Depois da chuva

O tucanato está aproveitando a crise de energia para passar contrabandos inconfessáveis à sociedade brasileira. Depois de estrangular o sistema, com cortes draconianos de investimentos e com uma privatização que privilegia o lucro das concessionárias, em detrimento do aumento da oferta de energia, o governo está impondo ao país a mudança de sua matriz energética. Ao anunciar, semana passada, os investimentos de Furnas até 2007, o presidente da empresa, Luiz Carlos Santos, não mencionou a aplicação de um único centavo em hidrelétricas. Fora a construção de três linhas de transmissão, os investimentos previstos se concentram em usinas termelétricas.
Depois da chuva II
Além de mais poluente e de fonte não renovável, a energia a gás deixa o país ao sabor da flutuação da variação do dólar, o que implica o estrangulamento dos investimentos das empresas ou um curto circuito no bolso do consumidor. Como o controle da maior parte das termelétricas deve ser transferida para grandes grupos estrangeiros, após, obviamente, o risco cambial ser assumido pela Petrobras, a implantação da nova matriz energética representará nova pressão sobre as combalidas contas externas do país, com o aumento da remessa de lucros, dividendos e royalties para as matrizes.

Verba
Levantamento efetuado pela Capitolio Consulting, empresa especializada na prestação de serviços de consultoria sobre planos e seguros de saúde, apurou que a Agência Nacional de Saúde (ANS), órgão regulador do setor de planos e seguros privados de assistência à saúde, arrecadou, no período compreendido entre fevereiro de 2000 e março de 2001, R$ 56,2 milhões por conta das taxas e multas cobradas das empresas do setor, assim como dos rendimentos pela aplicação desses recursos. Desse total, praticamente 83% dizem respeito ao recolhimento trimestral pelas operadoras e seguradoras da taxa de saúde suplementar, calculada por plano de saúde a partir do número de beneficiários existente em cada operadora ou seguradora.

Contramão
Nem todos consumidores terão que reduzir seu consumo. Os clientes da Light com relógio trifásico – que pagam no mínimo o equivalente a 100 kwh – receberam cartas com suas médias indicando que poderiam gastar os 100 kwh. Mesmo quem não alcançava este consumo. Uma consumidora, por exemplo, que gastava 80 kwh por mês poderá aumentar seu consumo em 25%. Tudo isso para a distribuidora não precisar abrir mão do seu extemporâneo faturamento mínimo.

Contrabando
Os arrepios provocados no Planalto pelo crescimento da candidatura de Itamar Franco chegaram à telinha. Na estréia de Os normais, sexta-feira passada na TV Globo, algum capo da emissora achou por bem enxertar no fim do programa a afirmação de que, apesar do apagão e outras mazelas tucanas, o país poderia estar “ainda pior”: “Imagine se a gente estivesse em 93, com Itamar Franco presidente.” Mais claro impossível.

Aos costumes
A falência da segurança pública está levando à constituição de brigadas privadas informais, com total apoio da população. Sábado à tarde, dois ladrões que furtaram a bolsa de uma turista na Praia de Copacabana tomaram uma surra dos banhistas, capitaneados pelos integrantes de uma rede de vôlei. E pelo tom das conversas na praia depois do quase linchamento, a cena é corriqueira no local, mas, pelo visto, esse tipo de ação passa longe das estatísticas da Secretaria de Segurança.

Renegociação
“Qualquer reajuste das tarifas de energia a partir do próximo governo terá de passar pela rediscussão de todo o modelo energético brasileiro.” A opinião é do presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP), ao repercutir a notícia de que, mantido o atual modelo de privatização, a tarifa de energia deverá subir 60% em 2003. Para o petista, a opção pelas termelétricas a gás é “emergencial”, e o Brasil não deve abandonar a geração de energia por meio de usinas hidrelétricas. “O Brasil não pode abandonar esse modelo, de baixo custo e que nos dá competitividade. O modelo de desenvolvimento brasileiro não pode ficar subordinado aos interesses de empresas”, disse Dirceu, que acredita que “o Brasil terá de renegociar todos os contratos e parar a privatização”.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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