Desafios na educação na era pós-Covid

Por Paulo Alonso.

Opinião / 17:41 - 25 de jun de 2020

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A educação do Brasil vem enfrentando, desde a crise econômica ocorrida em 2015, uma série de desafios econômicos, sociais e culturais extremamente importantes. Ainda que o horizonte pudesse de alguma forma sinalizar otimismo relativo ao crescimento econômico do país, o mundo ficou abalado com a pandemia do novo coronavírus – Covid-19. Com esse advento, que tomou a todos de surpresa, as perspectivas, que eram até positivas dos diferentes setores econômicos neste ano, caíram ladeira abaixo.

No que tange ao ensino-aprendizagem, o desafio instado pelo vírus fez que com as instituições de educação, desde o segmento infantil e até aos programas de pós-graduação, procurassem, e imediatamente, alternativas para que os calendários acadêmicos não fossem prejudicados, e os alunos, em consequência, com o risco inclusive de não terem como prosseguir os seus estudos.

Foi, e ainda está sendo, necessária a criação e a implementação de técnicas e estratégias online, as chamadas aulas remotas, por dirigentes e professores. Essa tomada de atitude fez-se imprescindível, tendo em vista o cenário sombrio vivido.

Sabemos, perfeitamente, que o acesso à internet de qualidade ainda é um privilégio de uma parcela da sociedade brasileira, que se beneficia dos novos formatos de interação entre docentes e discentes. Na educação superior, as dificuldades são de natureza educacional, econômica e regulatória, uma vez que todas as ações de uma instituição superior são reguladas pelo Ministério da Educação. Portarias foram e estão sendo baixadas, e a última delas, Portaria 544, de 16 de junho de 2020, indica que as aulas remotas poderão ser adotadas até o dia 31 de dezembro de 2020.

Esse ambiente incerto e a necessidade de implementar uma metodologia remota emergencial irão, certamente, revolucionar o setor. Os especialistas em educação Fernando Covac, sócio da Expertise Educação, e Rodrigo Capelato, economista, diretor executivo do Semesp, também sócio da Expertise Educação, produziram um documento importante sobre o momento atual e suas consequências, tendo em vista a necessidade de revisão de processos e de procedimentos das instituições, introdução de tantos outros e ainda a imprescindível inovação metodológica e tecnológica, que passaram a ditar as normas da vida universitária.

Com a suspensão das atividades presenciais nas IES, rapidamente as instituições de ensino superior, sobretudo as privadas, transformaram as aulas para um formato remoto por meio de plataformas que possibilitam a entrega de forma síncrona na casa dos alunos. O Google for Education tem sido utilizado por muitas instituições, e o resultado apresentado, por suas salas de aula, é muito satisfatório.

Desde o começo da pandemia, no entanto, a opinião de alunos e responsáveis sobre as diferentes formas de ensino divergem. E nem poderia ser diferente, uma vez que houve uma quebra de paradigma, e abrupto. Entre as reclamações, estão comentários sobre a qualidade do ensino, dificuldade de concentração e problemas de acesso às plataformas.

Outra parcela do público defende com veemência que as aulas disponibilizadas remotamente possuem qualidade e são práticas, pois colaboraram com a distribuição de tempo do aluno, alegando também como fatores positivos a possibilidade de controle da reprodução de conteúdo de maneira simples e acesso a qualquer momento do dia.

São variadas as reclamações sobre incompatibilidade de horários das aulas e, principalmente, pela infraestrutura em casa, que não suporta o acompanhamento das aulas com qualidade. Por outro lado, uma quantidade de alunos alega estar satisfeitos com o modelo de aulas remotas, afirmando que o ensino é mais efetivo, permitindo um contato mais direto com os professores e colegas de turma.

Em virtude do isolamento social imposto pela pandemia da Covid-19, os professores e alunos tiveram que se adaptar às aulas por meio das mais diversas tecnologias disponíveis para a educação. Por causa da pandemia e a necessidade de se ofertar aulas remotas, as instituições de ensino privadas passaram a sofrer pressão pela redução do valor das mensalidades, concessão de descontos e renegociação de pagamentos.

Apesar de a maioria dos estudantes de ensino superior ter acesso à internet em casa, a qualidade da conexão, do equipamento ou a falta de conhecimento tecnológico é um fator a ser considerado. Assim sendo, garantir que todos os alunos tenham acesso à aula com qualidade é fundamental. As instituições precisam garantir que os equipamentos, a internet e a usabilidade por parte dos professores e dos alunos sejam boas. Além disso, é interessante que possam disponibilizar as aulas gravadas.

Importante lembrar que todos os alunos precisam ser acompanhados de perto. Acolher é a palavra de ordem. Existem numerosos casos de professores elogiados no novo formato de aula, embora alguns ainda apresentem dificuldades em adaptar a sua metodologia de aula.

É fundamental dar suporte ao corpo docente para que esse possa reformular seus planos de aulas e suas metodologias. Daí a necessidade de uma equipe de tecnologia e informática estar à disposição da comunidade em tempo real e integral. Não há como simplesmente transpor uma aula presencial expositiva para o formato de aula ao vivo online. É fundamental reduzir o tempo de exposição e mesclar com outras atividades, incluindo as metodologias ativas.

As primeiras informações sobre retomada das aulas indicam que a volta será gradual. Nesse sentido, é fundamental planejar como serão as aulas e sinalizar para os alunos que o calendário será integralmente cumprido. Mesmo mantendo as aulas de forma remota, os alunos precisam saber o que vai acontecer e, sobretudo, ter a garantia de que o serviço será prestado por completo.

A possibilidade de aulas remotas ao vivo, combinada com mais tempo livre e busca por maior empregabilidade, tem sido determinante para aumentar a procura por especialização, tornando-se uma oportunidade nesse momento. Assim como a pós-graduação lato sensu, a oferta de cursos livres também é interessante, mesmo no caso de serem gratuitos, pois mantém a visibilidade da instituição e pode gerar potenciais alunos de graduação no futuro. Educação continuada.

Está claro que o modelo de ensino superior irá mudar. Os especialistas apontam para um novo modelo que combinará aulas remotas síncronas, com aulas online assíncronas e atividades presenciais. Pensar na nova forma de ensino que virá poderá ser uma grande vantagem competitiva para as instituições. As IES que se prepararem e conseguirem repensar seus modelos e suas estruturas sairão na frente. A oferta de um modelo que seja atraente aos alunos, combinada com valores de mensalidades competitivos, provavelmente, será a vencedora na era pós-Covid.

Paulo Alonso

Jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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