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quinta-feira, janeiro 21, 2021

De volta ao passado

A economia brasileira ainda nem se recuperou do tombo de 2015 e 2016 e deve ter em 2020 um dos piores desempenhos de sua história. Os dados do IBGE divulgados nesta sexta-feira demonstram que no primeiro trimestre o PIB brasileiro recuou 1,5% ante o último trimestre do ano passado. Esta foi a maior queda desde o segundo trimestre de 2015, quando o país vivia a recessão.

Mas esta retração da economia ainda não reflete totalmente os efeitos da pandemia e, muito menos, a crise política que assola o Brasil e agrava o caos. A grande perda deve ocorrer nos próximos trimestres, principalmente no segundo, marcado pela quarentena nos meses de abril e maio. Para o ano, uma queda de 5% é praticamente dada, mas deve ser ainda maior. A depender do desenrolar da crise política e das medidas para reverter o quadro, a contração ficar próxima dos dois dígitos, algo inédito em todas as recessões que já sofremos.

A abertura gradual pode levar a alguma recuperação da atividade, e há aqueles que falam que a demanda reprimida pode saltar quando isso ocorrer. Houve um tombo de 2% do consumo neste primeiro tri, o maior desde o terceiro trimestre de 2001, quando caiu 3,1% devido ao racionamento de energia. No entanto, é preciso lembrar que a quarentena não foi adotada de maneira aleatória como o presidente quis apregoar, e, a depender de como a política de abertura for feita, pode ser um tiro no pé.

Pela ótica da oferta, o setor de serviços foi o que mais sofreu no primeiro trimestre. E isso já era esperado. O segmento recuou 1,6%, seu pior desempenho desde o quarto trimestre de 2008, ano da crise do subprime, quando houve a falência do banco americano Lehman Brothers. As “outras atividades de serviços” recuaram 4,6% no primeiro trimestre deste ano ante o último de 2019, também o pior desempenho da série histórica do IBGE, iniciada em 1996.

Quedas recordes, falta de perspectiva, desespero do empresariado e contração de renda das famílias. O conjunto da obra para fazer com que a contração fique acima do projetado pelo relatório Focus do Banco Central está dado. Além do mais, o governo se mostra inapto para tomar as medidas necessárias para dar um direcionamento econômico. Lembra-se até do pré-impeachment de Dilma e Collor, quando os políticos entraram em greve. Nada passava no Congresso e, portanto, nada era possível fazer. A diferença agora é que até se tem um Congresso com boa vontade, a letargia vem do próprio governo.

Em 100 anos de PIB brasileiro, em poucos momentos, o PIB caiu mais de 1% em termos reais. Na verdade, é possível contar nos dedos. Foram 9 vezes: 1908, 1914, 1918, 1930, 1942, 1981, 1990, 2015 e 2016. Na maioria das ocasiões, a crise não se prolongou por mais de um ano, com exceção da crise de 29, da moratória dos anos 80 e do pós-impeachment de Dilma.

Na verdade, esta última crise (2015–2016) foi a maior da história brasileira. Apesar de o PIB não ter despencado o mesmo que na de 1930, os anos seguintes à crise foram tomados pela letargia na recuperação, que nem havia ocorrido em sua totalidade. Caímos 3,8% em 2015 e 3,6% em 2016. Em 2017, a alta foi de 1%, em 2018 de 1,1% e em 2019, o primeiro ano do Governo Bolsonaro, de 1,1%. Se fizermos uma conta de padeiro somando os percentuais dos últimos 3 anos, que gera um número de 3,2%, vemos que ele não compensa nem o que foi perdido em 2015.

Agora, com a pandemia, mais contração assola a economia brasileira que já vinha em uma situação de fragilidade. Herança maldita, diriam os Bolsonaristas. Não, o PT colocou o Brasil no rumo certo, o problema foi o golpe. O fato é que, enquanto olharmos o passado sem buscar perspectivas e políticas que mirem o futuro, vamos ficar buscando culpados. A pandemia está aí, aleatória à nossa vontade. O que fazer com tudo isso é que vai definir o tamanho da perda: 5%, 7% ou 10%. E este membro amputado da economia pode não voltar. Vide 2015 e 2016. A destruição do PIB foi dada.

Ana Borges
Colunista.

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