregavam cruzes pretas em sinal de luto pelas vítimas da Covid-19.

No Rio de Janeiro, a situação não foi diferente. E os manifestantes fizeram uma passeata, de tarde, contra o Governo Bolsonaro e contra o racismo no Centro, em Copacabana e em vários bairros da Cidade. Um grupo caminhou do monumento de Zumbi dos Palmares e se encontrou com mais pessoas no trajeto até a Candelária. Entre eles havia membros de torcidas de futebol antifascistas. Pela manhã, um grupo de pessoas se reuniu na orla de Copacabana, em uma manifestação de apoio ao presidente. Muitos usavam roupas nas cores verde e amarela e seguravam bandeiras do Brasil. Número pequeno, se comparado aos que gritavam e protestaram contra o autoritarismo reinante no país. Não houve registro de confrontos.

Em Minas Gerais, diversos grupos se concentraram em vários pontos de Belo Horizonte. Na praça da Estação, Região Centro-Sul, integrantes da Associação Brasileira de Médicos e Médicas estavam vestidos de branco com faixas em apoio à democracia e pedindo às pessoas que ficassem em casa durante a pandemia. As torcidas dos times mineiros também protestaram. Torcedores de Cruzeiro e do Atlético se reuniram na Praça da Bandeira com faixas “antifascistas” e contra o racismo. Eles seguiram caminhando para a Praça Sete.

No Norte, no Estado do Pará, centenas de pessoas foram às ruas de Belém gritar por democracia, empunhando cartazes e faixas, pedindo união entre os poderes e defendendo a Constituição Federal. Mais cedo, todavia, 30 pessoas que estiveram reunidas em uma praça haviam sido detidas pela Polícia Militar. Elas participavam de uma manifestação contra o fascismo. De acordo com a PM, as pessoas foram levadas por estarem descumprindo o decreto estadual que proíbe aglomerações como medida de prevenção ao novo coronavírus.

Um grupo realizou ato contra o presidente Bolsonaro, no Recife. A manifestação passou por locais como a Avenida Guararapes, Ponte Duarte Coelho e Rua da Aurora. Integrantes do ato vestiam preto e vermelho e carregavam faixas com a frase “fora Bolsonaro” e “somos democracia”. Também havia integrantes carregando faixas com a frase “Justiça por Miguel”, em alusão à criança que morreu, em Recife, na terça, dia 2.

Mais manifestantes se concentraram na Praça do Centenário, no Farol, em Maceió, de onde saíram em caminhada, pregando o regime democrático no Brasil e repudiando o racismo e o fascismo. Naquela manhã, representantes de grupos de capoeira estiveram na Praça Milton Buarque Wanderley, que fica em frente ao Alagoinha, na Ponta Verde, onde tocaram berimbau e estenderam uma faixa com a frase “Capoeiristas contra o racismo”. No final da tarde, um grupo de estudantes ligados a movimentos de classe se reuniu na Praça do Centenário, de onde saíram em caminhada. Eles levavam faixas pedindo a saída do presidente Bolsonaro.

Na capital do Amazonas, manifestantes se reuniram durante a tarde em um protesto contra Bolsonaro, contra o racismo e em defesa dos povos indígenas da Região Amazônica. O ato foi convocado pelo Fórum de Juventude Negra do Amazonas, junto de outros coletivos em defesa da igualdade racial.

Em Salvador, um grupo de manifestantes protestou em frente ao Shopping da Bahia, pedindo a saída do presidente e ainda defendendo a igualdade de direitos, a liberdade à vida e condenando as práticas do fascismo no país.

Em Fortaleza, o ato reuniu uma grande quantidade de pessoas na Avenida Desembargador Moreira, no Bairro Meireles. A manifestação foi marcada como um ato pacífico, com concentração na Praça Portugal.

Em Goiânia, manifestantes protestaram por quase três horas contra o Bolsonaro, contra o racismo e o fascismo e a favor da democracia brasileira. O ato foi pacífico. Apesar disso, durante a manifestação, dois homens foram detidos ao serem flagrados em revista da Polícia Militar com um canivete e uma tesoura com pontas.

Em São Luís, manifestantes realizaram um protesto contra o presidente Bolsonaro, contra o racismo, contra o fascismo e a favor da democracia. O ato durou cerca de duas horas e foi organizado pelo Levante Popular Antifascista.

A manifestação, em Cuiabá, pela saída do presidente Bolsonaro foi intensa. Foi uma organização conjunta de diversos setores da sociedade que promoveu um ato contra Bolsonaro. Os manifestantes caminharam pelas avenidas Getúlio Vargas e Barão de Melgaço até a Praça Ipiranga.

Cruzes foram colocadas por manifestantes nas areias da Praia de Tambaú, em João Pessoa, na madrugada de domingo. A ação foi um protesto contra Bolsonaro. O ato simbólico de espalhar cruzes na praia foi para lembrar os mortos pela pandemia do novo coronavírus, uma crítica feita ao governo que, apesar das mortes e das famílias enlutadas, não adota uma política pública eficiente e eficaz de combate à doença e, pelo contrário, faz pouco caso da pandemia.

Em Curitiba, o protesto contra Bolsonaro foi na Praça Santos Andrade, em frente ao prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, no Centro, e durou cerca de cinco horas. Os manifestantes carregaram cartazes contra o racismo, com nomes de vítimas de violência contra negros e contra Bolsonaro. Também foram registrados atos em Londrina, Ponta Grossa, Foz do Iguaçu e Umuarama.

Em Teresina, os manifestantes realizaram protesto contra o racismo, contra o Governo Federal e a favor da democracia. O ato começou na Praça da Liberdade e durou cerca de uma hora. O protesto contou com a participação de estudantes, líderes de sindicatos e partidos. Bandeiras, faixas e cartazes, além de cânticos de “fora Bolsonaro” eram entoados.

Já em Porto Alegre, duas manifestações contra o presidente Bolsonaro saíram de pontos diferentes no Centro Histórico, se encontraram nas vias adjacentes e se concentraram no Largo Zumbi dos Palmares, palco tradicional de protestos na Capital. Um grupo gritava palavras de ordem contra o presidente e a favor da democracia. Entre eles, simpatizantes dos movimentos antifascista do Grêmio e do Inter. Já o outro levava cartazes em memória de pessoas negras mortas recentemente. Houve também manifestações em Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul, Pelotas e Santa Maria.

Um pequeno grupo de manifestantes se reuniu na Praça do Centro Cívico, na capital de Rondônia, em um protesto contra Bolsonaro e em defesa da democracia. Segundo os manifestantes, o ato foi para simbolizar a luta contra o racismo, o fascismo, e, também, contra a violência que indígenas e mulheres sofrem.

Em Florianópolis, o ato contra o Bolsonaro começou no largo da Catedral Metropolitana. Os manifestantes levaram bandeiras, faixas e cartazes. Eles caminharam pelo centro da cidade e gritaram palavras de ordem. Também foram registrados atos contra o governo federal em Criciúma, Blumenau, Camboriú e Joinville.

Manifestantes se reuniram, em protesto contra o racismo, e contra o fascismo e a favor da democracia, na Praça Fausto Cardoso, em Aracaju. De forma pacífica, os participantes, na sua maioria vestindo preto, exibiram faixas e cartazes contra o racismo e o fascismo, em um ato que durou cerca de duas horas.

No dia seguinte a esses atos que eclodiram em praticamente todo o Brasil, o presidente Bolsonaro disse, na última segunda-feira, a apoiadores na porta da residência oficial do Palácio da Alvorada, que “o grande problema nesse momento é isso que vocês estão vendo aí, viram um pouco na rua ontem [domingo]. Estão começando a colocar as mangas de fora”.

Sempre dúbio em sua fala, incoerente em seu discurso, irresponsável em atos e palavras e ainda demonstrando descaso em relação à pandemia, Bolsonaro atacou os manifestantes que são contrários a ele, ao seu governo e à sua ideologia, dizendo que eles tinham “colocado as mangas de fora”.

Mas o que dizer quando ele próprio reúne seus simpatizantes, e, diga-se de passagem, em número cada vez mais reduzido, e os coloca na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e vai ao encontro dessa trupe, com discurso de ódio e, contrariando as autoridades sanitárias, sem máscara?

Mas o que dizer de um presidente da República que se junta a manifestantes que pregam o fechamento do Congresso Nacional e do STF? O que dizer de um presidente da República que participa de movimentos autoritários que envergam cartazes de “intervenção militar” e “volta ao AI-5”? O que dizer de um presidente da República que, quando questionado sobre as mortes da Covid-19, responde, “e daí”? O que dizer, o que dizer, o que dizer?

Bolsonaro e seus asseclas ficaram assustados com o que viram, com o que observaram. Antes, aos domingos, ele reunia um grupo aqui, outro acolá de manifestantes pró-Bolsonaro, custeados pelos amigos empresários, fazia jogo de cena na rampa do Planalto, vinha do Alvorada de helicóptero e aterrissava na Esplanada, montava a cavalo, tal qual o fez o General Newton Cruz, então Comandante Militar do Planalto, nos idos do governo Figueiredo, juntando-se a grupos que defendiam a ditadura, o fechamento do Congresso Nacional e do STF e pregavam a intervenção militar e ainda a volta do famigerado AI-5…

Aliás, o absurdo em que se vive é tão espantoso, desconcertante e inimaginável que somente após determinação do STF e sob pressão cerrada do Congresso Nacional e da comunidade científica, o governo voltou a publicar os dados completos da Covid-19, depois de uma ida do general-ministro-interino da Saúde à Câmara dos Deputados se explicar e não dizer coisa com coisa. O máximo que pôde concluir, em sua fala, foi que os números da Covid-19 no país são “inescondíveis”.

Ao querer manipular dados da pandemia, Bolsonaro e sua claque atentam contra a saúde pública, repetindo crimes praticados durante os 21 anos da ditadura, quando a censura era praticada de forma violenta e a ocultação de cadáveres era uma realidade cruel.

Agora, Bolsonaro vê, ainda que não queira admitir, que, de fato, sua popularidade está diminuindo, despencando, e, mesmo com o coronavírus, a população está nas ruas, de forma pacífica e ordeira, defendendo a sua saída do governo, entoando palavras de ordem contra o fascismo, contra o autoritarismo, a favor da democracia e dos povos indígenas, em respeito às mulheres e em defesa do Sistema Único de Saúde e da liberdade de expressão.

Todos precisamos estar simplesmente a favor e na defesa do Brasil, com disposição para defender o regime democrático, que é o governo do povo, pelo povo e para o povo, como entendia Abraham Lincoln.

Paulo Alonso

Jornalista.

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