Deflação: não é hora de vender títulos indexados ao IPCA

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App do Tesouro Direto (reprodução)
App do Tesouro Direto (reprodução)

Por Gilmara Santos, especial para o Monitor

 

O cenário de deflação observado no mês passado colocou investidores em títulos do Tesouro Direto IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) ou em outros investimentos de renda fixa com retorno atrelado à inflação em alerta. O IPCA fechou julho, último dado divulgado pelo IBGE, em queda de 0,68%, após alta de 0,67% em junho. Foi a menor taxa registrada desde o início da série histórica, iniciada em janeiro de 1980.

No ano, o IPCA acumula alta de 4,77% e, nos últimos 12 meses, de 10,07%, abaixo dos 11,89% observados nos 12 meses imediatamente anteriores. Com isso, os rendimentos podem ter aparecido negativos no mês passado. Especialistas, no entanto, alertam que o investidor deve olhar a expectativa de inflação anualizada e não a de curto prazo, como é o caso de um indicador mensal, ao realizar um investimento.

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“A ideia é olhar o número fechado para o ano. Considerando a expectativa de inflação em torno de 7% neste ano, a deflação é breve e pode afetar o preço do título. Porém, isso não significa que ele deixou de ser interessante”, avalia Ricardo Jorge, especialista em renda fixa e sócio da Quantzed.

“Falar de deflação em um país como o Brasil é bastante difícil, pois na verdade quando um mês ou outro a inflação cai, no conjunto da ópera, se olharmos os 12 últimos meses por exemplo, ela continua bastante alta. Mesmo que a inflação entre nos trilhos com as medidas do governo, ela vai continuar existindo”, considera Ale Boiani, CEO, gestora e fundadora do 360iGroup.

Na prática, explica Jorge, os papéis prefixados e os atrelados à inflação, especialmente os de longo prazo, que são mais sensíveis às variações, costumam valorizar quando as taxas de juros estão em tendência de queda. O contrário também é verdadeiro. “A questão, nesse caso, é verificar qual fator terá mais influência no preço dos papéis, se será a deflação, ou a taxa prefixada negociada no mercado secundário. A única certeza que temos todos os dias é que o VNA (Valor Nominal Atualizado) cairá por conta da deflação e a dúvida sobre o preço ficará por conta das negociações diárias.”

Para os especialistas, alocar em papéis atrelados à inflação neste momento faz sentido por dois motivos: eles oferecem proteção ao investidor no caso de um novo movimento inflacionário e são títulos que tendem a ser mais rentáveis quando há um ciclo de corte da Selic. “Em 2019, por exemplo, quando a Selic saiu de 6,5% ao ano até chegar aos 2% ao ano no meio de 2020, os títulos atrelados à inflação apresentaram bom retorno, justamente porque a parte prefixada costuma se valorizar quando há um processo de afrouxamento monetário”, diz Ricardo Jorge.

 

Preferência para prazos entre 1 e 2 anos

Ale Boiani, CEO, gestora e fundadora do 360iGroup, explica que o objetivo dos títulos que pagam IPCA mais taxa fixa é que o investidor consiga receber juros reais, que seria IPCA (manutenção do valor de compra) mais uma taxa prefixada. “Como estamos esperando uma queda na inflação, dependendo do prazo, estão disponíveis nas plataformas o componente taxa fixa bastante interessante. Perto de 8% de juros reais para títulos de curto prazo (1 ou 2 anos). Quando pensamos em prazos mais longos, a média de juro real está por volta de 5,5”, calcula.

Para ela, quem já tem título atrelado ao IPCA, na maior parte dos casos, não deve fazer nada neste momento. “Sair fora da data de vencimento do ativo expõe o investidor à precificação imediata do mercado, o que pode implicar perda em um ativo que praticamente não tem risco, já que estamos falando do risco de crédito do governo. Se for para entrar agora em títulos IPCA, dar preferência para os prazos entre um e dois anos”, ensina.

Walter Fogolin, head de produtos da InvestSmart XP, alerta que se o investidor quiser resgatar o recurso no meio do caminho, ele pode sair com um valor menor do que o valor aplicado, assim como também pode sair com um valor bem maior que o valor aplicado. “O preço dos títulos oscila no mercado diariamente em função da taxa praticada no mercado e a taxa contratada pelo investidor, quando a taxa sobe o preço do título cai, quando a taxa cai o preço do título sobe, isso pelo conceito da marcação a mercado”, diz.

“Os títulos IPCA+ têm tem precificação a mercado, dependendo de como estiver a taxa de juros e a inflação. Quanto maior o prazo, independente de qual tipo de título for, maior a volatilidade, pela incerteza de como estará o mercado. Quando invisto para um ou dois anos, por mais que ninguém tenha certeza absoluta de como estará a inflação e a taxa de juros, é muito mais previsível. Se invisto para 10, 20 anos, fica difícil saber. Quanto maior a incerteza, mais volátil”, finaliza Ale Boiani.

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